Livres? Só quando puderem decidir

Livres? Só quando puderem decidir

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo. Esteve presente ao Seminário Internacional sobre Violência contra Jornalistas promovido pelo Instituto Vladimir Herzog, Prêmio de Anistia e Direitos Humanos, em parceria com o Itaú Cultural. O evento foi realizado em 21 de outubro de 2013, em São Paulo.

A fogueira de sutiãs precisa ser mantida acessa. O fogo crepitante ecoa em cada esquina da urbes repleta de histórias, insultos, cantadas deslocadas e mulheres medidas de cima a baixo porque vestiram uma roupa mais justa, mais curta, um decote mais acentuado. O peito arfante é meu, mas é o outro que decide se ele pode ou não aparecer?

Marcha das vadias, ser vadia, sair pelada no carnaval, vestir ou despir quando quiser. Mantras entoados por todo canto, mas que ainda encontram barreiras e limitações empoeiradas dos muitos não pode. Assim a chama das liberdades femininas vem se mantendo.

Em contrapartida ou

não contramão, surgiu nessa caminhada uma série de tem de. Para ser mulher livre tem de se vestir expondo com orgulho cada pedacinho da pele, mesmo naquele dia em que você só quer se sentir folgada num moletom velho e desbotado; tem de contabilizar dois dígitos de parceiros em alguns meses para não ser considerada recalcada, chata ou qualquer coisa parecida; tem de ser agressiva no trânsito; tem de ser bem-sucedida na carreira, mas continuar acalentando o sonho da maternidade; e mais vários outros tem de.

Me pergunto, quem realmente quer trocar os não pode pelos tem de?

Uma amiga casada há uns bons anos decidiu não ter filhos e ouve com certa frequência a pergunta indiscreta, por que não adota? Deve ser tão certo quanto uma conta simples de adição, se não teve filhos é porque tem problema.

A jovem recém-separada tem de voltar pra pista e se divertir à beça. O casamento não deu certo, ela chorou umas semanas e depois percebeu que estava melhor assim. Tomou meia dúzia de providências práticas e seguiu a vida. Dia desses, comprou um vestido lindinho e decidiu usá-lo na primeira oportunidade. Eis que teve de enfrentar olhares e críticas das amigas mais chegadas. Você não disse que tinha superado? Não está afim de arrumar um namorado? Então, minha filha, precisa mostrar pele. Mas, ela estava se sentindo linda no vestidinho preto de mangas longas. Estava frio, então colocou uma legging por baixo. Nada de pele à mostra? Pecado mortal.

O vestido da discórdia me fez lembrar a história da bailarina, aquela da música, a que nunca teve o primeiro namorado. Ela é o símbolo do recalque, por isso, ninguém quer vestir collant rosa depois de certa idade. Ouvi várias versões diferentes dessa anedota. Há quem jure que a bailarina se fechou numa redoma envidraçada e se recusa a crescer. Há quem simplesmente acredite que ela é doente e necessitada de umas visitinhas ao psiquiatra (porque terapia é pouco). Eu prefiro a última versão que ouvi. Parece que a bailarina ama em silêncio um pianista talentoso, mas tímido. Dizem até que ele também a ama, mas não desgruda os dedos do teclado. Por isso, suas carícias são efêmeras. Eles se expressam pela música; ele toca, ela gira e desliza. A bailarina sonha com o calar do piano e o toque leve ainda desconhecido.

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Um dia a bandeira será trocada e todos os tem de sumirão para dar lugar aos você decide.  Por hora, vou pegar meu tênis e correr até os joelhos doerem…

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

 

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