Fernanda Cielo1
Vantoir Roberto Brancher2
Valeska Maria Fortes de Oliveira3

 

Juremir Machado da Silva, autor da obra Tecnologias do imaginário é graduado em Jornalismo e História, mestre em Sociologia da Cultura e doutor em Sociologia da Cultura pela Universidade de Paris; foi, também, colunista e correspondente do jornal Zero Hora. Atualmente é professor do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social da PUC-RS e coordenador do programa de Pós-Graduação da mesma universidade. Foi correspondente internacional, mantém um blog e assina uma coluna diária no jornal Correio do Povo em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Escritor de muitos livros, dentre os quais destacamos A miséria do cotidiano, energias utópicas em um espaço moderno e pós-modermo e O pensamento do fim do século. Dentre as suas publicações destacamos uma obra de significativa contribuição para o universo acadêmico, Tecnologias do Imaginário, que ora resenhamos.
Num primeiro momento da obra, um leitor mais acostumado com produções cartesianas, ordenadas e dualistas, provavelmente sentirá um certo grau de desconforto, entretanto, ao mesmo tempo também incitação e inquietação. A obra é composta de seis capítulos organizados da seguinte forma:
“Gênese de um conceito”. Neste capítulo o autor inicia afirmando que “todo imaginário é real e que todo real é imaginário, que o ser humano só existe no imaginário.” (p.7). O que equivale dizer que a vida é criação de possibilidades de realizações e deveres. Estas realizações vão se tornando algo concreto por serem inerentes ao ser humano como ser social, pois pensa e cria, sente e percebe o seu mundo. O imaginário é ao mesmo tempo a vida que se vive e a vida que se imagina, é aquilo que colocamos em prática no agir, fazendo a nossa história e colaborando para uma sociedade melhor.
Na obra podemos fazer uma releitura crítica dos grandes nomes que vem produzindo acerca do imaginário como Gilbert Durand, Michel Maffesoli, Corneluis Castoriadis, Jaques Lacan, que o autor utiliza para conceituar o imaginário. Assim, trazendo que o termo imaginário invadiu a mídia, difundindo-se através de tecnologias que denominou tecnologias do imaginário.
No capítulo 2, intitulado “Conceito do imaginário”, cujo autor nos apresenta o imaginário como um reservatório motor, nele se encontram todas as imagens, sentimentos, lembranças, experiências do sujeito social; e o motor que é a força que impulsiona os indivíduos à realização de algo, à ação. Afirma ainda que no imaginário o ser reconhece a si e no outro, tem a ideia de pertença. Provoca-nos a pensar que todo imaginário é uma narrativa, uma trama, um desejo, e que a cultura pode ser identificada por obras, através da literatura, da música, do cotidiano, dos costumes, na produção social. Na verdade o imaginário separa uma cultura da outra através da representação que cada uma cria para si, sendo pura subjetividade.
O capítulo seguinte, “Tecnologias do imaginário e ideologia”, amplia a ideia do capítulo anterior e nos traz que o imaginário e a cultura não se equivalem, pois o imaginário social nos faz criar perspectivas de vida diferentemente das impostas pela cultura dominante. É uma nova via, um novo caminho, uma transgressão àquilo que nos é imposto. Nesse mesmo capítulo é trabalhado o conceito de ideologia que infere, obedecendo ao princípio de racionalização e manipulação através de discursos midiáticos, tão bem elaborados que são persuasivos. Enquanto que o imaginário trabalha a partir das tecnologias de sedução, ou seja, explicitamente, sem uma retórica abusiva. É interessante salientar o imaginário como algo leve, suave, que é usado pela mídia justamente para fazer o caminho contrário da ideologia, isto é, ele cria e é criado por desejos, objetivos e vontades que necessitam ser supridos, mas que já estavam ali de outra maneira.
As tecnologias do imaginário são dispositivos para formar um laço social que produz o simbólico da sociedade. Afirma ainda que as tecnologias do imaginário são dispositivos de produção de mitos, de visões de mundo. Utiliza Foucault para definir dispositivo como estratégias, mecanismos usados para a sujeição de indivíduos sem destinatário, que induzem à falta, é imaginativo. Salienta, também, que o imaginário é uma educação existencial dos sentidos e percepções, e que as tecnologias do imaginário são dispositivos de cristalização do simbólico, das imagens e do afetivo; são estimuladores de ações e produzem sentidos.
Por fim, passando por Gaston Bachelard, Michel Maffesoli, Gilbert Durand, Jaques Lacan, contextualiza que o imaginário é um mistério, uma leitura, uma interpretação, uma forma de vida, um desvio. Em relação às tecnologias da inteligência, o autor coloca que trata-se de atingir a consciência, para libertá-la, reeducá-la ou dominá-la. Por fim, conclui o capítulo afirmando que o imaginário surge da relação entre memória e aprendizado, que é sempre uma narrativa de si. Logo, as tecnologias do imaginário usam o poder simbólico para produzir sentido, mesmo onde não há.
No capítulo quarto, sequência da obra intitulado “Questão de método: da sociologia compreensiva às narrativas do vivido”, faz-se importante salientar o papel do pesquisador de tecnologias do imaginário, que precisa revelar o que se esconde, perceber a complexidade da vida e narrar com transparência as suas experiências. A discussão acerca dos termos: compreensão e explicação, mostra que o primeiro é impreciso enquanto o outro possui uma precisão necessária. Não há neutralidade do observador para o observado, pois um se entrelaça e se mistura com o outro. O imaginário pesquisado também está na imaginação do pesquisador; não se pode perder os acontecimentos do cotidiano, da movimentação do homem e imaginária. Essas narrativas que contam a vida social produzem os imaginários, que produzem o real, que desconstrói o imaginado e cria possibilidades de realidades inimagináveis impregnadas de imaginário.
“Fade-out: da indústria cultural às tecnologias do imaginário”, é o quinto capítulo da obra. Nele se percebe que na história da sociedade, cada época produziu os seus imaginários de acordo com o que se vivia, se inventava e criava para melhorar a realidade.
Esses contextos privilegiam determinados sentidos para o imaginário, tanto que as tecnologias do imaginário são inseridas no mundo real dos seres humanos através de redes, de teias que ligam o social, de maneira que o vivido esteja imerso de representações, de símbolos que unem, concretizam uma interação social.
No último capítulo da obra, “Um caso, o jornalismo como um desvelamento. A cobertura como descobrimento”, é enfatizada a questão da investigação que traz à tona coisas protegidas, escondidas, pois o jornalismo caminha para a elucidação dos fatos, para deter a verdade na produção de notícias, revelando o que está oculto, tocando no âmago de cada ser humano os imaginários midiáticos. O que faz premente é perceber que quando se fala de imaginário não existe a verdade, e sim verdades acerca de um determinado assunto, porque as técnicas jornalísticas buscam interpelar os sujeitos incitando sensações, entretanto, criam a ideia de projeção no outro.
Assim concluímos essa escrita afirmando ímpares contribuições da obra na construção e reflexão social. Acreditamos que a mesma não se destine a um único contexto acadêmico, visto que nos incita a pensar nos conceitos e pré-conceitos: nossas verdades que, talvez não sejam tão verdadeiras, nossos saberes e certezas que talvez não sejam tão nossos. Por fim, resta indicar a leitura aos profissionais de quaisquer áreas de conhecimento que queiram pensar fazeres e saberes sociais mais justos, mais humanos, refletidos e com significação.

 

Referências
SILVA, J.M. As Tecnologias do Imaginário.2º.ed. Porto Alegre:Sulina, 2006.

 

1 Graduada em História-UNIFRA  Especialista em História do Brasil-UFSM. E.mail: ci.fernanda@hotmail.com
2 Ms. em Educação-UFSM . Drando. em Educação-UFSM. Prof. Instituto Federal Farroupilha.E.mail: vantobr@yahoo.com.br
3 Prof Dr Titular do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal de Santa Maria(UFSM).Pesquisadora do CNPQ.E.mail:guiza@terra.com.br

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