Os chatos

Margarete Hülsendeger

Chato… Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele.

Millôr Fernandes

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Sabe aquela máxima antiga, “De médico e louco todo mundo tem um pouco”? Pois é, acredito que esse ditado também se aplica à chatice. É inevitável, todos somos um pouco chatos, ou seja, pessoas que, segundo o Houaiss, aborrecem, perturbam e, em casos mais extremos, até preocupam pelos níveis de chatice que são capazes de atingir.

Portanto, não deveria ser surpresa para ninguém que eles também estejam presentes nas redes sociais. Por essa razão uma rede de lojas de artigos esportivos britânica resolveu realizar uma pesquisa com o propósito de obter um perfil mais claro desses potenciais clientes. A pesquisa foi publicada no jornal inglês “Daily Mail”, em 14 de março desse ano, e os resultados deixaram a Sweatband – loja solicitante do estudo – muito satisfeita.

Dos 1793 usuários ouvidos, 53% são viciados em dietas e exercícios. São os amigos que ficam o tempo todo postando informações sobre calorias perdidas e cada novo exercício realizado na academia. Além disso, não perdem a oportunidade de postar fotos de seus progressos ou de seus corpos sarados. Uma chatice de proporções planetárias!

No entanto, como se trata de um estudo inglês, fiquei na dúvida se aqui no Brasil os resultados seriam os mesmos. Para que cada um tire suas próprias conclusões, informo quais são os chatos que ocupam as outras duas posições: em segundo lugar, com 45%, encontraremos os fanáticos por comida e em terceiro, com 42%, os chamados polemistas de sofá. Depois segue uma lista que vai dos social gamers – enviam compulsivamente convites para jogos de todo o tipo –, passando pelos “batedores do ponto” – dizem onde, quando e por quê estiveram em um estabelecimento comercial – até chegarmos aos promotores de si mesmos que dispensam explicações.

Alguns poderão estar se dizendo, “Bom, isso é internet, então, onde está o problema? Porque o rótulo de chato?”

A resposta é simples: eles exageram (muito!) ao querer impingir seus gostos e preferências. E tudo que extrapola os limites razoáveis da boa convivência se torna inevitavelmente maçante.

Acho maravilhosas as pessoas que curtem permanecer em uma academia várias horas ao dia, eles têm todo o meu respeito e até a minha inveja. Contudo, qual a necessidade de ficar postando fotos de homens e mulheres fazendo mil flexões, mostrando corpos suados e rostos idiotamente felizes. Não me entendam mal. O problema não são os comentários ou as fotos, mas a frequência, quase maníaca, com a qual elas são postadas. Logo, a grande chatice é isso acontecer a cada segundo, lotando a página inicial de imagens e frases supostamente motivacionais que você não tem o menor interesse em ver.

E o que dizer dos aficionados por comida? Vão ao restaurante e, clique, fotografam o prato que vão comer. Fazem um almoço só para família e, clique, lá vai mais uma foto da mesa posta, cheia de tigelas fumegantes e pratos lindamente decorados. Um verdadeiro inferno para quem está tentando iniciar uma dieta.

E, finalmente, só para ficar nos três primeiros lugares da pesquisa: os polemistas de sofá. Para mim, esses são os piores. Sabe aquele indivíduo que tem opinião sobre tudo, mas não sabe absolutamente nada? Pois é, esses são os tais polemistas de sofá. Postam comentários vagos, provocando polêmicas que não levam a lugar algum, utilizando para isso informações duvidosas e fatos questionáveis. E quando perdem o controle sobre o debate ficam extremamente irritados, retirando-se da discussão como se fossem vítimas e não a causa de todo aquele rebuliço. Uma tremenda chatice!

É óbvio que as redes sociais há muito tempo deixaram de ser um espaço onde apenas nos comunicamos e encontramos novos e antigos amigos. Ela foi além, transformando-se em uma vitrine para todos aqueles que fazem uso dela. Tornou-se uma forma de apontarmos para nós mesmos e gritarmos para o mundo: “Olhem para mim! Vejam como sou interessante”. Não há nenhum grande mal nisso. Afinal, todos somos um pouco exibidos, mas é preciso traçar alguns limites, pois se não o fizermos com certeza deixaremos de receber qualquer tipo de atenção, até mesmo aquela que merecemos.

De qualquer maneira, não dá para evitar: os chatos sempre vão existir, é impossível nos livrarmos deles. Porém podemos, como aconselha Mario Quintana, escapar do chato perguntativo, preferindo o chato discursivo, pois esse pode ser ignorado pensando-se em outra coisa. No caso das redes sociais existe outro conselho ainda mais simples. Basta colocar o mouse sobre a foto do seu chato de plantão, ir em “amigos” e desativar as configurações do “feed de notícias”. Com esse procedimento você estará preservando o “amigo”, mas eliminando o chato, ou melhor, as chatices que ele descarrega sobre você. A modernidade exige medidas radicais, não tenha medo e faça acontecer.

 

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