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Experimentando imagens: lendo e produzindo narrativas no cenário educativo

 

Francine Borges Bordin*

Resumo:

Através deste artigo, pretendemos compreender a possibilidade de ler imagens. Compreender também a leitura para além das palavras e pensar a leitura antes da alfabetização de crianças, a leitura através de imagens. Para isso, buscamos na história da leitura e na teoria científica sobre imagens argumentos que nos possibilitem sustentar essa tentativa. Buscamos então, compreender esse processo de leitura do mundo através de imagens. E acreditamos ser completamente possível.

Palavras-chave: Leitura, imagens, crianças, educação.

 

Experiencing images: reading and producing narratives in the educational setting

Abstract:

Through this article, we intend to understand the possibility of reading images. Also understand the reading beyond words and think the reading before the child literacy, the reading through images. For this, we seek the history of reading and the scientific theory of images arguments that allow us to sustain this effort. Then we seek to understand the process of reading the world through pictures. And we believe it is entirely possible.

Keywords: Reading, images, children, education.

 

Introdução:

Qual nossa relação com as imagens? Somos capazes de lê-las e compreendê-las? Nossas crianças têm contato com imagens além das televisivas? São indagações como essas que têm nos ocupado a mente. Afinal de contas, o mundo se apresenta através de imagens postas para serem interpretadas e visualizadas, mas de que forma nós fazemos isso?

Muitas vezes nem pensamos nisso. Lemos uma tirinha de personagens conhecidos como a Mafalda, o Libório ou a Mônica e paramos por aí. Não pensamos no contexto de produção dessas narrativas e nem se quer pensamos no quão úteis elas podem ser. Buscamos nesse pequeno ensaio traçar algumas considerações sobre as imagens, acreditando que essas podem se configurar em uma importante ferramenta pedagógica que nos possibilite pensar sobre a realidade social e cultural de nossos alunos, bem como estimulá-los a ler e criar narrativas diversas.

Não pretendemos focar nosso ensaio na escrita, mas sim na leitura. Leitura que independe de letras, mas que depende de imagens. Imagens que nem sempre são vistas (como as das tiras em quadrinhos, das artes visuais, etc.), mas que são criadas na imaginação do leitor. Imagens mentais que criam imagens físicas, que criam narrativas próprias e que nos possibilitam ler o mundo à nossa volta.

Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial. (MANGUEL, p.20).

Costumamos conceituar a leitura como uma ação que envolve letras, formação de palavras, criação de significados à estas palavras e leitura destas como signos linguísticos. Buscamos aqui, dar outro sentido à leitura, trazer esta como uma forma de ver e compreender o mundo, principalmente por meio de imagens que nos possibilitam pensar e repensar nossa ação social e educativa.

Leitura de Imagens:

Manguel (1997, p.20) já dizia: “Talvez pudesse viver sem escrever, mas não creio que pudesse viver sem ler. Ler – descobri – vem antes de escrever.” Se considerarmos essa prerrogativa de que ler vem antes de escrever, devemos considerar as imagens como uma possibilidade de leitura. Assim como na educação de crianças pequenas aprendemos a ler os sinais das crianças e seus desenhos que muitas vezes mais se parecem com rabiscos, também na educação posterior (quer seja na escola, quer não seja) devemos aprender a ler as imagens presentes – sejam as produzidas no papel pelas crianças, sejam as imagens lidas em revistas de quadrinhos, sejam as percebidas nos movimentos dos alunos… As imagens nos cercam e nos falam, precisamos criar mecanismos que nos permitam compreendê-las e dar algum sentido educativo à estas.

Podem existir diferentes maneiras de se ler imagens, bem como diferentes teorias sobre leitura e interpretação de imagens. Não precisamos nos prender nestas teorias aqui. O importante é buscarmos um significado nas nossas imagens – significado que tenha sentido para nossas perspectivas e que possibilitam a criação de novas imagens a partir desses significados:

(…) além da capacidade perceptiva, entram em jogo o saber, os afetos, as crenças, que, por sua vez, são muito modelados pela vinculação a uma região da história (a uma classe social, a uma época, a uma cultura). (AUMONT, 1993, p.77).

E assim como os textos inacabados referidos por Manguel (1997), as imagens também têm essa capacidade inacabada em sua leitura, pois possibilita ao leitor interpretar e criar uma leitura única de acordo com suas pré-disposições para isso, ou de acordo com suas vinculações, conforme considerado por Aumont (1993). Aí reside o poder do leitor – o poder de ler, interpretar, criar, questionar, inventar e reinventar a realidade. A relação entre a leitura e as imagens também podem se transformar numa forma de persistir contra as adversidades da vida… Em meio à guerra, um livro, um desenho, uma arte… E uma nova significação para aquele momento.

Um exemplo da nossa capacidade de ler imagens e interpretá-las sem ler palavras é dado por Manguel:

Tentar ler um livro numa língua que não conheço – grego, russo, sânscrito – evidentemente não me revela nada. Mas, se o livro é ilustrado, mesmo não conseguindo ler as legendas posso em geral atribuir um sentido, embora não necessariamente o explicado no texto. (MANGUEL, 1997, p.116)

Da mesma forma agem as crianças quando lêem um livro de histórias seguindo as imagens. Elas recriam a história de acordo com o que já ouviram sobre e de acordo com suas expectativas sobre a história, atribuindo um sentido próprio às imagens.

Manguel traz a ideia de que as imagens podem ser equivalentes à leitura:

São Nilo imaginava os crentes analfabetos aproximando-se dessas cenas em sua igreja funcional e lendo-as como se fossem as palavras de um livro. Imaginava-os olhando a decoração não mais constituída de ‘adornos frívolos’: imaginava-os identificando as imagens preciosas, ligando-as mentalmente umas às outras, inventando histórias para elas ou associando as imagens familiares, associações com os sermões que tinham ouvido, ou então se não fossem totalmente ‘iletrados’, com exegeses das Escrituras. Dois séculos depois, o papa Gregório, o Grande, faria eco às idéias de Nilo: ‘Uma coisa é adorar imagens, outra é aprender em profundidade, por meio de imagens, uma história venerável. Pois o que a escrita torna presente para o leitor, as imagens tornam presente para o analfabeto,  para aqueles que só percebem visualmente, porque nas imagens os ignorantes vêem a história que têm de seguir, e aqueles que não sabem as letras descobrem que podem, de certo modo, ler. Portanto, especialmente para a gente comum, as imagens são equivalentes à leitura’. Em 1025, o sínodo de Arras declarou que ‘aquilo que a gente simples não podia apreender lendo as escrituras poderia ser aprendido por meio da contemplação de imagens. (MANGUEL, p.117-118)

Não precisamos entrar em detalhes quanto ao uso de imagens na igreja, cito esta ideia de São Nilo, pois me parece ser útil para evidenciar nosso conceito de que as imagens podem e devem ser lidas. Da mesma forma que usamos nossas referências ao realizarmos leituras, ao lermos as imagens, fazemos uso do nosso conhecimento preconcebido sobre os símbolos presentes na imagem e localizados social e culturalmente.

Considerações finais:

Levando em conta todas as considerações feitas anteriormente sobre o uso de imagens, acreditamos que seu uso possa beneficiar a educação, seja para os educadores, seja para os educandos.

Do ponto de vista dos educadores, trabalhar com imagens possibilita estimular a imaginação dos alunos a ler e interpretar e até mesmo a criar novas narrativas de qualquer tipo. A produção de imagens também possibilita que os alunos tragam nos seus trabalhos um pouco de sua cultura e de seus traços pessoais, o que vêm para engrandecer o conhecimento dos professores e seu trabalho para além da relação ensino/aprendizagem, perpassando os limites do muro da escola para uma educação social e cultural.

Do ponto de vista dos educandos, ter a possibilidade de ler, interpretar e criar a partir de suas noções preconcebidas faz com que se sintam estimulados, possibilitando um maior envolvimento nas tarefas educacionais, fazendo com que sejam sujeitos ativos no seu processo de ensino/aprendizagem, colaborando na criação e no desenvolvimento das aulas.

Assim sendo, criar novas metodologias de ensino baseadas nas perspectivas citadas neste ensaio permite aprimorar o trabalho educacional, possibilitando uma outra forma de aprendizado que adquira destaque aos olhos dos alunos incentivando-os a produzirem narrativas visuais que virão a tornar-se em narrativas orais e textuais, facilitando a aprendizagem daqueles que tanto têm se mostrado esgotados com o sistema de ensino.

Concluímos esse ensaio então, com a convicção de que as imagens são fundamentais para a educação humana, seja na escola ou fora da escola. Pode beneficiar tanto o professor quanto o aluno nas mais diversas ciências, contribuindo para o desenvolvimento do campo intelectual e imaginativo pessoal e socialmente.

 

Referências:

AUMONT, Jacques. A imagem. Campinas, SP: Papirus, 1993.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. SP: Companhia das Letras, 1997.

Como citar este artigo:

BORDIN, Francine B. Experimentando imagens: lendo e produzindo narrativas no cenário educativo. P@rtes: São Paulo, Maio de 2014. (Publicado em xx/05/2014).

* Bacharel em Ciências Sociais, Especialista em Educação Infantil e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Email: francine.bb1988@hotmail.com

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