Cena do filme Center Stage

Cena do filme Center Stage

Aparecida Luzia de Mello*

O hotel era de alto luxo, tudo era deslumbrante. Espaços luxuosos, apartamentos sofisticados, cozinha internacional e muitos tipos de lazer no próprio local.

Piscina aquecida e bar ao lado com bebidas finas, como champanhe, whisky, vinhos, cervejas, sucos, refrigerantes, água e drinks diversos.

Apesar de todo glamour, as vezes via-se hóspedes com os filhos comendo “espetinho de gato” no calçadão externo.

Pensando nisto, os gestores do hotel, pesquisaram, descobriram e propuseram ao empreendedor uma parceria.

Ele colocaria o carrinho dentro do hotel e por meio de fichas venderia o quitute à beira da piscina. No final do dia, fechariam o movimento e fariam o acerto com pequena participação.

Embora o lucro por espetinhos fosse menor o senhor viu ali uma chance de garantir a renda diária para o sustento da família.

Ganhou uniforme com emblema do hotel, boné, luvas e corte de cabelo novo. Todo ajeitado começou a trabalhar e o sucesso foi total.

Ele era muito humilde, atendia a todos com sorriso deixando à mostra a dentadura branquinha que havia comprado para poder trabalhar ali.

Todos os dias atendia pessoas gentis, ouvia elogios, mas também atendia pessoas arrogantes e ouvia grosserias, as vezes era humilhado por sua cor, origem e pouca instrução.

Para uns era Tião do Espetinho, como estava escrito no carrinho, para outros era o Paraíba denotando preconceito da origem, para outros o Negão, destacando o preconceito da cor, para outros Cabeça Chata por sua pouca instrução e para um hóspede em especial era Escravo. Quando este o chamava, ele sempre atendia e o sujeito com ironia dizia:

- oh escravo, sirva espeto aqui e no ponto, senão te enfio no…

E caia na gargalhada.

Ele, quieto, sorria, sorriso triste e atendia a todos com a maior gentileza.

Certo dia, soube que haveria uma festa no hotel para empresários e seus familiares.

Tião resolveu levar duas ajudantes, comprou calça, camisetas e tênis branco para a mulher e a filha e no dia da festa lá estavam eles cedinho já armando o “circo” para garantir o sucesso do empreendimento. O gerente não gostou muito, achou que elas iriam atrapalhar. Os olhos da garotinha de apenas 10 anos eram de puro deslumbre, olhar vivo, sonhador e esperto.

Mas logo que pegaram no “batente” o gerente sossegou pois viu que havia harmonia no trabalho dos três e despreocupou-se.

Naquele dia o empresário que o chamava de escravo estava lá com a mulher e o filho de sete anos.

O garotinho com ar de superioridade já chegou gritando:

-: papai quero conhecer seu escravo!

Ao chegar no carrinho de churrasco, o pai disse:

-: ah… hoje temos a família completa! O escravo, a escrava e a escravinha.

Olhou para o filho e completou:

-: esta vai te servir no futuro.

E deu sua tradicional gargalhada, sob o olhar de admiração do garotinho e de pesar do pai da garota.

Uma mulher que estava logo atrás, perguntou em tom firme à garota:

-: qual o seu nome, meu bem?

A menina constrangida, respondeu quase sussurrando:

-: Mariazinha…

A mulher então, olhou para ela, fechou os olhos e respirou fundo, a seguir abriu os olhos lentamente e disse:

-: Mariazinha, vejo um futuro de sucesso para você. E serás servida por aqueles que hoje tentam te humilhar!

O rosto da garota se iluminou, o pai e a mãe dela tinham olhar de surpresa, o garotinho por sua vez olhar de interrogação e o empresário olhar de ódio. Antes de conseguir se recuperar e responder viu o flash da máquina fotográfica da senhora o cegar…

A mulher sorrindo afastou-se.

Vinte dois anos depois, a diretora manda chamar um representante que não estava se saindo bem nos negócios.

Ela era uma mulher firme, de visão mas muito solidária, e, antes de qualquer dispensa queria se inteirar dos fatos para não cometer injustiças.

O jovem chegou um pouco antes da hora marcada, a secretária o anunciou e quando ele entrou, seus olhos se fixaram no painel que decorava a sala da diretora. Uma sala que demonstrava simplicidade e bom gosto ao mesmo tempo.

Sua expressão era de espanto, interrogação, surpresa…

A diretora sorriu-lhe e perguntou:

-: gostou?

Aparecida Luzia de Mello é  Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.  cidamell@uol.com.br

Aparecida Luzia de Mello é Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora. cidamell@uol.com.br

Ele mecanicamente respondeu:

-: o que esta foto do meu pai está fazendo aqui?

Ela com expressão de estranheza, delicadamente lhe perguntou quem era seu pai?

Ele com o dedo em riste apontando para um dos homens da foto, disse:

-: faz muito tempo, já não lembro direito, mas sei que foi num hotel, numa festa em que meu pai me apresentava seus escravos…

Ela então sorrindo lhe disse:

-: sou eu – a sua escrava – e estou a seu dispor…

Ele corou, seus olhos se encheram de lágrimas e tudo que ele queria naquele momento era fugir dali…

A profecia se concretizara!

 

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

Compartilhe esse texto

Share to Google Buzz
Share to Google Plus
Share to LiveJournal
Share to Yandex