Lembrar? Para quê?

LEMBRAR? PARA QUÊ?

Margarete Hülsendeger

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.

Jose Saramago

Nos anos 60 havia um seriado de ficção científica (Star Trek) que costumava iniciar com a seguinte frase: “Espaço, a fronteira final…”. O objetivo era mostrar que apenas fora do nosso planeta encontraríamos aventuras e desafios dignos de serem vividos. Hoje, 50 anos depois, sabemos que ainda há muito a ser explorado e descoberto aqui mesmo no “nosso quintal”. E uma dessas regiões inexploradas encontra-se bem perto de nós; mais especificamente, dentro da nossa cabeça. Estou me referindo ao cérebro.

Ele já foi pesado, medido e suas diferentes regiões mapeadas, mas saber, realmente, como é o seu funcionamento isso ainda permanece um mistério. E entre as várias questões investigadas está a memória.

No momento, sabe-se que existem dois tipos: a de curto e a de longo prazo. A primeira diz respeito às lembranças armazenadas por um pequeno período de tempo e depois rapidamente esquecidas: o número de um telefone, a loja onde se comprou o presente de um amigo ou o conteúdo de um livro desinteressante. A segunda são as recordações que têm uma duração maior, podendo ser acessadas a qualquer instante: a lembrança do primeiro beijo, o dia do nascimento dos filhos, uma festa ou um encontro especial.

Na Alemanha, cientistas do Instituto Max Planck descobriram que a memória de curto prazo, apesar de parecer um processo simples, é na verdade, um sistema complexo, que depende da sincronia de diferentes áreas do cérebro. Em outro estudo, pesquisadores americanos da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, demonstraram que a memória pode ser aumentada estimulando determinadas zonas cerebrais.

E as pesquisas não param por aí. Cientistas também afirmam que seria impossível para o cérebro armazenar todas as informações com as quais somos bombardeados diariamente. E como a primeira fase de estocagem se dá pelo contato sensorial, o sono seria o período no qual a mente seleciona o que deve permanecer e o que deve esquecido. Assim, quando dormimos estamos nos protegendo de “invasões” externas, permitindo que o cérebro tenha o tempo necessário para “desligar” e fazer o seu próprio backup. Por essa razão, os distúrbios do sono também são o foco de interesse dos especialistas que estudam a fisiologia do cérebro, pois seu entendimento poderá fornecer respostas que ajudem a explicar muitas das questões associadas aos problemas de memória.

De qualquer maneira, mesmo que os cientistas saibam localizar a porta de acesso à memória, ou tenham encontrado fortes evidências de um possível mecanismo que permita aumentá-la, ou consigam resolver as dificuldades relacionadas ao sono, esses estudos estão longe de serem conclusivos. Logo, o cérebro continua sendo uma caixinha de surpresas, um território que tem muito a ser explorado e onde o número de perguntas é superior ao de respostas.

Contudo, enquanto os esclarecimentos não vêm, temos de aceitar o óbvio: lembramos apenas o que queremos lembrar. Por esse motivo, não fico aborrecida quando não lembro o número de um telefone ou de alguma situação triste ou constrangedora. Procuro resguardar meus preciosos neurônios para eventos que realmente valham a pena. O resto deixo a critério desses mecanismos cerebrais ainda desconhecidos, pois confio que eles saberão escolher o que for melhor. É como diz Eduardo Galeano: “A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo”. Assim, para que lembrar o quê não merece ser lembrado?

 

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