Voltem que ainda não seu certo

Nair Lúcia de Britto

Nair Lúcia de Britto é Comentarista de Cinema, jornalista e poeta.

O Jornal da Orla, de Santos, publicou um artigo de Miriam Ribeiro, em repúdio ao linchamento de Fabiane Maria de Jesus, ocorrido na cidade de Guarujá, com requintes de crueldade e que se soma a outros cometidos por supostos “justiceiros”, ocorridos só neste ano.
“Assim como na Idade Média, qualquer um pode ser a vítima. Basta alguém maldoso querer se vingar de outra pessoa, seja por desavença no trabalho, por ciúme ou inveja, e está instalado um ambiente para a tragédia”, pondera a articulista.
A ilustração referente ao artigo foi impressa na primeira página, dando o destaque necessário para que a população e as autoridades competentes fiquem alertas e reflitam sobre essa violência que vem crescendo absurdamente e que põe a população numa constante situação de risco.
Foi ouvida, pela reportagem, o parecer da socióloga Ariadne Lima Natal, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência, da Universidade de São Paulo. Segundo ela, o linchamento não se trata de uma ação bárbara, irracional; mas, sim, de um crime cometido conscientemente pelos seus autores.
Em três décadas de pesquisa, a socióloga constatou uma coincidência marcante: os linchamentos ocorrem, de forma repetitiva, logo após um caso de grande repercussão na mídia. Ou seja: um noticiário intenso sobre uma determinada tragédia acaba deflagrando uma espécie de epidemia de eventos semelhantes. Durante trinta anos de observação dos períodos em que as tragédias mais acontecem, a especialista concluiu que esses fatos fatídicos são sempre desencadeados por um caso de grande repercussão na imprensa.
A conclusão da socióloga reforça a teoria que sempre defendo; de que filmes violentos e assustadores; videogames e até esportes agressivos são uma espécie de culto à violência. Numa entrevista à tevê, um psiquiatra afirmou, certa vez, ter como cliente um menino que adquiriu um transtorno mental, após ter assistido um filme de terror. Outros especialistas alertam sobre outros riscos à saúde. Por exemplo, diante de uma situação de perigo real nosso corpo libera mecanismos de defesa para que a pessoa consiga reagir e fugir daquela situação. O coração sofre uma sobrecarga que, esporadicamente, não causa maiores prejuízos. Mas, se essa sobrecarga for constante e desnecessária, como ocorre nos espectadores assíduos de filmes de violência, com o decorrer do tempo poderão, sim, ter problemas de coração.
Se houvesse a colaboração da mídia no sentido de substituir entretenimentos agressivos por outros que cultivassem a fraternidade, cortesia, educação, o estudo; e o trabalho como única ferramenta para progredir e se emancipar; evitaria que a violência da ficção fosse transferida para as páginas da vida real.
Mas, para isso, antes de mais nada, é preciso que o telespectador tenha bom senso e um gosto mais refinado. Porque são eles próprios que incentivam a mídia a fazer da violência um entretenimento, não importa se for nocivo ao espectador, desde que o satisfaça.
Segundo noticiário esportivo da Globo, no dia 6 de julho de 2014, o lutador de Box, Anderson Silva, ao tentar um chute baixo lateral no adversário, sofreu uma fratura grave na perna. Enquanto se contorcia de dor, o lutador americano se consagrava campeão. Fãs brasileiros e americanos, minutos antes, ansiavam por golpes mais violentos. Como alguém pode se divertir vendo um homem socando o outro, para mim, é um mistério. Outro mistério é fazer disso uma profissão. VOLTEM QUE NÃO DEU CERTO!

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