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Quando é hora de dizer adeus?

QUANDO É HORA DE DIZER ADEUS?

Margarete Hülsendeger

 

Tão bom viver dia a dia

A vida, assim jamais cansa…

Viver tão só momentos,

Como essas nuvens do céu…

Mario Quintana

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Quando se sabe a hora de partir? Quando se aceita que a realidade até agora sentida e vivida não é mais o que se deseja? Quando?!

Em um momento estamos presos – sem percebermos ou nos importarmos – a uma rotina que nos esmaga e consome. Em outro, nosso único e dolorido desejo é fugir, deixando para trás todas aquelas pequenas grandes coisas que durante tanto tempo definiram e, muitas vezes, determinaram o nosso modo de pensar e de agir. De repente, questiona-se tudo, em especial, o que fizemos e deixamos de fazer para estarmos naquele espaço que um dia acreditamos ser o nosso.

Nessa hora, quando a dúvida nos agarra e espreme a alma, despojando-a de ilusões, é que o arrependimento aparece, tornando a sensação de não pertencer mais forte e ainda mais sufocante. No entanto, se dermos chance à razão, o alívio, com certeza, será imenso, pois compreenderemos que todas as nossas experiências não foram vazias. Ao contrário. Elas tornaram-se partes de nós, transformando os rompimentos, separações e, consequentemente, as mudanças de trajetória nos diversos caminhos que precisávamos percorrer. A escritora neozelandesa Katherine Masfield (1888-1923) dizia que uma de suas regras de vida era a de nunca se arrepender ou olhar para trás. Segundo ela, “O arrependimento é um terrível desperdício de energia; você não pode construir sobre ele, ele é bom apenas para se ficar revolvendo”.

De qualquer maneira, mesmo concordando com a autora, o fato é que dúvidas e arrependimentos são normais na vida; o importante é não fazer deles instrumentos de tortura. A dúvida saudável permite-nos questionar os nossos propósitos, visualizando possibilidades, pois a cegueira das certezas não nos permite ver muito além do nosso nariz. Do mesmo modo, o arrependimento. Ele nos ajuda na prática do perdão, não só dos nossos erros, mas, principalmente, dos erros daqueles que vivem próximos a nós. A ausência do arrependimento aumenta o risco de não ouvirmos a voz do outro, centrando-nos apenas em nossos desejos e emoções.

Enfim, quando sabemos que é chegada a hora de partir? A verdade é que nunca sabemos, pois a certeza não faz parte desse jogo chamado vida.

Quanto a mim, confesso, a despedida é sempre dura, pois significa a dor de ir sem saber se a volta é garantida. Contudo, compreendo que é preciso em algum momento dizer adeus. Deixar para trás os arrependimentos e as dúvidas, impedindo, como disse Katherine Mansfield, um desperdício inútil de energia. O tempo e a forma como iremos lidar com esses sentimentos depende somente de nós. Afinal, a vida segue adiante e não podemos ficar para trás.

Assim, entre partidas e chegadas a energia que permeia o universo se move e se transforma e todos nos movemos e transformamos com ela. Então, respire fundo, abra bem os olhos e deixe-se ir. Abandone o conforto desse espaço que até agora era seu e prepare-se para todos os outros que ainda estão por vir. Afinal, como dizia Machado de Assis, a vida é como um quadro em branco, para escrever um novo caso é preciso apagar o que já estava escrito.

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . QUANDO É HORA DE DIZER ADEUS. REIVSTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, , v. 2, p. 4 – 4, 02 fev. 2013.

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