estação Paraná - casa da memória - PMPG

Ana Carolina Rodrigues de Oliveira[*]

 

RESUMO: Ao longo do século XX vários autores propuseram distintos modelos como forma de explicar a apropriação do espaço urbano pelas diferentes classes sociais. Pretende-se com o presente artigo debater a estrutura urbana da cidade de Ponta Grossa – PR, a partir de uma revisão de autores que já analisaram esse processo na cidade, e trazendo, ainda, a contribuição com importantes aspectos que devem ser levados em consideração para analisar as causas e os efeitos do cenário urbano atual.

 

Palavras-chave: espaço urbano; modelos; estrutura urbana; Ponta Grossa.

 

ABSTRACT: Throughout the twentieth century many authors have proposed different models as a way to explain the appropriation of urban space by the different social classes. The intention of this article is to discuss the urban structure of the city of Ponta Grossa – PR, from a review of authors who have analyzed this process in the city, and also brings forth the contribution with important aspects that should be taken into consideration to analyze the causes and effects of current urban setting.

 

Keywords: urban space; models; urban structure; Ponta Grossa.

 

INTRODUÇÃO

Com as transformações advindas pelo processo capitalista de crescimento urbano na segunda metade do século XX, as cidades – as quais refletem constantemente a dinâmica socioeconômica vigente – apresentaram alterações na sua estrutura urbana. Ou seja, na forma com que as diferentes classes sociais se apropriam do espaço, alterando, assim, a configuração urbana.

Diversos autores propuseram modelos para elucidar as diferentes formas que as cidades tomam com a “movimentação” das classes sociais no espaço. À luz de tais pensadores, realizou-se um estudo de caso para a cidade de Ponta Grossa com o objetivo de compreender as causas e os efeitos da atual organização espacial interna.

Pode-se elencar como importantes aspectos que influenciaram no cenário atual as características topográficas de Ponta Grossa, o enfraquecimento do poder de intervenção do Estado, os interesses imobiliários e a baixa diversidade de usos na região central. Como efeitos negativos tem-se a presença de lotes ociosos no centro, bem como processos de “decadência” ou “deterioração” de suas edificações.

 

MODELOS DE ORGANIZAÇÃO INTERNA

Para compreender o modo de estruturação da sociedade no espaço urbano parte-se de uma leitura simplificada da cidade, aqui representada por um modelo de sua organização interna. Ao longo do século XX vários autores propuseram distintos modelos como forma de explicar a apropriação do espaço urbano pelas diferentes classes sociais. O modelo mais famoso e difundido é o do sociólogo Ernest W. Burgess, elaborado na década de 1920 e no qual estaria resumida a teoria ecológica do espaço urbano defendida pela primeira abordagem da Escola de Chicago. Em sua teoria, a cidade seria um conjunto de círculos concêntricos, onde os pobres residem no centro e a classe alta na periferia, em agradáveis subúrbios. Esse modelo se baseia nas grandes cidades norte-americanas daquela época (CORRÊA, 1989; GOTTDIENER, 1997; SOUZA, 2005).

Corrêa (1989) aponta que o primeiro modelo é de 1841, elaborado pelo geógrafo alemão J. G. Kohl. Segundo Kohl, a elite estaria presente no centro, enquanto na periferia residiriam os pobres. Apesar de ter sido elaborado com base na Europa continental, Corrêa afirma que há evidencias de que esse modelo representa também as cidades latino-americanas do período colonial e ainda atualmente, ao contrário do modelo de Burgess.

Em 1939 surge outro modelo muito conhecido, o do economista norte-americano Homer Hoyt. Ele toma o modelo de Burgess como base, entretanto o torna mais complexo, pois combina círculos com setores a partir do centro. A lógica do modelo de Hoyt é que a alta burguesia se organiza – aqui pode-se falar que ela se autossegrega – não em círculos concêntricos, mas em único setor ao longo de um eixo de circulação, possibilitando, assim, um efetivo controle do mercado imobiliário, do Estado e da ideologia sobre o espaço urbano, o que seria mais difícil caso se espalhassem aleatoriamente pela cidade. O padrão radial dos setores mantém a acessibilidade ao centro da cidade através das melhores vias de transporte, portanto, a classe alta dificilmente abandona sua área de segregação, ou se desloca lateralmente ou volta a posições anteriores, pois, assim, sua condição de acessibilidade ficaria prejudicada (CORRÊA, 1989; VILLAÇA, 1998; SOUZA, 2005).

Para Villaça (1998), nossas cidades possuem uma organização interna que é um misto de círculos concêntricos e setores de círculo, predominando os últimos sobre os primeiros. Isso deriva da acentuada diferença entre as classes sociais que as cidades brasileiras apresentam. Se a estratificação social no nosso país fosse mais uniforme, similar aos países desenvolvidos, a organização interna de nossas cidades seria mais homogênea, e tenderia a ser em círculos concêntricos.

Segundo Corrêa (1989) os três modelos acima expostos – de Kohl, Burgess e Hoyt – não se excluem mutuamente, podendo conviver entre si no mesmo espaço urbano. As grandes cidades latino-americanas são os maiores exemplos da coexistência desses três padrões.

No entanto, para Souza (2005), esses, e outros modelos, como o de C. Harris e U. Ulmann, não dão conta de explicar outra realidade que não seja a norte-americana. Nem mesmo o modelo elaborado pelos geógrafos alemães Bähr e Mertins no começo dos anos 1980 – e conhecido como o padrão básico de organização espacial da cidade latino-americana – levou em consideração a realidade urbana brasileira.

 

O CASO DE PONTA GROSSA

Em relação à configuração urbana de Ponta Grossa, Löwen Sahr (2001) aponta que predomina o modelo denominado “Burgess às avessas”, onde os padrões sociais declinam conforme se segue em direção à periferia, e é estruturado em forma de círculos concêntricos. Porém, dado que a cidade é um organismo em constante processo de transformação, já é possível ver fenômenos responsáveis pela dissolução desse modelo, e indícios de passagem para outro esquema, estruturado em eixos setoriais e células isoladas.

Décadas atrás, o centro da cidade era espaço de moradia das classes privilegiadas. Isso ainda pode ser constatado ao percorrer essa região, pois ainda resistem algumas grandiosas residências unifamiliares de estilo arquitetônico diferenciado. Todavia, essa classe tem, gradativamente, a partir dos anos 1980, se deslocado para setores prioritariamente residenciais e de alto padrão com uma forte homogeneidade interna, constituindo, assim, um processo de autossegregação no espaço urbano. Os setores habitados pela elite ponta-grossense estão concentrados na vila Estrela e no Jardim Carvalho, áreas localizadas na periferia imediata do centro, muito bem interligadas a ele e altamente valorizadas pelo mercado imobiliário (LÖWEN SAHR, 2001).

Outro processo que contraria o padrão tradicional é a presença, cada vez mais efetiva em áreas muito próximas ao centro, de estruturas celulares na forma de favelas. Pelas características topográficas de Ponta Grossa, os arroios partem da área central e de forma radial, portanto, os fundos de vale se encontram muito próximos do centro, sendo alvos de ocupação irregular constante, uma vez que possibilitam à classe baixa estar integrada à cidade. Em forma de células isoladas, também se tem os núcleos habitacionais na periferia urbana e condomínios fechados de alto luxo mais distantes, em zonas predominantemente de classe média. A partir da constatação desses indícios, Löwen Sahr (2001) afirma que Ponta Grossa tende a apresentar então o Modelo proposto por Bähr e Mertins.

         Essa estrutura da cidade confirma que há uma reprodução de forma constante das classes sociais. Os pobres são remanejados por políticas públicas para a periferia – ou, caso queiram áreas mais próximas, ocupam terrenos ambientalmente frágeis e de risco – e a classe privilegiada procura os melhores lugares para se reproduzir, ou seja, próximos ao centro, ou mais distantes, com amenidades físicas, enclausurados em condomínios fechados.

         Convém ressaltar as causas e os efeitos do rompimento das elites com o centro, quando começaram a se deslocar para setores específicos, mais afastados. A mudança de localização da classe alta no espaço urbano é um fenômeno que se processou em muitas cidades brasileiras, com mais intensidade a partir de 1970. O deslocamento só foi possível pelas novas condições de mobilidade espacial. O Estado construiu novas e eficientes avenidas que ligaram o centro às áreas mais afastadas, aliada à vulgarização e difusão no uso do automóvel. Os interesses imobiliários igualmente foram essenciais nessa ruptura, pois fomentaram a abertura de novas frentes para seus empreendimentos, que atenderiam às novas demandas dessa classe: bairros mais modernos, espaçados e dotados de verde (VILLAÇA, 1998).

Segundo Villaça (1998), a tomada do centro pela violência e por camadas populares é mais efeito do que causa da mobilidade territorial das camadas de alta renda. O autor afirma que o processo popularmente chamado de “decadência” ou “deterioração” do centro e das suas edificações é, na verdade, resultado do abandono pela classe alta, não o contrário. Para esse segmento, não compensava mais manter tais edificações, sendo, portanto, relegadas ao processo de obsolência. Caso fosse de seu interesse, essa classe trataria de executar projetos de revitalização, que tornariam as edificações valorizadas novamente.

Singer (1982), anos atrás, já identificou essa situação, resumindo-a com a expressão “decomposição social”. Ela seria desencadeada pela circulação espacial das elites. Esse processo acaba por transformar determinadas áreas em zonas deterioradas, e ocupadas por serviços inferiores, como casas noturnas, prostituição, hotéis de segunda classe, pensões, etc.

Em Ponta Grossa, em alguns locais da zona central, é visível o processo de obsolência de suas edificações e do entorno. A modificação do padrão social de ocupação pela qual passou o centro reflete-se em diversos aspectos. Segundo as reflexões de Chaves (2001) e Monastirsky (2001), a região central de Ponta Grossa até a metade do século XX tinha intensa vida pública, sendo algumas ruas importantes pontos de encontro e sociabilidade, carregados de forte simbologia para população. Havia uma preocupação com a estética urbana, com a constante manutenção da cidade civilizada, que eram motivos de orgulho à sociedade. Os aspectos arquitetônicos, a beleza das edificações, dos monumentos e dos logradouros, imprimiam um elevado status social à região central. Indivíduos que iam contra o padrão social pretendido (mendigos, meretrizes, desocupados e forasteiros) eram motivos de intenso debate e foram alvos de uma “limpeza” na época.

Os autores também lembram o famoso footing noturno na Rua XV de Novembro, como uma importante prática de encontro, que reunia muitas pessoas – formavam verdadeiros aglomerados, aonde chegavam a se comprimir para poderem andar. Esse hábito marcou a forma como a sociedade exprimia seus padrões e comportamentos, de uma época na qual Ponta Grossa possuía uma intensa vida cultural, com cinemas, espetáculos, teatros e festivais. Essa reflexão quer evidenciar quão valorizada a região central era pela sociedade, sendo alvo de preocupação caso algum fato, ou indivíduo, pudesse prejudicar a imagem de cidade civilizada que se queria manter.

Com as transformações advindas pelo processo capitalista de crescimento urbano na segunda metade do século XX, o deslocamento das classes de alta renda, o enfraquecimento do papel do Estado na proteção do patrimônio histórico-arquitetônico e sua redenção ao capital imobiliário – priorizando-se os investimentos às áreas onde a burguesia agora reside – a deterioração se estabelece no centro da cidade.

A “obsolência moral” em alguns pontos do centro da cidade é verificada, principalmente, nas regiões que fazem limite com os bairros de classe média ou baixa, ou seja, nas “bordas” leste e oeste do centro.

Dada a decadência física e funcional dos prédios, tanto por parte dos proprietários, quanto do governo municipal, um “vasto anel de zonas deterioradas” vai se formando ao redor do centro da cidade. Mesmo se obras de revitalização urbana fossem executadas nessas áreas, “dificilmente camadas ricas ou de rendimento médio se disporiam a morar em bairros que adquiriram má fama” (SINGER, 1982, p. 32).

 

A DIVERSIDADE DE USOS

Outro componente que reforça esse quadro de abandono é a baixa diversidade de usos do solo no centro, predominando o uso comercial. Em horário comercial, o fluxo populacional que transita nessa área é intenso, contrastando com a monotonia do período noturno. A região, então, é tomada por um alto nível de ociosidade, pois não possui atrativos que promovam uma vida pública noturna – exceto por pontos específicos destinados a bares e casas noturnas – com atividades culturais, de lazer, refletindo a carência na mistura de grupos de usuários da região central em diferentes horários. Muitos locais, à noite, se tornaram inseguros, o que deixa de ser atraente ao uso residencial, principalmente para as classes com maior poder aquisitivo, que podem optar por melhores localizações.

Jacobs (2000) é uma autora que se destaca na discussão sobre a importância da mescla de usos em cada zona urbana. De acordo com sua obra, a complexa mistura de grupos de usuários em diferentes horários é extremamente benéfica para o florescimento de uma vida pública exuberante, para o desempenho social e econômico da região, para a segurança da população, etc. As zonas com baixa diversidade de usos, ou providas de “inércia funcional” (p. 108), fomentam um ciclo, pois, ao serem pouco frequentadas em determinados horários, acabam exercendo pouca atração de pessoas, atraindo monotonia e repelindo a vida pública urbana. Isso ocorre com frequência em áreas estritamente comerciais ou administrativas, que fora do horário comercial perdem sua vitalidade, pois cai drasticamente a frequência de usuários. Por conseguinte, usos isolados devem ser previstos somente onde for realmente necessário.

Além da decadência física de muitas das edificações do centro, a falta de vitalidade dessa área se reflete igualmente na expressiva quantia de vazios urbanos, terrenos não utilizados, ou, subutilizados. Muitos terrenos estão sendo destinados apenas a fins publicitários, ou, até mesmo, encontram-se sem a mínima utilização.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Com o deslocamento da classe alta para setores específicos e homogêneos, a região central deixou de ter a vitalidade de outras épocas; o poder público não mais priorizou a manutenção desses espaços e uma consequente popularização e abandono das estruturas físicas e equipamentos coletivos tomou conta do centro.

Com o padrão urbano que se impôs, os proprietários que mantêm lotes ociosos na região central logram vantagens por conseguirem passar despercebidos aos olhos da população que não mais se preocupa com a estética ou a sociabilidade, aspectos que formavam uma identidade com o centro. Simplesmente parecem ter desistido da capacidade de intervenção do poder público em manter tal espaço e suas estruturas como um local atraente. Alia-se a isso a falta de compreensão da população sobre os efeitos negativos que a ociosidade urbana traz, fazendo com que não seja motivo de reivindicações sociais, o que permite que os princípios sobre a função social da terra urbana sejam desconsiderados e a legislação não seja cumprida.

Diante disso, é necessário viabilizar uma política habitacional para a área central, como estratégia para atração de moradores, a qual possa atender a um leque amplo de classes, garantindo a diversidade de grupos sociais. Amparando-se no fato de que a área central não vem sendo objeto de renovação de suas estruturas físicas, e há grande quantidade de edifícios vazios ou subutilizados com grau avançado de obsolência, poderiam ser adotadas estratégias como um zoneamento cultural, que destacasse pontos de preservação relevantes, promovendo ações que recuperassem a memória da cidade e valorizassem a área central como um espaço simbólico e democrático. Por meio da recuperação de imóveis de interesse histórico, novos espaços ficariam aptos a abrigar atividades de lazer e cultura, revertendo o processo de subutilização dos imóveis que servem à especulação.

A densificação da região central, e das áreas próximas e bem servidas de infraestrutura – atuando concomitantemente à tributação do IPTU progressivo – são ações que podem minimizar o crescimento urbano espraiado e periférico sobre áreas com serviços e equipamentos públicos insuficientes, processo que é antieconômico para o poder público.

 

 

REFERÊNCIAS

 

CHAVES, N. B. A “cidade civilizada”: cultura, lazer e sociabilidade em Ponta Grossa no início do século XX. In: DITZEL, C. H. M., LÖWEN SAHR, C. L. (orgs.) Espaço e cultura: Ponta Grossa e os Campos Gerais. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2001. p. 65-76.

 

CORRÊA, R. L. O Espaço Urbano. São Paulo: Ática, 1989.

 

GOTTDIENER, M. A produção social do espaço urbano. 2ª Ed.São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 1997.

 

JACOBS, J. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

 

LÖWEN SAHR, C. L. Estrutura e dinâmica social na cidade de Ponta Grossa. In: DITZEL, C. H. M.; LÖWEN SAHR, C. L. L. (orgs.). Espaço e cultura: Ponta Grossa e os Campos Gerais. Editora UEPG, 2001, p. 13-36.

 

MONASTIRSKY, L. B. A mitificação da ferrovia em Ponta Grossa. In: DITZEL, C. H. M.; LÖWEN SAHR, C. L. L. (Orgs.). Espaço e cultura: Ponta Grossa e os Campos Gerais. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2001, p. 37-51.

 

SINGER, P. O uso do solo na economia capitalista. In: MARICATO, E. (Org.).  A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial. 2ª Ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1982.

 

SOUZA, M. L. ABC do Desenvolvimento Urbano. 2 ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. 192 p.  

 

VILLAÇA, F. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel: FAPESP: Lincoln Institute, 1998.

 

 

 

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Sobre a autora: Bacharel em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Mestre em Gestão do Território pela mesma Universidade, com ênfase em Planejamento Urbano. Atualmente é docente da Faculdade de Ciências Sociais e Agrárias de Itapeva (FAIT). Contato: (15) 9735-6702. E-mail: anacr_oliveira@hotmail.com

Como Citar:

OLIVEIRA, A. C. R. Evolução da estrutura urbana de Ponta Grossa: uma breve análise. Revista P@rtes. (São Paulo). Disponível em: <http://www.partes.com.br/2013/08/05/ponta-grossa/>

 


[*] Geógrafa, Mestre em Gestão do Território pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), docente da Faculdade de Ciências Sociais e Agrárias de Itapeva (FAIT).

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