O pós-modernismo e a era do globalismo

O PÓS – MODERNISMO E A ERA DO GLOBALISMO

POST MODERNISM AND THE ERA OF GLOBALISM

 

1 Mayara Borges Freitas

2 Melissa Valéria Borges Freitas

RESUMO: Este trabalho está delimitado segundo as práticas contemporâneas da realidade pós-moderna, tendo em vista a era do globalismo e as consequências de ambos para a sociedade. Dando ênfase aos aportes teóricos da profissão do Serviço Social frente a essa nova realidade e as demandas que estão sendo solicitadas para o Assistente Social contemporâneo.

*Acadêmicas do Curso de Bacharelado em Serviço Social promovido pela Universidade Federal do Piauí.
1-mayarabfreitas@hotmail.com
2-mel.bfreitas@hotmail.com

Palavras-Chave: Globalismo, Pós-modernidade, Mercado de trabalho e Serviço Social. 

ABSTRACT: This study is delimited according to the practices of contemporary postmodern reality in view of the era of globalism and the consequences both for society. Emphasizing the theoretical contributions of the profession of Social Work forward to this new reality and the demands that are being requested for the contemporary social worker.

 

 

Segundo Jair Ferreira (1986) pós-moderno é o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades desde 1950. Parafraseando Jair Ferreira dos Santos essas mudanças ganham corpo nas ciências com a era da informática, que é tratamento computadorizado do conhecimento. Nas artes se dissipou por elas desde anos 50, dividindo os artistas em modernos e pós-modernos; o primeiro são os que na visão do autor complicaram a arte por levá-la demasiadamente a sério e os artistas pós são aqueles que riem levianamente de tudo. Nas sociedades ele modifica o modo e estilos de vidas, consecutindo nos comportamentos, sensações, emoções e a forma com que os indivíduos enxergam o mundo.

Um dos elementos presentes no mundo pós-moderno é o globalismo, típico das sociedades capitalistas em expansão, nele segundo Octávio Ianni (1926) é um processo de amplas proporções envolvendo nações e nacionalidades, regimes políticos e projetos nacionais, grupos e classes sociais, economias e sociedades, culturas e civilizações. Para se reconhecer essa nova realidade é preciso analisar o pós-modernismo e a consequência dele na realidade social dinâmica e econômica do mundo.

O presente trabalho tem como objetivo analisar o pós-modernismo de modo reflexivo apontando como esse novo processo está adentrando o modo de vida das pessoas. Simultaneamente faremos uma comparação como esse contexto contemporâneo está afetando o Serviço Social, explanando o papel do Assistente Social frente a essas novas demandas solicitadas.

Sabe-se que o objeto de estudo do Serviço Social são as expressões da questão social: violência, desemprego, miséria. Contudo profissional do Serviço Social não poderá desempenhar um papel de mero gestor de recursos, ou então um prestador de serviços, ele terá que abordar os usuários de modo mais profundo e investigativo, tendo em vista a historicidade do indivíduo em questão, levando em conta aquilo que lhe essencial e particular: vivências, emoções, saberes de vida, como cita Octávio Ianni e Geoffrey abaixo:

  […] A trama da história não se desenvolve apenas em continuidades, sequências, recorrências. A mesma história adquire movimentos insuspeitos, surpreendentes. Toda duração se deixa atravessar por rupturas. A mesma dinâmica das continuidades germina possibilidades inesperadas, hiatos, inadvertidos, rupturas que parecem terremotos. (IANNI, 1926, p. 11)

Segundo Geoffrey Barraclough, apud Ianni, 1986, p.12):

Em minha opinião, a continuidade não é, de modo algum, a característica mais saliente da História… Em todos os grandes momentos decisivos do passado, deparamos subitamente com o fortuito e o imprevisto, o novo, o dinâmico e o revolucionário… O que devemos considerar como significativos são as diferenças e não as semelhanças, os elementos de descontinuidade e não os elementos de continuidade… Se não mantivermos nossos olhos alertados para o que é novo e diferente, todos perderemos, com a maior facilidade, o que é essencial, a saber, o sentimento de viver em um novo período…O estudo da História contemporânea requer novas perspectivas e uma nova escala de valores. (BARRACLOUGH, 1986,p.12)

Entretanto numa sociedade pós-moderna o que deve é enfatizado não é a realidade e sim a reprodução técnica do real (simulacro), ou seja, valoriza-se aquilo que é aparente para só assim poder contribuir para o espetáculo. Ao mesmo tempo que, foge à realidade também intensifica-a; são exemplos expressos disso: a TV HD, fotografias, projeções. Segundo Jair Ferreira (1986) o ambiente pós-moderno não nos informa sobre o mundo em si, ele apenas o refaz à sua maneira, hiper-realiza o mundo, transformando-o num espetáculo.

Dois elementos que estão intimamente imbricados no processo de globalização do mundo pós-moderno são: as informações e a comunicação. Existem dois campos da ciência encarregados de estudar as informações que é denominada de Semiologia (ciência dos signos) e a outra refere-se a comunicação chamada de Teoria da Comunicação. Jair (1986) em seu texto conceitua signo toda palavra, número, imagem ou gesto que representa indiretamente um referente (ex: uma cadeira) através de uma referência (ideia da cadeira na nossa mente). Na pós-modernidade, a matéria e o espírito se convergem, a isso os filósofos chamam de desreferencialização do sujeito, ou seja, o referente, segundo o autor se degrada em fantasmagoria e o sujeito (o indivíduo) perde a substância interior, sente-se vazio.

Por conseguinte a pós-modernidade é tida como uma continuidade da modernidade elas apresentam mais semelhanças que diferenças. O pós-modernismo é tido como uma corrente eclética, pois é o conjunto, fundamentado em Jair(1986) de tendências e estilos, não apresentando uma unicidade teórica. Daniel Bell apud Ianni até propõe que a sociedade industrial (moderna) produz bens materiais enquanto que a sociedade pós-industrial (pós-moderna) consome os serviços que foram produzidos na primeira sociedade, ou seja, ao mesmo tempo em que o pós-moderno e o moderno se rompem também se unem, se contrapõem, se desfazem e se constroem.

Observa-se que diante dessas características a modernidade trouxe para o período contemporâneo grandes consequências que se refletem nos padrões de desenvolvimento socioeconômico e até na identidade dos próprios sujeitos modernos.

Os modos de vida produzidos pela modernidade nos desvencilharam de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira que não tem precedentes. Tanto em sua extensionalidade quanto em sua intencionalidade, as transformações envolvidas na modernidade são mais profundas que a maioria dos tipos de mudança característicos dos períodos precedentes. (GIDDENS,1990, p.14.)

Dessa forma a modernidade trouxe consigo alterações que se refletiram na ordem social, econômica, política e consequentemente na Questão Social e nas suas mais variadas formas de expressão, o que sinaliza uma maior complexidade desta e também alterações dentro do trabalho e da formação profissional do Serviço Social, pois, segundo Guimarães, (2005), a profissão enquanto especialização da questão social sofre influências das transformações ocorridas na mesma, internalizando valores e novas formas de enfrentamento da questão social presentes na sociedade moderna.

Nesse contexto de profundas alterações, a globalização seria uma das consequências trazidas pela modernidade, e esta representa um novo ciclo de expansão capitalista que engloba países, sociedades e culturas, tornando assim o capitalismo de alcance mundial e universal, modificando assim, culturas, instituições ,valores, o próprio aparelho estatal e vestindo a questão social com novas roupagens.

O novo “Mercado de Trabalho” capitalista,[…], passa não só a gerenciar, controlar e a gerir as relações sociais de produção entre os indivíduos, grupos e classes sociais, mas também a cultura, os costumes, a moral, e , ainda, os sonhos, as esperanças e as expectativas dos homens, mulheres e crianças, enfim, a vida em sua totalidade. (GUIMARÃES, 2005, p.12.)

Evidencia-se esta característica do capitalismo globalizado, pelo avanço das práticas neoliberais e consequentemente o enxugamento da máquina estatal, no qual prevê os mínimos sociais para as parcelas populacionais historicamente excluídas e pauperizadas e a transferência da responsabilidade do enfrentamento da questão social pelo Estado, para a sociedade civil e os setores privados.

            Sendo assim observa-se que as alterações trazidas pela modernidade no que se refere ao avanço das práticas de transferência do enfrentamento da questão social culmina em alterações no mercado de trabalho do Assistente Social, pois, novos setores de atuação desse profissional vão surgindo para o atendimento das demandas sociais provocadas pelo atual estágio de desenvolvimento capitalista.

A retração do Estado em suas responsabilidades e ações no campo social manifesta-se na compressão das verbas orçamentárias e no deterioramento da prestação de serviços sociais públicos vem implicando uma transferência para a sociedade civil, de parcela das iniciativas para o atendimento das seqüelas da questão social, o que gera significativas alterações no mercado profissional de trabalho. ( IAMAMOTO, 1998, p.42-43.)

Diante dessa situação segundo Iamamoto (1998) ocorre o surgimento da filantropia do grande capital baseada não mais pelos valores de solidariedade e altruísmo (leia-se: pessoas de boa vontade), mas, sim pela integração da sociedade e do Estado a fim de contribuírem para o desenvolvimento das forças produtivas. É nessa perspectiva que as organizações não governamentais e o terceiro setor, em resposta a negligência do Estado com as questões sociais, substituindo- o na prestação de serviços além da filantropia empresarial, que vêm surgindo como um vasto campo de atuação do Serviço Social.

            Na filantropia empresarial, o profissional precisa fazer a mediação entre a empresa e o trabalhador, a fim de contribuir para o melhor desempenho da dinâmica empresarial (leia-se: a lucratividade e acumulação de capital).

O novo espírito social de dirigentes de grandes grupos econômicos, expresso na atualidade, não pode ser confundido com impulsos distributivos e/ou humanitários generosos. Trata-se de uma recente tendência das empresas de apresentarem uma face social inscrita em suas estratégias de marketing. […] Passam a ser utilizados com meio de atribuir respeitabilidade e legitimidade social ao empreendimento, estimulando a elevação de seus índices de rentabilidade.( IAMAMOTO, 1998, p.129).

            Dentro da filantropia empresarial, uma característica que ressalta este caráter privado, seria o impasse da seletividade dos serviços sociais prestados pelas empresas, pois, estes são baseados em critérios de prioridades e decisões que melhor satisfaçam seus anseios capitalistas. E para o profissional de Serviço Social que se insere neste setor vem sendo exigido capacidades, competências e atribuições cada vez mais amplas e técnico- operativas.

Para o ingresso na esfera empresarial tem sido exigidos requisitos que extrapolam o campo do conhecimento […] experiências, criatividade, desembaraço, versatilidade, liderança […] capacidade de sintonizar-se com as rápidas mudanças no mundo dos negócios. A área citada requer conhecimento e capacidade operativa no exercício […]. IAMAMOTO, 1998, p. 130.)

Conquanto a modernidade possui uma característica de ritmo de mudança e descontinuidade com ordens, valores e instituições anteriormente precedentes , portanto, ela gera profundas alterações em segmentos sociais, políticos e econômicos, contribuindo para novas desigualdades e exclusões sociais, dando assim novas roupagens para a  velha questão social, alterando não só o campo de intervenção do Serviço Social como também seu mercado de trabalho, constituindo novos campos de atuação profissional e novas atribuições e competências.

 Uma de suas consequências seria o capitalismo globalizado que para sua efetivação necessita de uma retração do Estado, que minimizado, passa a transferir a sua responsabilidade de enfrentamento das questões sociais para a sociedade civil e para os setores privados. Entretanto a filantropia empresarial apresenta-se como uma estratégia para atendimento da dinâmica capitalista empresarial de eficiência, eficácia e rentabilidade e sendo assim de seletividade dos serviços sociais que devem ser executados de acordo com os interesses e decisões empresariais.

Portanto, observa-se que o Assistente Social exigido para atuar diante das alterações provocadas no mercado de trabalho pela modernidade, deve ser um profissional critico-reflexivo, baseado em seu projeto ético-político e capacitado para inserir-se na correlação de forças, e compreender a dinâmica social dentro de sua historicidade, fruto de relações sociais historicamente determinadas, afim de este seja um profissional que trabalhe na perspectiva de direitos, cidadania, justiça e equidade social, além de ter uma legitimo aparato profissional para o enfrentamento da questão social de forma que não a criminalize e, negligencie  mas, que contribua para um efetivo atendimento e mediação das novas exigências da realidade  atual.

REFERÊNCIAS

BARRACLOUGH, Geoffrey. Introdução à História Contemporânea. 4 ed.Trad. de Álvaro Cabral. Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1976, PP.13,14,15 e 35.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. Tradução de Raul Fiker.São Paulo: UNESP, 1990 p.11-60.

GUIMARÃES, Simone de Jesus. O Serviço Social na Contemporaneidade: enfrentando as desigualdades, injustiças e as várias formas de expressão da questão social. IN: Serviço Social e Contemporaneidade.Teresina: EDUFPI. v.2,n° 3, 2005. P. 9-29.

IAMAMOTO, Marilda Vilela. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez, 1998. p.42-49,p.123-139.

SANTOS, Jair Ferreira. O que é pós- moderno. São Paulo: Brasiliense, 1986.

*Acadêmicas do Curso de Serviço Social promovido pela Universidade Federal do Piauí.

1-mayarabfreitas@hotmail.com

2-mel.bfreitas@hotmail.com

 

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