Sonhos de Natal

Por Gilberto da Silva

Gilberto da Silva é sociólogo, jornalista e editor da Partes.

Caminhava alegremente pelas ruas da cidadezinha pacata onde morei, localizada no norte do Paraná. Era lá pelos idos de 1968. Como um infante, liricamente sonhava com o Natal que se aproximava. Queria presente, coisa rara e difícil naquele período. Tempos bicudos em todos os sentidos. Será que eu ganharia algo bom, sonhava eu… Sonhos envolvidos numa pobreza de dar dó.
A rua quase deserta, como sempre, iluminava minha imaginação. Então, um sujeito forte, de cor branco, de sorriso largo e dentes grandes agarra meus braços:

– Venha cá, moleque!
Eu fui. O medo quase provocou um mijo. Nessa época eu ficava com vontade de fazer xixi sempre que ficava nervoso. Afinal, o homem saíra das dependências do Fórum da cidade, um prédio que me provocava pavor. Sempre escutei falar que era lá que os sujeitos malfeitores da sociedade acabavam presos. Meu Deus, pensei, serei preso? O homem podia ser um delegado.
O homem grande levou-me por um grande corredor até chegar numa sala onde havia mais de seis pessoas, umas sentadas, outras em pé. Um, desconfiei, devia ser o chefe, no caso, o Juiz. O homem branco de sorriso largo e dentes grandes colocou um grande pote na minha frente, dentro dele vários papéis enroladinhos:

– Vamos lá, menino, pegue um papel dentro deste pote.
Peguei quase trêmulo um papel qualquer do pote e o homem rapidamente tomou da minha mão. Abriu, com lentidão e leu um nome em voz alta. -Fulano de tal!
Percebi vários sorrisos e um senhor vestido de terno cinza que estava sentado ao lado do Juiz foi logo emendando…
– Ah! Este Fulano de Tal não pode! Lembram-se da outra vez? Ele aprontou um bocado, atrapalhou o processo.
Foi um burburinho só. Até eu fiquei com raiva do Fulano de Tal que atrapalhou o douto serviços dos homens brancos de roupas pretas.

-Pegue outro papel garoto-, ordenou o homem de sorriso largo e dentes grandes. Recolhi um outro papel e dei em sua mão e o homem foi logo lendo o nome em voz alta:

– Sicrano de tal!
Um breve silêncio para mim que durou horas.
Um sujeito no fundo da sala logo adjetivou coisas que não eu não entendia. Mas o Sicrano de Tal foi reprovado.
Juro que não sei quantos papeis retirei e nem quanto tempo fiquei ali dentro. Para mim, na época, uma eternidade.
Fiquei aliviado quando fui liberado porta afora. Pensei: nunca mais vou passar por essa calçada!
Sai pensando se aqueles nomes ganhariam um belo presente de natal. Ou se deram…
O meu presente sonhado, tive que aguardar pelas sobras miúdas de meu pai e minha mãe.

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