Discurso da Servidão Voluntária, de Etienne de La Boétie

Cassiano Telles[i]

Cícera Andréia de Souza[ii]

Resumo: Etienne de La Boétie foi um filósofo francês nascido em 1530 que viveu até 1563. Conhecido principalmente por traduzir textos de Plutarco e Xenofonte, referências clássicas Greco-romanas, mas principalmente por ter escrito Discurso da Servidão Voluntária.

O presente trabalho tem como objetivo apresentar, na forma de resenha crítica, as principais ideias desse clássico publicado pela primeira vez em 1577. Embora antiga, a obra de Boétie mostra-se, através dos seus principais temas, bastante atual.

Nela o autor discorreu sobre a liberdade, a tirania e a condição do ser humano de servidão espontânea, ou como o próprio autor denomina: servidão voluntária.

Palavras – chave: Servidão, Liberdade, Tirania.

Introdução: O contexto da obra

Etienne de La Boétie nasceu na França em 1530. Com apenas dezoito anos escreveu Discurso da Servidão Voluntária, publicada pela primeira vez em 1577, quatorze anos depois da sua morte. Boétie escreveu a referida obra em um contexto repleto de conflitos entre a monarquia francesa e o povo. Esse contexto o fez refletir o que fazia que o povo, não somente francês, mas de modo geral, se rendesse ao poder de um só homem, normalmente a figura de um rei fazendo o que ele chama de servidão voluntária.

 Não é de se admirar que tal reflexão surgisse afinal, a França foi uma das principais monarquias europeias do período (século XVI), que com o fortalecimento do poder real, através da ideia de que o rei era um representante divino fez com que os grandes feudos (que eram livres do poder da monarquia) fossem desaparecendo pouco a pouco.

Inicialmente a submissão de pessoas a um poder era compreensível, visto que a figura divina era central na vida delas, logo o rei como representante, era entendido como superior em relação aos demais. Porém, o contexto do autor, sugeriu um questionamento que antes não existia. Deus passou a não ser mais visto como central, a representação divida pelo Rei, passou a não ter tanta importância devido a uma série de eventos ocorridos. Então, o que faz com que as pessoas sirvam tão docilmente um “poderoso” se Deus já não é mais tão central na vida em sociedade? O autor questiona quais as possíveis causas que levariam um povo a submeterem-se as ordens de um só homem, um tirano.

A Servidão Voluntária e a Liberdade

Cassiano Telles – Pós-Graduando em Educação Física Escolar do Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal de Santa Maria-RS CEFD/UFSM, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Física do PPGE/UFSM. telleshz@yahoo.com.br

O título da obra sugere de antemão o questionamento, pois une duas palavras que em um primeiro momento aludem à contradição, ou seja, as palavras servidão e voluntária.

Servidão é um termo medieval, que deriva da palavra servo que, como se sabe era o indivíduo que trabalhava forçadamente para o senhor feudal. Já voluntária ou voluntário, é o indivíduo que realiza determinada ação de maneira espontânea, conforme a sua vontade. Então, qual a intenção do autor ao trazer as duas palavras unidas para título de sua obra? Será exatamente a partir dessa contraditoriedade que o autor desenvolverá seus argumentos.

A obra começa com uma citação de Ulisses em Homero (p.11): “Em ter vários senhores nenhum bem sei, Que um seja o senhor, e que um só seja o rei”, faz um duplo dualismo de interpretações, dizendo que esta remete a uma fala voltada ao poder monárquico, fazendo alusões a forma de governar centralizando poderes em torno de um só homem.

O mesmo não sabe como acontece em outras repúblicas, mas acredita que este governo onde se centraliza tudo em uma só pessoa não seja o ideal pensando em um caráter público. Esse posicionamento levará Boétie a ser considerado um dos precursores do pensamento anarquista. O autor exacerba com a afirmação (p.12): “Por hora gostaria apenas de entender como pode ser que tantos homens, tantos burgos, tantas cidades, tantas nações suportem quando preferem tolerá-lo a contradizê-lo.”, sendo que tenta entender de que forma repúblicas se submetem a tolerar ao contradizer ordens dadas por um só homem, ou melhor, uma só força, sendo que os mesmos poderiam rebelar-se.

Justifica este pensamento indignando-se com a forma com que estas pessoas se submetem a pobreza e precariedades em nome de uma proteção fantasiosa e mascarada, pois estes mesmos se protegem lutando sobre as ordens de monarcas que somente exercem poder sobre os mesmos, esquecendo seus deveres quanto a líderes populares.

Cícera Andréia de Souza é Especialista em Educação Física Escolar/UFSM, Mestrando em Educação Física/UFSM, cissadesouza@yahoo.com.br

Em um momento posterior, Boétie traz uma exemplificação através da observação do mundo animal, onde constata a briga por busca de liberdade dos animais, busca esta que o homem não realiza segundo o autor. Um peixe quando capturado luta até a exaustão por sua liberdade, um elefante que quebra seus próprios dentes liberando o marfim para os caçadores para não ser capturado, pois não conseguem viver com o prazer da servidão, pássaros que se debatem em suas gaiolas e tentam sempre a liberdade não se sujeitando a viver sem liberdade, animais que foram feitos para servir ao homem, mas que não conseguem acostumar-se a servir sem protestar.

Em contra partida homens aceitam viver presos servindo a seus superiores, ou melhor, os tiranos, sentindo-se gloriosos e prazerosos. Para o autor, embora a liberdade seja algo fácil de readquirir, afinal para ele a liberdade faz parte da natureza humana, os homens parecem não desejarem serem livres, parecem querer servir a um senhor (tirano) colocando este último num posto superior. Destaca que o servo possui as mesmas características físicas do senhor, mas teme ser visto, ouvido em qualquer lugar que vá como se fosse constantemente vigiado por alguém que possui vários olhos e ouvidos. E, portanto, para ele, os homens se deixam governar.

 

A Tirania e a Aceitação da Tirania

Os Tiranos segundo o autor (p.19) podem obter “o reino por eleição do povo; outros pela força das armas; outros por sucessão de sua raça.” Com esta afirmação ele julga necessário classificar estes tipos de tiranias através de seu comportamento pós conquista do poder. Como se sabe quem conquista o poder através de guerras acredita-se que agem como se fosse terras conquistadas, as quais estão agora sobre seu poder através de sua força. Os reis que nascem sabendo que serão tiranos cheios de servos, que dizem vir do leite a força para liderar e exigir de seus súditos a lealdade mesmo que em discordância, tendo por ele uma figura de poder supremo, pois sabem que este reino é sua herança. Para o autor deveria ser humano aquele que herdou este poder através de seu povo, mas constata que mesmo vindo do povo estes costumam serem tiranos, modificando sua conduta sabe se lá o porquê após a eleição e ainda treinando familiares para seguir seu legado de crueldade, afastando seus súditos da liberdade.

Conforme Boétie não há diferenças entre os tiranos, sendo que mesmo que cheguem ao poder de formas diferentes continuam a tirar a liberdade de seu povo, os vendo de maneiras diferentes, mas tratando-os ainda como escravos. Esta observação é tão presente que hoje se homens ganhassem sua liberdade ainda estariam ligados aos elos do passado sujeitando-se a tirania destes poucos que estão no poder, devido à forma com que esta acontece: forçada ou ilusória. Forçadas mais propriamente ditas (p.20) pelo poder armamentista e ilusórias devido a proteção que o tirano lhes proporciona.

Devido a esta força se cria consciências, estas que são levadas de gerações a gerações como se fossem obrigações de um povo prezar pelo respeito ao líder, vendo o mesmo com a idolatria. Como o texto cita na história (p.21) da criação de dois cachorros machos que obtiveram formas diferentes de comportamento através de sua criação, sendo que um fora criado comendo na cozinha enquanto o outro era solto nos campos da residência, mesmo sendo irmãos a observação sobre sua forma de agir eram divergentes, em uma passagem o mesmo realiza uma experiência colocando os dois juntos em um mercado entre uma sopa e uma lebre, sendo que quando soltos uma vai para o prato enquanto o outro caça a lebre, mostrando que mesmo vindos de uma mesma família ainda sim agem conforme sua criação.

Quem provou de sua liberdade não age mais de forma presa e consegue perceber o quanto é digno lutar por sua liberdade. Não tem consciência de liberdade quem nunca a teve, assim sendo continua a reproduzir o que aprendeu, mesmo sendo obrigado a obedecer e cumprir o que se é proposto somente.  Este está condicionado a realizar todas as atividades que sua educação lhe proporciona, se tornando parte de sua natureza mesmo que esta não seja a sua natureza provinda do homem, que nasce para ser liberto. Assim (p.24) “a primeira razão da servidão voluntária é o costume”. Como os pobres animais que no início de sua domesticação mordem, debatem-se, quebram seus próprios dentes para possuírem novamente a liberdade, os homens também creem que esta servidão embora não seja de seu gosto deve ser vestida.

Mas a primeira premissa para os homens servirem de bom grado para seus tiranos é que nascem servos e são criados como tais, vestindo a camisa e aceitando ordens, tornando facilmente os tiranos covardes e efeminados. Mas ressalva que é certo que com a liberdade se perde a valentia (p.26), e que para que não se opere esta valentia, sabendo os tiranos que homens livres tanto faz a derrota ou a vitória, sendo que a construção virá após a queda, tendem a não permitir esta oportunidade de sentirem o gosto da liberdade.

Para que estes não caiam na tentação da liberdade se achou uma forma fácil de prendê-los a atenção, os jogos, teatros, shows que eram proporcionados imitavam combates e contavam histórias para que estes súditos ficassem cada dia mais preso e apaixonado por esta arte de servir para que tenha o reconhecimento de soldado honrado, enquanto os tiranos o fazem para que estes fiquem primeiramente iludidos com aquele mundo e segundo sempre em forma para as batalhas que terão que travar.

Esta Ilusão acontece ainda aos dias atuais, patriotas e aficionados por seus países competem e doam-se para seu governo trazendo vitórias em eventos, indo para guerras que sequer são deles, como por exemplo, americanos que intervém em guerras sem mesmo serem atingidos por esta, mas sim para exaltarem seu poder tirano sobre os demais países.

Na época de reis e rainhas (p.29) se pagavam vinhos, trigos, danças para seus súditos para que estes exaltassem seu rei, este dava migalhas a seu povo para comemorar conquistas realizadas por eles próprios, lhes davam a comida e bebida que estes mesmos produziam como se fossem bem feitorias para seus soldados e súditos. Aos dias atuais ainda comemoramos muitas destas batalhas e festas através de feriados que contam os feitos de alguns valentes que lutaram para a conquista da tão sonhada liberdade falsa, porque falo em falsa? Pois está liberdade jamais existiu, ou melhor, jamais irá existir, pois estas lutas, conforme anteriormente exposto, exaltam nações comandadas por tiranos.

Não são as armas compradas por estes tiranos que os defendem ou defendem seus impérios (p.31), mas sim sua nação seus servos, servos estes que não tem a capacidade de comprar brigas com outras nações, mas entram nesta briga através de palavras ao vento destes que os comandam, mas que não pensam na hora de matar vários de seus súditos por simples palavras que poderiam ser evitadas

 

Considerações Finais

É interessante notar o quão atualizado é a ideia de servidão voluntária evidenciada na obra de Boétie. Embora escrita há praticamente quinhentos anos ela tranquilamente nos serve como exemplo de análise da vida em sociedade. Não querendo fazer uma análise minuciosa da situação atual, e sim uma análise ligeira (em função do tempo e espaço para isso), pensando em alguns argumentos trazidos pelo autor, podemos dizer que: dificilmente pensamos em nossa liberdade e quando pensamos procuramos acreditar que somos de fato livres para escolher aquilo que queremos, sem muitas vezes nos darmos conta do quanto nossas vidas são determinadas (de várias formas, principalmente por nossa condição econômica); as crianças, independentemente das condições econômicas de suas famílias, são criadas para terem no futuro um emprego, seja ele bom ou ruim, todo pai que se preze (uma ideia bem popular), se preocupa com isso, logo já são pensadas como futuros “servos”, algumas poucas como “tiranas”? Porque não?

Outra questão interessante de perceber e que é bastante comum, é o fato da utilização do divertimento por parte dos governantes para distrair o povo, para torná-los satisfeitos com o que acontece a exemplo disso temos principalmente os eventos esportivos, que através dos meios de comunicação acabam tendo centralidade na vida de boa parte das pessoas. Essa centralidade, essa importância demasiada acaba muitas vezes cegando a população fazendo com que estas não enxerguem muitos atos errados realizados pelos que mandam.

– Le discours de la servitude volontaire. Texte établi par Pierre Léonard, suivi de “ La Boétie et la question du politique “. Textes Félicité Lamennais, Pierre Leroux, Auguste Vermorel, Gustav Landauer, Simone Weil, Miguel Abensour, Marcel Gauchet, Pierre Clastres, Claude Lefort. Paris, Petite Bibliothèque Payot, 1993.


[i] É Especialista em Educação Física Escolar/UFSM, Mestrando em Educação Física/UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Física/GEPEF/UFSM, telleshz@yahoo.com.br

[ii] É Especialista em Educação Física Escolar/UFSM, Mestrando em Educação Física/UFSM, cissadesouza@yahoo.com.br

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