zeh gustavosuprimido

Por Gilberto da Silva

Poderia sintetizar A Pedagogia do Suprimido como uma obra que tem “o futuro todo ainda para desacontecer”, mas com certeza, não seria um elogio às avessas, uma maldição e sim um desacontecimento meritório, um des-acontecer no sentido da oposição ao que já acontece na literatura, em específico, a poética.

Tento de início, não entender esta obra como puro reflexo da minha musculatura anciã, mas com o cordão da jovialidade de coisas não desenvolvidas na arte/vida suprimida. Em sua leitura, de fato apaixonante, procuro aprender, sem ser bancário, a mergulhar no universo do autor e apreender “coisas de endoidar, reminiscências, crescências” de um Zeh que é a pura expressão do “expressionismo surreal”, um sujeito carioca “retrô pacarai” (p.61)

Alicerçaria uma pretensa crítica a uma maneira militante de “acreditar que encabresto alguma crise/ter que meu corpo ocupe uma vida/pôr meus delírios a fabricar guisados de letras sob soníferos” (p.57) Eu diria: vá Zeh! Vá cantando ou assobiando, pouco importa a temperatura, tú és mestre retrô, contemporâneo da arte de ensinar a suprimir angústias. Não serão dizentas palavras que mudarão o rumo da lida. O mundo é teimosia e respira excrecências fragmentadas.

Ao tentar tecer a crítica – ou a vontade de – eu não serei um “déspota” a esclarecer como assistir novela e comer batatas fritas ou gelatina (p.103). Serei um democrata – não cristão – na aula de entender a supressão e compreender sua dura crítica ao consumismo.

Pedagogia do Suprimido. Zeh Gustavo. Rio de Janeiro : Verve, 2013.

Pedagogia do Suprimido.
Zeh Gustavo. Rio de Janeiro : Verve, 2013.

Leitores saibam – os que desconhecem – que o Zeh é um daqueles elementos que imaginamos caminhando pelas ruas cariocas cantando e sambando e entornando um caldo, tropeçando em letras e pulando rimas. Líquido, um sujeito à deriva. Pode ser uma construção; pode não ser. Mas que é sambista, é; escritor, é.

Dantes, em A perspectiva do Quase, Zeh chamou a atenção para suas letras, líricas e linhas. Agora, nos quer aprendizes de supressão e retirados nossos ismos. Nos remete a uma pedagogia transfreiriana que deseja destruir o sistema periférico atual e nos engendrar em vielas e violas cariocas, noturnas e deliciosamente perigosas. A cidade espetáculo dorme enquanto “os cães ladram e as caravanas lucram”. E a mídia desempenha seu papel deseducador, ou manipulador. De texto em texto ao percorrer a pedagogia da supressão construímos uma nova vã sabedoria. Uma construção libertadora, humanizadora que para Paulo Freire é libertadora porque humaniza, reflexivo, histórico, transformador, consciência de si (PF. p.206)

Já o Zeh ensina como ser o homus prático, a poesia como práxis, formadora, construtora. Poeta da linha de frente, pós caveirão, libertário. Talvez, por incompreensão ou leitura falha, não fiquei esclarecido se o autor tenta reduzir a complexidade da nossa existência desumana.  Uma supressão do sistema. Mas saibamos, entretanto, que a “distância que glosa é mera geografia” (p.176) e que outras supressões serão inevitáveis e possíveis no universo poético do Zeh.

Gilberto da Silva é editor da Partes

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