Archimedes Lombardi, fotógrafo aposentado e um dos principais fundadores do Cineclube Ipiranga

Por Dafne Martins

Em entrevista, Archimedes Lombardi, fotógrafo aposentado e um dos principais fundadores do Cineclube Ipiranga, falou sobre sua paixão por filmes de 18mm, as dificuldades enfrentadas na época da ditadura militar devido as censuras impostas e a nova era digital encarada por ele e outros colecionadores de celuloide como atual realidade.

Segundo Lombardi, seu fascínio por filmes de 18mm surgiu quando morava no interior, na cidade de Santa Anastácia, onde teve o seu primeiro contato com o cinema. Em 1954 começou a trabalhar no Cineparoquial da região e quatro anos depois, quando veio para São Paulo, continuou a exibir filmes e se filiou a uma entidade conhecida como Associação Paulista de Cineclubes, que já não existe mais, onde participava de mesas redondas de Cineclube.

A ideia de fundar um Cineclube no Ipiranga veio em 1964. “Eu frequentava muito cineclube no Centro de São Paulo e naquela época eu cismei de fundar um aqui, mas não tinha recursos”, afirmou. Para dar inicio a realização do seu sonho, Lombardi, conseguiu com o vice-presidente do Clube Atlético Ypiranga um local gratuito para realizar a exibição dos filmes de 18mm, as quartas-feiras. Segundo Lombardi, o que fez do projeto um sucesso foi o fato de não cobrar ingressos, uma vez que todos os 13 cinemas da região cobravam.

Lombardi ressalta que este projeto só se tornou possível porque naquele tempo era frequentador assíduo da Rua Aurora, local onde existiam muitas locadoras e produtoras de filmes. Isso porque, as grandes empresas como Vera Cruz e Brasil Filmes haviam falido. Após explicar seu sonho de montar um Cineclube, conseguiu com as empresas locais cópias de filmes sem a cobrança de aluguel. Entretanto, em 1968 o clube precisou do salão para outros fins e ele se viu obrigado a parar com as exibições. “Eu tentei arrumar algum outro lugar, mas ninguém queria saber de Cineclube. Resolvi parar”, acrescentou.

Lombardi retrata que nesta época, período da ditadura, os militares impediam que certos filmes fossem exibidos. “Eles não gostavam dos filmes russos porque havia temática trabalhista, desemprego, fome e abandono. O filme Encouraçado Potemkin era o que eles mais detestavam, pois falava de uma greve”, contou. Não era possível legendar filmes russos aqui no Brasil, o que eles faziam, então, era trazer legendado da Rússia e mesmo sem conseguir um certificado de censura, passavam a exibir na clandestinidade. Neste mesmo período Lombardi recebia convites para exibir filmes temáticos em faculdades e colégios. “Tinha que fazer esquema, sessões privadas, em dias da semana e graças ao bom Deus nunca fui pego”, disse.

Somente em 1992 começou a sua história no Cineclube Ipiranga quando passou a exibir filmes na Biblioteca Genésio de Almeida, atualmente conhecida como Biblioteca Temática Roberto Santos. Segundo Lombardi, foi publicado no jornal Gazeta do Ipiranga uma notícia de que a biblioteca disponibilizava o auditório para algum evento cultural. Após conversar com os responsáveis, ele e outros cineclubistas conseguiram o salão. Entretanto, as sessões tinham um público muito pequeno. Até que, o jornal O Estado de São Paulo descobriu que as sessões eram realizadas como forma de diletantismo e não para angariar fundos e publicou uma matéria a respeito. Desde este dia as sessões começaram a ficar mais cheias e outras mídias passaram a se interessar e divulgar o evento, tais como: TV Globo, Rede Bandeirantes e TV Record. “O Cineclube passou a contar também com a visita de convidados famosos, como: Antonio Leão da Silva Neto, o Anselmo Duarte e Rubens Ewald Filho, sem nunca cobrarem nada em troca”, afirmou.

Dafne Martins é estudante de Comunicação na Metodista-SBC

O que antes era diletantismo, atualmente vai se tornando saudade. Após passar por uma cirurgia no coração, o cineclubista não pode mais carregar os equipamentos que são necessários para exibir os filmes de 18mm, pois estes são muito pesados. Como ainda realiza no Cineclube Ipiranga a Sessão Nostalgia que acontece de quarta-feira e a Sessão Cineclube realizada aos sábados, ele conta com a ajuda de um amigo para exibir, uma vez por mês, um filme de 18mm para não descaracterizar a sessão e não perder o fascínio pela arte. Todavia, ele ressalta que atualmente em todas as sessões serão exibidos filmes digitais. “Os filmes 18mm vão se deteriorando, vão perdendo a própria nitidez e as imagens ficam opacas. Nós temos que acompanhar o progresso e agora que o celuloide está chegando ao fim, isso vai pro museu ou pra sucata.”, contou.

Segundo Lombardi, o público alvo das sessões são os idosos, que veem no ambiente um lugar para se reencontrarem. Apesar de a maioria dos filmes já estarem digitalizados, as pessoas descobrem, por meio da divulgação realizada pela Secretária da Cultura, um núcleo específico para exibição de filmes 18mm e se dispõem a comparecerem.

Dafne Martins é estudante de Comunicação na Metodista – SBC.

Compartilhe esse texto

Share to Google Buzz
Share to Google Plus
Share to LiveJournal
Share to Yandex