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Aparecida Luzia de Mello*

Na década de 50/60 ainda não havia a pré-escola. Entre seis e sete anos as crianças entravam na primeira série do curso primário.

E com ela não foi diferente. Com seis anos foi matriculada numa escola municipal na cidade de São Paulo.

Ela era miudinha, muito miudinha, por isto era a primeira da fila, em contra partida sua amiga e vizinha era a última por ser a mais alta.

Logo começou a aprender o bê-á-bá na cartilha Caminho Suave. O caderno era brochura, não havia lapiseira e portanto era lápis mesmo e borracha.

Tudo ia bem, ela estava atingindo os objetivos e ao mesmo tempo se tornando a queridinha da professora por ser muito alegre e sorridente.

Até que um dia, afinal sempre tem um dia na vida da gente. E aquele foi um deles na vida dela, embora fosse muito criança na época, lembra-se até hoje dos fatos…

Imaginem. A professora anuncia que aquele dia teriam o primeiro ditado.

Ditado!?! O que seria isto? Uma nova brincadeira? Algo de comer? Ninguém sabia…

Acalmada a ansiedade da turminha, a professora pediu que todos guardassem a cartilha na mala, abrissem o caderno e com o lápis escrevessem as palavras que ela mandasse. Logo os alunos se deram conta que ditado era algo macabro, traiçoeiro e foi um verdadeiro caos.

No outro dia, quando os alunos receberam os cadernos corrigidos estavam todos cheios de grandes XXX vermelhos.

Ela ficou muito triste, chegou a chorar, pois seu caderno era cheinho de CCC azuis, estrelinhas, carinhas sorridentes, etc. tudo que ela entendia como bom.

E agora, de repente, vinha aquele terrível DITADO para estragar tudo! Não entendia o que estava acontecendo.

Como a professora havia informado que toda semana teriam ditado, ela começou a pensar numa solução para aquele grave problema.

Pensou, pensou, pensou… e achou uma solução.

Na semana seguinte no dia do ditado ela estava confiante. E de fato fez um belo trabalho. Acertou quase todas as palavras ao contrário da maioria.

Semana pós semana ela era uma das primeiras no ditado sempre com muitos CCC maiúsculos mostrando seu progresso.

Naquele dia fatídico ela já se preparava de novo para fazer o ditado quando viu a coleguinha do lado chorando. Perguntou porquê? E a coleguinha respondeu que ainda não havia aprendido as palavras do bendito ditado, afinal toda semana era uma página diferente da cartilha Caminho Suave.

Aparecida Luzia de Mello é mestre em Políticas Sociais

Aparecida Luzia de Mello é mestre em Políticas Sociais

Ela não teve dúvidas, levantou-se de sua carteira e mostrou à amiguinha como deveria fazer para acertar tudo. Simplesmente pegou a cartilha da menina, abriu na página da lição que seria ditada e colocou-a embaixo do caderno brochura que era do mesmo tamanho e completou dizendo bem baixinho:

-: quando a professora ditar, você dá uma levantadinha no caderno, olha a palavra e escreve, assim você acerta quase tudo e não vai chorar mais.

O que ela não imaginava é que a professora visse e ouvisse as instruções que ela estava dando à coleguinha e dissesse aos berros que aquilo era PROIBIDO!

PROIBIDO!?!, mas porquê? Ela tinha tido uma bela ideia e só estava ensinando à outra, a técnica, para que conseguisse escrever as palavras do ditado também.

A professora colocou-a de castigo em pé no canto da sala e ríspida disse em alto e bom som para que todos alunos ouvissem, que o que ela estava fazendo era muito feio, aquilo era COLA! Não satisfeita, a professora recolheu todas as cartilhas antes do ditado.

Ela inconformada pelo castigo no canto da sala, choramingava dizendo que aquilo não era cola! Não era! Não era! Cola era feita de farinha e água!

 

 

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

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