Margarete Hülsendeger

Talvez os sexos tenham mais afinidades do que se considera, e a grande renovação do mundo talvez venha a consistir no fato de que o homem e a mulher, libertados de todos os sentimentos equivocados e de todas as contrariedades, não se procurarão mais como adversários, mas como irmãos e vizinhos, unindo-se como seres humanos, para simplesmente suportar juntos, com seriedade e paciência, a difícil sexualidade que foi atribuída a eles.

Rainer Maria Rilke (Cartas a um jovem poeta)

O título, mesmo lembrando nome de novela, expressa um fato conhecido: homens e mulheres são diferentes. E quando digo diferentes estou me referindo a cérebros. Homens e mulheres são diferentes porque têm cérebros diferentes. E se alguém está pensando que essa é uma afirmativa sexista, por favor, leia o texto até o fim, pois vai perceber que não é nada disso.

Há muito tempo sabe-se da existência dessas diferenças, o problema é que elas sempre foram usadas contra o lado mais frágil, ou seja, a mulher. E porque a mulher tornou-se o lado mais frágil? Para responder a essa pergunta teria de escrever um tratado que envolveria diversas áreas do conhecimento, como a sociologia, a filosofia, a história e, principalmente, a teologia. Algo que, pelo menos nesse momento, não tenho a intenção de fazer.

Contudo, a verdade é que a mulher, por todos os motivos possíveis, transformou-se, ao longo da história, em uma figura inferior, servil, mas, paradoxalmente, causadora da maioria dos males da humanidade. Foi tratada, durante séculos, como um ser menor, sempre sujeita aos mandos e desmandos dos homens. Ao longo do século XX esse panorama foi gradativamente mudando e hoje a mulher ocupa espaços na sociedade que há 200 anos seriam inimagináveis. Ponto para as mulheres e uma necessidade drástica de adaptação por parte dos homens.

A questão é que, apesar da forma como a mulher tem sido tratada (ou destratada), o fato permanece: os cérebros masculino e feminino são diferentes. Essa afirmativa tem como base o resultado de uma pesquisa desenvolvida na Universidade da Pensilvânia e publicada nos Anais da Academia Americana de Ciências (PNAS). Os pesquisadores realizaram esse estudo com 949 pessoas (521 mulheres e 428 homens) entre nove e 22 anos.

Algumas conclusões: o homem possui uma maior quantidade de conexões na parte frontal do cérebro (centro das ações) e na parte de trás (onde está o cerebelo), importante para a intuição; já a mulher tem mais conexões entre o hemisfério direito (onde se encontra a capacidade de análise e tratamento da informação) e o hemisfério esquerdo, centro da intuição. Um dos pesquisadores explicou que diante desses resultados é possível, por exemplo, compreender porque os homens são geralmente mais aptos para aprender apenas uma tarefa por vez, enquanto as mulheres conseguem desempenhar múltiplas tarefas.

Vamos, agora, ser sinceros: alguém está espantado com esses resultados? Eu, com certeza, não estou. O grande avanço, no entanto, é que a pesquisa tornou esses dados cientificamente aceitáveis. Assim, eles não podem mais ser considerados apenas como informações contidas em um livro de autoajuda. Agora é a ciência, com seus experimentos e análises, confirmando o que já sabíamos: homens e mulheres são diferentes.

Contudo, a pesquisa americana inova porque aponta algo fascinante: a complementaridade existente entre o cérebro masculino e feminino. O que isso significa? Simples: ninguém é superior ou inferior, os homens são bons em algumas coisas e as mulheres em outras.

O homem, diante da pressão, reage mais rápido, absorvendo e tratando um maior número de informações. Por outro lado, a mulher, apesar de ser mais lenta nesse quesito, é capaz de enfrentar com mais facilidade desafios de inteligência social, memorizando com maior rapidez palavras e rostos. Imagine colocar um casal com essas aptidões trabalhando em equipe? Os resultados obtidos seriam, com certeza, espetaculares. Porém, na maior parte das vezes, o que tem feito a sociedade ao longo dos séculos? Tornar esses atributos, que fazem mulheres e homens seres únicos, em estereótipos negativos, com o objetivo de diminuir e, até mesmo, escravizar. Assim, em vez de equipes trabalhando em conjunto temos duas frentes inimigas travando uma eterna guerra na qual ninguém sairá vencedor.

Agora, graças a essa e tantas outras pesquisas, sabemos que as diferenças, há muito tempo percebidas entre homens e mulheres, não são algo ruim. Ao contrário. Sermos diferentes é muito bom. Mas, para entendermos o que isso significa precisamos deixar de lado os preconceitos e os pensamentos mesquinhos de superioridade e inferioridade. Afinal, a guerra entre os sexos só existe na cabeça daqueles que não sabem valorizar o que há de melhor em uma relação: a perfeita complementaridade entre duas pessoas que conhecem suas qualidades e limitações.

Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS

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