Aconteceu… Neste Natal

Aconteceu… Neste Natal

Aparecida Luzia de Mello*

Aparecida Luzia de Mello É Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias.

As férias escolares da garotinha chegaram e com ela os problemas para a mãe executiva.

Deixa-la em casa com a empregada era difícil para a mãe, pois as atividades se resumiam em TV + TV + TV… Ela sabia disto, mas não queria incomodar a família. Todavia no segundo dia a garotinha já estava amuada, manhosa e com olhar tristonho, por ser uma menina muito comunicativa e inteligente precisava de “ação”.

Quando a avó soube, de pronto, dispôs-se a buscar a netinha e ficar com ela durante a semana.

Na manha seguinte a avó tomou banho, vestiu-se com uma roupa leve devido ao calor, e, arrumada foi buscar a neta.

Instaladas no carro, a garotinha sentada na cadeirinha apropriada no banco de trás e a avó no volante, as duas começaram conversar. Combinaram de fazer panquecas, ir ao supermercado, brincar de médica e paciente e montar a piscina infantil no quintal da casa se fizesse sol.

Quando a avó falou sobre o sol a garotinha calou-se, pensou um pouco e depois perguntou:

-: vovó, quando vai ter neve aqui?

A avó respondeu:

-: aqui não temos neve, meu amor. A gente está no Brasil. Nesta época faz muito calor e chove…

Um minuto depois a garotinha estava aos berros, chorando tão alto que a avó se assustou. Aflita a avó deu seta e encostou o carro imediatamente. Ligou o pisca alerta, tirou o cinto e se jogou para o banco de trás querendo saber o que tinha acontecido, se algo estava machucando-a… E preocupada perguntou:

-: o que foi meu amor? Você se machucou?

A garotinha em lágrimas questionou:

-: vovó aqui não tem neve?

A avó respondeu:

-: não meu amor, aqui não tem neve, mas porque você está chorando?

E a menina, ainda soluçando perguntou:

-: então a gente não vai ter natal?!?

A avó se deu conta que a mensagem do natal estava chegando de forma equivocada para a netinha. Acariciou seus cabelos, beijou sua face e lhe disse que ela iria lhe mostrar a história do natal com e também sem neve.

Mais tarde, com um livro apropriado para uma criança da idade dela, contou a história do nascimento do Menino Jesus à garotinha, mostrou a figura da manjedoura, da Estrela de Belém, de Maria, José, dos três Reis Magos. Ela encantada ouviu a história e viu as imagens do livro, fez algumas perguntas e depois, satisfeita foi brincar.

Na véspera de natal a família se reuniu. Doze adultos e duas crianças. Jantaram, oraram e começaram a distribuir os presentes que já estavam embaixo da árvore de natal, devidamente etiquetados com os dizeres: “do papai Noel para…”, “da mamãe para…”, “do vovô para…”, “do titio para…” e dai por diante.

Logicamente as crianças ganharam muito mais presentes que os adultos, os pacotes grandes, médios e pequenos se avolumavam ao lado das pequenas…

A netinha então começou a olhar para os pacotes e foi abrindo um atrás do outro, mas sempre atenta à distribuição, a ponto de parar de desembrulhar seus pacotes para ver quem era o felizardo que iria receber o próximo presente. É claro que aquela curiosidade chamou a atenção, mas ninguém perguntou nada. Ao final ela deixou um dos pacotes grandes que havia ganhado fechado. Quando questionada se não iria abrir o último pacote, ela respondeu que não.

Quando todos os presentes já tinham sido entregues e a sobremesa servida, a mãe da menina sugeriu que as crianças deveriam ir dormir, pois já era tarde e no dia seguinte se quisessem elas poderiam levantar cedo e brincar a vontade.

A garotinha então disse que queria agradecer ao Papai do Céu, pelo dia feliz que tiveram. A família surpresa silenciou e esperou que ela falasse.

Eis a prece que ela fez:

-: “querido Papai do Céu, obrigada pelo dia de hoje. Abençoa a mocinha[1], o papai, a mamãe e todo mundo. Aproveita e dá um recadinho para o Menino Jesus: como ninguém se lembrou de dar um presente para Ele eu dividi o que ganhei. Vou deixar este pacote embaixo da árvore. Ele pode abrir a hora que quiser. Amém”.

 A oração da garotinha de quatro anos deixou todos de queixo caído.  A avó abraçou-a com lágrimas nos olhos e cada familiar que ali se encontrava baixou a cabeça em sinal de profunda reflexão…

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br

[1] Mocinha neste caso é ela própria.

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