O peso de um olhar

Mara Rovida

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Um toque entre almas, uma proximidade percebida à distância, uma conexão no vácuo, uma vibração corpórea sem contato físico concreto. Foi isso que a fez girar o pescoço, em meio a Rodrigues, Machados, Veríssimos e Rosas. Num tiro certo, deu de encontro (ou confronto) com a origem daquele peso sobre si, daquilo que parecia roçar suas costas sem leveza e sem rodeios.

Fazia encomendas na mesma livraria há anos. Era um lugar estratégico, ficava perto de vários endereços por onde transitava ao longo da semana. Naquela terça-feira chuvosa, havia mais duas obras teóricas para compor sua bibliografia já extensa de comentadores da cultura brasileira. Mas, antes de passar no caixa, uma parada na seção de literatura nacional.

As estantes, recheadas de velhas novidades literárias, prendiam sua atenção. Não ouvia mais o burburinho do entorno e o aroma gráfico a entorpecia levemente. Entre um deslizar de dedos e outro, entre lombadas magras e rechonchudas, aquele peso discreto foi se avolumando. Era quente como hálito animalizado e consistente como carvalho. Não podia ignorar ou culpar a imaginação por aquela sensação sem causa. Como se fora puxada por um comando preciso e autoritário, sua cabeça se ergueu, permitindo que os olhares se encontrassem de chofre, sem avisos, sem cerimônias. Parado na entrada do corredor, estava o responsável por aquela sensação estranha e intensa.

Nunca se falaram, nunca se tocaram, nunca se olharam com precisão, mas suas almas se conheciam há séculos. Elas entendiam aquilo que suas mentes entupidas de saberes técnicos e literários não compreendiam. Sabiam de alguma coisa que nem mesmo a fértil imaginação daquelas duas criaturas incompletas e falhas, paradas ali no meio do corredor, teria desenhado.

Aquele encontro casual poderia ser o prenúncio, selado entre sorrisos, que faltava para a tradução em narrativa daquelas sensações. Mas, era preciso um passo, um movimento, uma ação corporal para tanger minimamente o que só suas almas sabiam.

Foram apenas dois segundos de conexão – de almas e olhares – até a ruptura provocada pela mágoa antiga, pelo coração fugidio, pela vida estressada e estressante, pelo burburinho da cidade e pelo medo de dizer em voz alta o que era pressentido no íntimo. Com meio movimento na direção contrária, suas almas já não podiam mais interferir na decisão dos corpos, movidos por mentes enérgicas e egos exigentes. Em meio aos Amores Veríssimos, eles se separaram e seguiram com suas biografias e bibliografias técnicas. Tudo mais virava pó entre livros depositados ao longo de uma vida inteira de distanciamentos e recusas mútuas em sorrir verdadeiramente para os mistérios guardados como segredos quase revelados naquela tarde pelas almas, hoje, emudecidas.

 

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