A pancada deseduca e forma pessoa inseguras

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A pancada deseduca e forma pessoa inseguras

 

(*) Francisca Paris

 

franciscaparisTodos sabemos, ou ao menos temos percepção, de que o autoritarismo ou as atitudes violentas – físicas, psicológicas, verbais ou de outro tipo – são prejudiciais ao desenvolvimento humano, especialmente quando ocorrem na primeira infância, momento em que a criança inicia a sua leitura e interpretação de mundo. Fase essa que exige atenção e cuidados específicos dos seus responsáveis.

Agora uma pesquisa aponta a relação entre a violência e problemas futuros com drogas. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) acabam de divulgar o 2.º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), em que afirmam que crianças agredidas têm quase três vezes mais chances de se tornarem dependentes químicas na vida adulta. A razão disso é que a vítima fica neurologicamente mais vulnerável ao uso de drogas.

Considerando 4.607 pessoas com mais de 14 anos de 149 municípios brasileiros, o estudo aponta que 21,7% apanharam dos pais ou cuidadores quando crianças. Esse número cresce para 47,5% entre os usuários de maconha e para 52% entre os dependentes de cocaína. Uma das coordenadoras do estudo explicou que qualquer tipo de evento estressante no começo da vida afeta áreas do cérebro que são as mesmas responsáveis pelo desenvolvimento de dependência química e também pela administração do nosso humor e da nossa motivação. Assim, esse estresse torna a pessoa mais vulnerável ao uso de drogas, especialmente se for fácil obtê-las e se faltar amparo social.

É preciso acabar com essa cultura de que a agressão contra os filhos é natural e faz parte da boa educação. Isso não é verdade. E essa ideia é ainda muito forte no Brasil, segundo essa mesma pesquisa da Unifesp, que mostra que enquanto aqui uma em cada cinco crianças são agredidas, outros países têm índice abaixo de 12%.

Como parte desse trabalho de prevenção e combate à violência, é fundamental estimular a denúncia das agressões, de modo aberto ou anônimo. Isso não só contra as crianças, claro. Mas como aqui estamos falando dessa que é uma das fases mais indefesas da vida, a identificação de um abuso também cabe aos educadores, profissionais de hospitais e postos de saúde, familiares e vizinhos. Não podemos fechar os olhos a esses absurdos!

Uma das principais funções dos pais ou responsáveis é ajudar as crianças a se tornarem independentes e preparadas para os direitos e deveres da vida adulta. Para isso, é necessário estabelecer limites e também cumpri-los, sem ceder diante das chantagens emocionais infantis, e chegar a um meio termo entre o que é adequado e inadequado. O não pode ser tão bom quanto o sim, quando dialogado e explicado. Assim, eles se apropriam desde cedo da ideia de que fazem parte de diferentes grupos sociais e constroem-se na coletividade. Fazer renúncias, respeitar o espaço e os direitos do outro e conviver com frustrações são condições essenciais para uma vida saudável, seja individual ou coletivamente.

O diálogo, sem ameaças físicas ou psicológicas, e atitudes coerentes são essenciais para a construção de uma relação entre crianças e adolescentes e seus responsáveis fundamentada na confiança e respeito. Uma vez que o ser humano se constrói como pessoa do mundo na interação com os ambientes sociais nos quais está inserido, faz-se necessário que os responsáveis por crianças, adolescentes e jovens reflitam a respeito de sua postura diante deles e da sociedade. Reflexão e coerência entre discurso e atitudes cotidianas são uma boa medida.

(*) Francisca Paris é pedagoga, mestra em Educação e diretora de serviços educacionais do Ético Sistema de Ensino (www.sejaetico.com.br), da Editora Saraiva

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