Novos tempos, novos vícios

NOVOS TEMPOS, NOVOS VÍCIOS

Margarete Hülsendeger

Só depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, a internet, foi que se descobriu que o problema de comunicação mais sério era o de perto.

Millôr Fernandes

“Eu amo tecnologia!” Reconheço ser uma deslumbrada quando o assunto é aparelhos eletrônicos. O que não significa que seja uma expert no seu uso. Ao contrário. Baixar novos aplicativos, por exemplo, ainda requer muito esforço, concentração e paciência da minha parte. Afinal, sou de uma geração que, como diz o ditado popular (e antigo), “Pegou o trem andando”.

Essa “pequena” diferença de décadas me fez, acredito eu, imune a alguns efeitos colaterais. Um exemplo bem simples: não sinto necessidade de fotografar o meu almoço de domingo para depois compartilhar no facebook. Ainda consigo manter minha vida pessoal longe das redes sociais. Contudo, sei que muitas pessoas não têm esse autocontrole.

Não me entendam mal, não tenho a intenção de julgar ou condenar alguém. Estou apenas constatando um fato. Segundo especialistas, problemas relacionados com o uso excessivo de tecnologia estão se tornando cada vez mais frequentes. As pessoas, em especial os mais jovens, estão desenvolvendo tal dependência que se tornou muito comum fugir das conversas “normais” para usar apenas o SMS. Cansei de ver adolescentes, em bares e restaurantes, digitando furiosamente em seus celulares sem trocar uma única palavra, ou olhar, com seus companheiros de mesa. No início, achava engraçado, mas agora considero esse tipo de “interação” um pouco deprimente.

Sempre haverá quem diga, “Novos tempos, novos comportamentos”. Concordo e volto a repetir: não estou julgando ninguém. A questão é que essas atitudes podem ocasionar problemas de saúde, não só físicos, mas também emocionais. Um dos sintomas mais recorrentes é a insônia. Segundo Raphael Boecht, psiquiatra e professor da UnB, o estímulo visual contínuo tende a prejudicar o sono, pois o cérebro demora mais para reduzir suas atividades.

Quando comprei meu iPad quase enlouqueci com a possibilidade de baixar livros direto da internet. Assim, passei a levá-lo para todo o lugar, incluindo a cama. O problema é que como ele tem conexão wi-fi, interrompia a leitura várias vezes para navegar pela internet e espiar o facebook. Resultado? Não lia direito (concentração mínima) e quando, enfim, desligava o aparelho, os olhos ardiam e a minha cabeça parecia ter entrado em uma centrifugadora. Demorei a aceitar que se desejava ler na cama, deveria voltar ao método tradicional: o livro de papel.

Mesmo a ciência ainda não reconhecendo, estudiosos já começaram a dar nomes a alguns dos distúrbios decorrentes do uso de aparelhos eletrônicos. Assim temos: a nomofobia (necessidade de se manter conectado o tempo todo), a laptopordose (dores nas costas por carregar pesados laptops) e a síndrome da vibração fantasma (pessoas que sentem o celular vibrando quando está desligado).

Assustador? Um pouco. No entanto, precisamos sempre lembrar que o novo é sempre um pouco (às vezes, muito!) assustador, mas o ser humano é um “bicho” com uma incrível capacidade de adaptação. Lembro do desespero da minha mãe quando eu ficava muito tempo assistindo TV. Naquela época, era dado como certo que a televisão viciava e até enlouquecia. Hoje, no entanto, pode-se criticar a qualidade da sua programação, mas ninguém (que eu saiba) vai parar em um hospital psiquiátrico por assistir TV. Acompanhar o Big Brother é uma questão de gosto e não um desequilíbrio mental (pelo menos é assim que eu prefiro pensar).

De qualquer maneira, sem querer abusar dos clichês esotéricos, o caminho ideal é sempre o do meio. Todo o excesso pode ser prejudicial. Toda a compulsão pode se tornar um problema para a saúde. A grande questão é percebermos o mais cedo possível. E sinais nunca faltam.

Existem os sinais internos (a insônia, por exemplo) e os que nos são apontados por aqueles com os quais convivemos. Se no almoço de domingo com a família você se preocupar mais em olhar o facebook do que conversar com o seu marido, esposa, filho(a), namorado(a), irmão(ã), mãe ou pai é hora de fazer uma pausa e pensar. E nesse momento a única pessoa que pode escolher qual caminho seguir é você. E nessa escolha nem é preciso abrir mão dos seus “brinquedinhos”, basta encontrar a medida certa para que o prazer não se torne fonte de tensões e ansiedades desnecessárias. Afinal, como disse Steve Jobs, “Nascemos, vivemos por um momento breve e morremos. Tem sido assim há muito tempo. A tecnologia não está mudando muito este cenário”. E, com certeza, a vida que escolhermos não se tornará melhor ou pior apenas por possuirmos um IPhone 5S ou um IPod em nosso bolso.

 

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