Quando apenas sorrir não é suficiente

QUANDO APENAS SORRIR NÃO É SUFICIENTE

Margarete Hülsendeger

 

Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte:
o riso a cavalo e o galope do sonho
É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver.

Ariano Suassuna

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Não há dia que não me espante com as pesquisas que andam sendo feitas nos laboratórios espalhados pelo mundo. E se elas dizem respeito ao comportamento humano mais espantosas me parecem. Seus resultados podem variar do inesperado até ao extremamente engraçado. E quando escrevo “engraçado”, estou falando de forma literal.

Há pouco tempo, uma universidade localizada no sul da Califórnia, a Loma Linda University, divulgou a descoberta de um “remédio” que, segundo os pesquisadores, poderia reduzir consideravelmente o hormônio causador do estresse, o cortisol. Esse “remédio” não teria um custo elevado. Ao contrário. Ele, na verdade, encontra-se ao alcance de todos. O “remédio milagroso” chama-se “riso”.

No entanto, não se enganem: não se está falando de um riso qualquer; aquele que apenas torce os cantos da boca. O riso em questão seria o que faz doer, simultaneamente, a barriga e o maxilar. Que obriga àqueles que estão sendo “medicados” a se dobrarem para diminuir o desconforto, impedindo com isso que a bexiga se solte por falta de controle.

Os cientistas responsáveis por essa investigação foram bastante meticulosos. Para o experimento, foram escolhidos 31 participantes mais um grupo de controle. Os 31 participantes tiveram de assistir um vídeo engraçado com 20 minutos de duração, enquanto o grupo de controle permaneceu em uma sala isolada sem assistir a nenhum vídeo. Durante todo esse tempo, seus cérebros foram monitorados, pois o objetivo era medir a atividade cerebral proveniente do córtex cerebral. E os resultados foram assombrosos!

Após vinte minutos de risadas, os pesquisadores mediram a taxa de cortisol e constataram que ela havia reduzido consideravelmente. O resultado foi festejado, porque hoje se sabe que altas taxas de cortisol são as responsáveis por um número significativo de problemas de saúde, como pressão alta, diabetes e doenças cardiovasculares. Além disso, eles perceberam que participantes obtinham um resultado melhor nos testes de memória quando comparados com o grupo de controle que não havia assistido ao vídeo.

Contudo, como disse antes, não estamos falando de uma risada qualquer, mas de algo mais forte, uma risada realmente “poderosa”. Segundo os pesquisadores, para que ela provoque o efeito desejado a sua frequência tem de permanecer entre 30 e 40 hertz. Para fins de comparação, saiba que quando permanecemos acordados, portanto, totalmente alertas, a frequência dos nossos padrões cerebrais encontra-se apenas entre 13 e 30 hertz (frequência beta). A risada, portanto, está dentro de uma faixa de frequência bem alta chamada gama cujo intervalo fica entre 20 e 60 hertz. Intervalo apenas observado em pessoas que se encontram em um estado de meditação profunda.

Um dos coautores da pesquisa explica que, quando uma gargalhada ocorre, é como se o cérebro se exercitasse em uma super-academia de ginástica. Nesse momento, a frequência da onda gama se encontra em sincronia com inúmeras outras áreas que estão na mesma faixa de frequência (30 a 40 hertz).  O cérebro fica, então, inundado de ondas gama como se uma espécie de tsunami passasse por ele, energizando-o e permitindo que se possa pensar com mais clareza e criatividade.

Uma boa e verdadeira risada tem o poder de nos arrancar do estresse com o qual lidamos todos os dias. Ansiedades, angústias e preocupações que nos deixam completamente vulneráveis a todo o tipo de doenças. Rir com vontade, sem vergonha, permitindo que se vejam os dentes e até mesmo o fundo da garganta, pode ser libertador. Eu, por experiência própria, já sabia disso, mas ver esse conhecimento referendado por mais uma pesquisa é muito bom. Saramago escreveu que o “Sorriso (este, maiúsculas)” é a manifestação de uma sabedoria profunda, não tendo nenhuma relação com as contrações musculares e muito menos com as definições do dicionário. É, sem nenhuma dúvida, puro contentamento. É preciso, então, perder a vergonha, deixando-nos levar pelo riso incontido, pela gargalhada ruidosa, pela alegria imensa de simplesmente se estar vivo.

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . QUANDO APENAS SORRIR NÃO É SUFICIENTE. REVISTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, 10 jul. 2014.

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