Caroline Lacerda Dorneles

Epistemologia Genética: uma trajetória dedicada à compreensão do processo de construção do conhecimento. Contribuições para a educação: o Legado do autor à pesquisa psicológica e às práticas educacionais contemporâneas. Apresentado pela revista Educação, em uma série exclusiva sobre a História da Pedagogia publicada em 2011, pela editora Segmento. ISSN: 14155486 e disponível no site: www.revistaeducacao.com.br

Caroline Lacerda Dorneles. Pedagoga pela URI Campus Santiago-RS, especialista em Psicopedagogia pela mesma universidade, Mestre em educação, linha de pesquisa Psicopedagogia pela UFRGS. Atualmente é Pedagoga do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (câmpus Rio Grande-RS)

A série especial de revistas é composta por seis números que apresentam e discutem alguns dos principais postulados de pensadores que trouxeram contribuições significativas para o campo educacional, como: Jean Piaget, Lev Vigotski, Henri Wallon, Paulo Freire, Jean Jacques Rousseau e Jon Dewey. É uma exclusividade destinada a educadores, estudantes e profissionais da educação que buscam conhecer e aprofundar seus estudos na área. As edições reúnem artigos de especialistas em cada autor que estudaram sobre sua vida e obra.

A Revista que analisamos é a primeira dos exemplares, sendo esta composta por noventa páginas, dividida em oito artigos que abordam a vida e obra de Jean Piaget. A resenha aborda dois artigos desta revista: Pensador rigoroso, homem afável; escrito por Dominique Colinvaux e Inteligência e aprendizagem, escrito por Fernando Becker.

Para os autores acima mencionados, Piaget é um dos mais importantes pensadores do século XX, viveu entre (1896-1980), período em que construiu a teoria da Gênese psicológica do pensamento humano, ou seja, a Epistemologia Genética. Rompeu com a ruptura histórica da infância e abriu novos horizontes para compreender a criança pequena e o desenvolvimento cognitivo humano.

Piaget publicou mais de 50 livros e 500 artigos, sendo desta forma, reconhecido internacionalmente até os dias atuais. Estes elevados números de publicações e pesquisas fizeram com que o autor atravessasse as fronteiras da psicologia e da psicologia, aproximando contribuições da história da matemática, da física e da própria lógica para o entendimento do desenvolvimento cognitivo. No entanto, sabemos que iniciou seus estudos com moluscos, mas na busca por uma formação em psicologia conheceu grandes nomes da psicologia e da psicopatologia o que o influenciou a investigar a epistemologia do conhecimento. Seus trabalhos tiveram influência de autores como Henri Bergson, Pierre Janet, Léon Brunschvicg, Edouard Claparéde, com quem ele conviveu nos anos de 1920.

Após passar por momentos de conflitos internos com relação ao seu pensamento sobre ciência e religião, decide estudar esta temática mais profundamente e percebe a necessidade de aproximar estes estudos epistemológicos das explicações biológicas sobre o conhecimento. A epistemologia e a psicologia genética piagetiana afirmam raízes biológicas da atividade humana, mas em nenhum momento as reduzem a biologismos, pois Piaget jamais deixou de considerar a importância do meio social no desenvolvimento cognitivo.

Esse interesse de Piaget em pesquisar sobre as explicações biológicas relacionadas ao conhecimento deu origem ao trabalho desenvolvido com entrevistas clínicas, em que o autor investiga os processos mentais. Nessas entrevistas, investiga fatores que levam as crianças a dar respostas certas ou até mesmo erradas, e com isso descobre que estas respostas são reveladoras, e vão muito além de descobrir erros ou acertos em determinadas tarefas, mas ajudam a revelar formas próprias do pensamento infantil. Desta forma, Piaget consegue delimitar seu campo de estudo ao raciocínio lógico, e com indícios de que esta lógica infantil não seria inata, e isso converteu à idéia de que a evolução do pensamento é acompanhada de estruturas.

Para entender essas estruturas do pensamento humano, Piaget conceituou o inconsciente investigando processos que produzem: assimilação, equilibração, abstração reflexionante, generalização, tomada de consciência, para compreender como o ser humano aprende. Ele tenta trazer para dentro da psicologia a compreensão de que a capacidade cognitiva humana nasce e se desenvolve, não vem pronta, ou seja, não é determinadamente hereditária, e nem determinantemente adquirida pelo meio social. Piaget acredita que estes fatores influenciam na aprendizagem, mas não são determinantes.

Diante disso, cabe mencionarmos que o pensamento piagetiano, foi destacado com base em três idéias que fundamentam sua teoria: em primeiro lugar a idéia de que a ação está na origem do pensamento e se organiza com base em uma lógica análoga à lógica do pensamento; em segundo lugar a idéia de que todos os níveis de realidade, seja a célula, o pensamento ou as sociedades humanas, se organizam em sistemas ou totalidades, definidos como conjunto de relações que articulam parte e todo; e por último a idéia de que esses sistemas são caracterizados pelo seu equilíbrio, ou seja, as partes e o todo mantêm relações dinâmicas que garantem a permanência do sistema.

Através dessas idéias que fundamentam sua teoria e com a publicação dos resultados de suas pesquisas em artigos, Piaget é convidado pelo diretor do Instituto Jean Jacques Rousseau em Genebra, na Suíça para ser coordenador de pesquisa. Lá realiza experimentos que geram um ciclo de publicações epistemológicas sobre o pensamento infantil. Estas publicações despertaram grandes interesses, e o levam a expor suas idéias em várias universidades.

Piaget continua pesquisando o pensamento infantil, mas somente por volta de 1940-1955 é que propõe o estudo do sujeito epistêmico, que é a construção teórica, definida como o conjunto de características comuns a todas as crianças em um mesmo estádio de desenvolvimento. Piaget propõe esta teoria baseado nas idéias de que a aprendizagem ocorre desde quando o sujeito é bebê, através das pequenas interações que estabelece com o meio social, pois destaca que o bebê não nasce com noções de espaço, tempo, localização, entre outras, estas vão sendo construídas com as interações que estabelece.

Para ele, o ser humano não é; ele se faz. Isso nos ajuda a compreender a forte influência do meio na aprendizagem, pois à medida que o sujeito vai aprendendo, constrói patamares de inteligência cada vez mais complexos, isso por intermédio de suas interações com o meio e com o objeto do conhecimento. Os patamares cognitivos vão se tornando cada vez mais elevados e suas capacidade vão aumentando e o sujeito evoluindo. Sendo que algumas capacidades, como na matemática a habilidade de enumerar, são construídas, através de atividades simples de classificação e seriação, exercitadas no ato de brincar.

Cada patamar é chamado pelo autor de estágio, que corresponde a uma estrutura psicológica, definida como sistema de transformações, que podem ser ações práticas, no período sensório-motor, ou operações mentais, nos estágios posteriores. Estas estruturas psicológicas caracterizam o equilíbrio alcançado pelo pensamento em cada etapa de desenvolvimento, ou seja, em cada patamar. Com esta nova descoberta, Piaget atinge o objetivo que tinha fixado nos anos 1920: identificar as estruturas de pensamento, evidenciando a capacidade humana de criar conhecimentos cada vez mais sofisticados, que é fruto da ação dos sujeitos humanos em interação com o mundo.

Diante desse referencial sobre teoria e obras de Piaget, é interessante destacar que quando ele se refere ao adjetivo “Genético” em suas obras, este termo está associado ao substantivo gênese, no sentido de origem, formação, desenvolvimento, sem estabelecer relações com a biologia hereditária. Estas evidências sobre a epistemologia genética apontam que o autor recorre ao método histórico-crítico, que examina o desenvolvimento do pensamento coletivo, estabelecendo filiações conceituais ao longo do tempo histórico; e ao método psicogenético, que estuda a construção psicológica dos conhecimentos, em uma escala de tempo ontogenética, relativa ao tempo da vida humana.

Piaget, explica o desenvolvimento na ação do sujeito, e também atribui ao meio físico e social enorme importância. Nesse sentido, verifica-se como necessário que os profissionais da educação saibam como acontece o conhecimento desde o nascimento do indivíduo, até este tornar-se adulto. Exigência esta tão necessária nos dias atuais, em que as salas de aula estão cobertas por uma diversidade social, étnica, cultural, que interferem no processo de aprender.

Na medida em que a escola construir essas concepção e se instrumentalizar para atender essa dinâmica construtivista, poderá promover a descentrarão e a autonomia. Superando a velha escola que centraliza seus processos no ditado e na repetição. A nova escola se realizará por uma variedade de laboratórios e poucos auditórios tendo sempre em vista a autonomia do educando.

Desse modo, os profissionais da educação precisam compreender que o desenvolvimento cognitivo é explicado por Piaget como um processo espontâneo, ligado ao processo natural da embriogênese, o desenvolvimento do corpo, da mente, das funções nervosas e mentais. Tendo por base que o desenvolvimento explica a aprendizagem, pois ela é um processo que depende em tudo das estruturas do conhecimento. Então a aprendizagem é o oposto do desenvolvimento, pois é provocada por situações, criadas por um profissional, como um professor através de sua didática. O desenvolvimento é o processo principal, ele abre possibilidades para o processo de aprendizagem.

Desta forma, tudo deverá ser feito pelo professor para que o aluno possa assimilar o que o professor ensina e agir sobre o conteúdo ensinado. Se não assimilar, por não estar preparado estruturalmente, poderá não aprender. À medida que o sujeito aprende pela sua própria atividade, aumenta ainda mais sua capacidade de aprender e assim aumentando suas estruturas complexas de pensamento.

Contudo, estas transformações de concepções das práticas pedagógicas, no campo educacional fazem parte de um processo, e aos poucos os estereótipos que rodeiam a teoria piagetiana vão se rompendo e esta visão sobre a aprendizagem se construindo. Para tanto podemos contar com a contribuição de alguns autores que foram orientados por Piaget e enfocam em seus trabalhos a Epistemologia Genética: Anette Karmiloff, Gerard Vergnaud, Emília Ferreiro, Luci Banks-Leite.

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