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Aparecida Luzia de Mello*

 

Voltando de viagem na semana passada, paramos na estrada para descansar, afinal a “puxada” era grande, mais de 7 horas de estrada.

Embora cansativo achamos isto prazeroso, aproveitamos para conversar sobre a vida, ouvir músicas, cantar juntos e apreciar a natureza.

Em geral, por onde andamos, as estradas são boas, o pedágio é caro, mas vale a pena. Sempre tem bons postos de serviços, banheiros usáveis, cafés saborosos, guloseimas, presentes…

Era mais ou menos 13 horas, a fome já nos convidava a mais uma parada, fato que aguçava nosso olhar para selecionar o posto de parada.

A seleção se dá primeiro pela aparência externa, depois por uma breve circulada no espaço e finalmente pelo cheiro.

O local era bonito por fora, agradável dentro e o aroma da comida fechou a escolha.

É claro que ao descermos do carro, já descemos nos esticando. Esticamos as canelas e as costas, erguemos os braços e espreguiçamos todo o corpo. É uma sensação maravilhosa. Sentimos o vento acariciar nosso rosto, respiramos fundo, desfrutamos do cheiro do entorno e sorrimos. Hora de entrar…

Depois de “tirar água do joelho”, lavar as mãos e o rosto, escolhemos um lugar confortável para sentar e ver o cardápio.

Ainda discutíamos sobre o que comer quando vimos pelas imensas janelas que uma Van de luxo encostava.  Dela desceu um pessoal ruidoso. Imaginamos que estavam sentindo o mesmo que nós… a doce sensação de esticar o esqueleto.

A frente vinha um senhor roliço de calça azul marinho e camisa branca com logotipo no peito, seguido do “povo” e atrás, como guardião, um rapaz com o mesmo tipo de roupa, o que nos levou a crer que seria o motorista e o seu ajudante.

Quem comandava tudo era o motorista, falante, orientava os passageiros sobre os sanitários, cardápio, bazar de lembrancinhas, etc.

Enquanto o pessoal circulava, ele já instruía o garçom para juntar mesas. Ele sentou-se numa cabeceira, os passageiros nas laterais e o auxiliar na outra ponta, muito próximo de nós.

Claro que no primeiro momento não gostamos, pois o ruído daquele povo não nos daria oportunidade de conversar e curtir aqueles momentos de “descanso” da estrada como gostaríamos que fosse.

Mas a experiência vivida foi de muita valia.

Eis que a conversa rolava solta, muitos papos desencontrados, risadas altas, piadinhas, fofocas, elogios, críticas… até que na televisão presa à parede surgiu a imagem da presidenta.

O motorista guia, neste instante, deu um murro na mesa e falou um palavrão. Todos olharam para ele e o discurso cheio de gestos começou mais ou menos assim:

- Esta (*#¨@%**) é uma safada, ela e seu bando de ladrões. Bando de corruptos deviam morrer. São a desgraça do nosso país. Estão acabando com tudo. Salafrários, filhos disto, filhos daquilo… etc., etc., etc.

E todos continuavam a olhar para ele que continuava a falar e gesticular motivado pela atenção que estavam lhe dando.

-: Se eu fosse político faria tudo diferente. Faria tudo certinho. Não roubaria um centavo! Mandaria prender este bando de corruptos, mandaria todos para a forca! Colocaria o país nos eixos. Mandaria prender os ladrões e teria pena de morte para todos os criminosos! Baixaria os impostos, criaria empregos, aumentaria os salários, diminuiria as jornadas, daria saúde gratuita para todos. O Brasil seria um país exemplo de honestidade, honradez e seriedade… Eu ajudaria o povo… Dia 15 de março de 2015 ficará na história! Vamos protestar, botar toda corja para fora!

Uma senhora aplaudiu o discurso do inflado motorista, mais uma, outra, outra e dali a pouco todos estavam sorrindo e aplaudindo o que ele dizia simbolizando apoio.

O que chamou a atenção foi que o rapaz que os acompanhava só observava sem se manifestar. Comia calado, de cabeça baixa.

O motorista candidato então o provocou dizendo:

- E aí, você não concorda com o que eu estou falando? Com certeza apoia este bando de corruptos, vai ver que votou neles né? Por isto está calado…

O rapaz que até então estava indiferente disse:

- eu não votei neles, mas como você pode dizer que faria do Brasil um exemplo de honestidade se tem “gato” da TV a cabo na sua casa. Só compra vídeo pirata. Dirige pelo acostamento em muitas estradas. Ultrapassa a velocidade permitida quando não tem radar. Nos postos de parada da estrada você já tem esquema para receber 10% de tudo que o pessoal consome. Come de graça por trazer clientes ao posto e pega um cupom fiscal já guardado pelo gerente para depois fazer acerto na empresa. Quando abastece a Van manda colocar 10% menos de combustível e pede a nota com o valor integral. Quando alguém não aceita sua proposta você corta da lista de “fornecedores”… e se diz esperto por tudo isto!

O constrangimento e silêncio tomou conta da mesa. Até que alguém comentou:

- É, precisamos começar a fazer a lição de casa em nossas casas, para depois poder sair por aí fazendo discurso de moralidade…

Neste momento terminamos de tomar nosso café, era hora de pegar a estrada de novo.

Saímos de lá pensando em quanta coisa no dia a dia fazemos que dá indícios de nossa pseudomoralidade sem percebermos.

Lembrei de um professor de direito penal que dizia:

-: todos nós temos um preço, alguns valem apenas uma moeda, outros têm o valor da própria vida!

E você quanto vale?

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

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