serradocipo

Margarete Hülsendeger

É impossível ser feliz sozinho.

Tom Jobim

Ontem, se alguém me perguntasse, “Você tem medo da solidão?”, eu responderia sem pestanejar, “Não!”. Hoje, já não sei se a minha resposta seria a mesma. Motivo? O resultado de uma pesquisa realizada na Universidade da Virginia nos Estados Unidos[1].

Pesquisadores colocaram voluntários sozinhos em salas completamente isoladas. Nenhum tipo de aparelho (celular, tablet ou notebook) foi permitido. As pessoas deveriam permanecer 15 minutos tendo como única companhia os seus pensamentos. Apenas um estímulo foi autorizado: apertar um botão que produziria um choque elétrico.

A essa altura você deve estar pensando, “Que experiência boba! O quão difícil pode ser ficar 15 minutos completamente sozinho? Eu, com certeza, conseguiria”. Bem, informo que 67% dos homens e 25% das mulheres não conseguiram. Eles escolheram “sentir” as descargas elétricas a permanecerem sem estímulos. E o mais estranho é que alguns deles optaram pelo “castigo” várias vezes.

Surpreso? Não se preocupe, você não está sozinho. Os pesquisadores que conduziram a experiência também ficaram espantados, pois esse resultado indicou, sem sombra de dúvida, o quanto as pessoas ficam desconfortáveis quando a única companhia disponível são elas mesmas.

Esse, no entanto, não foi o primeiro estudo sobre a solidão. Diversas outras pesquisas têm avaliado sua influência na saúde do ser humano. Até agora foi possível mapear todo o tipo de problema: alteração da pressão arterial, envelhecimento precoce, obesidade, arteriosclerose, diabetes e até infarto. E nessa pequena lista pode-se incluir uma forte predisposição ao suicídio.

E tem mais.

Se resolvermos consultar a bibliografia disponível, encontraremos outras pesquisas bem interessantes. No Centro de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago (EUA) existe um estudo que relaciona o medo da solidão com a genética. Segundo os pesquisadores, evitaríamos o isolamento por sermos uma espécie que, por muitos anos, dependeu do grupo para a sua sobrevivência. Não li o estudo, mas vejo nele uma certa lógica. Afinal, os humanos são a única espécie completamente dependente dos pais nos primeiros anos de vida. Além disso, nada mais natural do que ficar sempre perto do grupo para garantir, não só a continuidade da prole, mas a sua própria sobrevivência.

Enfim, pesquisas à parte, o fato é que a solidão é um estado com o qual poucas pessoas conseguem lidar. E aqui se torna importante diferenciar solidão de ser solitário. Para a quase totalidade dos especialistas, sentir prazer em estar só, com seus pensamentos, longe de todo o movimento e agitação da vida moderna, é extremamente saudável. No entanto, esses mesmos especialistas advertem que a pessoa precisa se sentir à vontade com essa situação. Ou seja, o estar só não pode ser algo imposto, mas uma escolha, feita de maneira consciente, com o propósito de extrair prazer da própria companhia.

soHá uma frase de Carlos Drummond de Andrade na qual ele expressa a satisfação do “pensar sozinho”. Segundo ele, pensar seria um ato individual, como nascer e morrer. Eu gosto dessa ideia, pois a solidão (ou o que pensamos que ela seja) pode ser sentida mesmo se estivermos em meio a uma multidão. Ela não está ligada a uma realidade externa (uma casa vazia, por exemplo), mas a um sentimento interno de conexão com o mundo. Para que essa ligação ocorra não precisamos necessariamente estar rodeados de pessoas, nossos pensamentos devem bastar.

Talvez seja fácil falar de forma tão desprendida sobre a solidão quando nunca se esteve realmente sozinho. Estar só, no entanto, é um “luxo” do qual não abro mão. Sempre procurei extrair desses momentos todo o proveito possível. Não vou, contudo, condenar os homens e mulheres que optaram pelo choque elétrico. Preciso antes realizar a mesma experiência para, só assim, descobrir qual seria minha escolha: eletricidade ou solidão?


[1] Os resultados completos desse estudo foram publicados, em julho deste ano, na revista científica “Science”.

Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestranda em Teoria Lietrária na PUC-RS

Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestranda em Teoria Lietrária na PUC-RS

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