Argos, o cão de Ulisses

Argos, o cão de Ulisses

Gilda E. Kluppel

 

“Em dias passados, os mancebos tinham levado
O cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.
Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente…”
Odisseia de Homero, Versos do Canto XVII

 

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

Argos, o cão que Ulisses deixou ainda pequeno, aquele que compartilhava suas alegrias e brincadeiras, também o acompanhava em suas caçadas, antes de partir para Troia. Quando Ulisses retorna da longa odisseia, após vinte anos e disfarçado de mendigo, apenas Argos, agora um velho cão, o reconhece. E Argos permaneceu, com o olhar mirando o mar, em permanente vigília pelo seu dono, na ilha de Ítaca, antiga Grécia. Ulisses, perambulando como mendigo, pergunta sobre o cão que estava, coberto de carrapatos e quase cego, deitado no pátio do palácio. Argos, ao ouvir a sua voz, abana o rabo e move as orelhas, sequer tem mais força para se levantar.

Ulisses regressa incógnito ao se disfarçar em pobres vestes, seguindo o conselho e as artimanhas da deusa Atena, que envelhece a sua face para enganar os inimigos, usurpadores do reino. Esmolando diante do palácio e desprezado por todos, Argos, mais astuto que os homens, o reconhece para em seguida partir em paz, ao cumprir o seu destino. Talvez, o único motivo pelo qual conseguiu sobreviver por longos anos, acordando todos os dias para cumprir a paciente jornada; sem necessitar da capacidade humana mais apurada para planejar os seus atos.

Argos, com a audição e o faro tão desenvolvidos, em meio as lembranças relacionadas com aromas e ruídos, não esqueceu o cheiro e a voz de Ulisses, mal sabia por quantos anos esperava. Não podia contar o tempo de forma linear e sequer controlá-lo. Por não encadear o tempo numa sequência, a contagem era sentida pelo acúmulo da ausência de Ulisses. Viveu acima da média para um cão, vida levada pelo coração e instinto, dedicada à espera de Ulisses. Uma predestinação canina de permanecer fiel ao seu compromisso pela certeza do reencontro.

Humanos sabem que o tempo passa rápido quando estão felizes e também, com o avanço da idade, os finais de semanas, de meses e de anos chegam mais depressa, como diz o verso de Mario Quintana: “Quando se vê passaram 50 anos”. Mas, sobretudo, em situações de espera o tempo demora ainda mais para passar. Todas as esperas são longas, causam ansiedade e incertezas e poucos conseguem perseverar, então qual o instinto ou sentimento envolveu Argos?

A espera, que ultrapassa o nosso entendimento, subverte a ordem dita racional, pois se baseia no amor incondicional. Com o decorrer do tempo aprendemos a conhecer melhor o cão e suas necessidades, facilitando a comunicação entre o homem e o animal. Contudo, ainda permanece o mistério sobre o sentimento sublime que estimula o cão para tomar algumas atitudes tão surpreendentes.

O valente guerreiro Ulisses deixou cair uma lágrima ao ver o velho Argos, lágrima não derramada em nenhuma de suas inúmeras batalhas. Ulisses percebeu o forte elo formado com o animal, capaz de farejar emoções que muitos humanos sequer podem detectar, reconheceu nele o que mais se aproxima do puro e perfeito amor.

O cão, apesar de inúmeras tentativas infantis de humanizá-lo nos dias de hoje, pelas atribuições de características que não são de sua natureza, completa o homem com sentimentos e emoções que o homem não tem. Logo, ao invés de tentar torná-lo semi-humano, poderíamos aproximar mais nossos corações do coração canino. E assim, talvez fosse possível absorver esta enorme generosidade, comum entre os cães, mas tão difícil para os homens.

Descrito pela literatura de Homero, no século VIII a.C., a lembrança de Argos, nome grego de significado “o que tem luz”, permanece pela eternidade, afinal todos os cães do mundo são iguais ao fiel amigo Argos.

 

 

 

 

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