A lagarta azul

A LAGARTA AZUL

Margarete Hülsendeger

Estoy solo y no hay nadie en el espejo.

Jorge Luis Borges

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Na versão de Tim Burton de “Alice no País das Maravilhas” a “Lagarta Azul” é uma sábia, dona de um oráculo que é capaz de falar sobre tudo o que já aconteceu e tudo o que irá acontecer. É para ela que Alice recorre quando quer solucionar o problema de sua altura, pois desde que entrou no País das Maravilhas ela aumenta e diminui de tamanho sem nenhum tipo de controle.

Na vida “real” existe algo semelhante a “Lagarta Azul”, o computador. Uma máquina capaz de processar uma quantidade incrível de informações com um simples toque dos dedos e que realiza cálculos em grande escala, desenhos industriais complexos, assim como quaisquer tipos de imagens gráficas. Além disso, um computador moderno pode nos propiciar acesso a todo tipo de entretenimento e atividades culturais. Na era da informática o Google tornou-se o nosso oráculo e nele conseguimos descobrir as respostas para quase todas as nossas perguntas.

No entanto, como qualquer máquina, o computador também tem os seus limites. Um deles é o tempo de processamento das informações. Assim, a velocidade com que o computador executa as tarefas está diretamente ligada à velocidade do processador. Portanto, quanto melhor o processador, maior a velocidade de obtenção dos resultados.

Atualmente, a indústria da informática tem depositado suas esperanças em uma máquina que superaria, em velocidade, todas as máquinas até agora construídas. Computadores incrivelmente poderosos, capazes de resolver problemas complexos mais rapidamente do que qualquer computador conhecido. Essas máquinas fantásticas são os “computadores quânticos”.

Segundo a explicação tradicional, os computadores quânticos são mais rápidos porque estariam trabalhando com qubits[1] entrelaçados e superpostos, que podem assumir muitos mais estados do que os valores binários disponíveis (0 e 1) para os bits usados pelos computadores clássicos. Em outras palavras, essas máquinas podem manipular diferentes tipos de informações simultaneamente, a uma velocidade próxima da luz. É como se você termina-se de digitar a última letra da frase que compõem a sua pergunta e instantaneamente a resposta já aparecesse em sua tela.

Quando buscamos uma explicação “menos tradicional” para os computadores quânticos, vamos no deparar com a “teoria dos multiversos”[2]. Nessa interpretação, os computadores quânticos seriam rápidos porque realizam seus cálculos em diferentes universos ao mesmo tempo, com as partículas trocando dados de um universo para outro.

Loucura? Argumento de algum filme de ficção científica? A resposta pode ser sim para ambas as perguntas, no entanto, existem cientistas sérios que defendem com unhas e dentes essa ideia. Para eles os fenômenos quânticos – entre eles a computação quântica – só se explicaria levando-se em conta a existência de diferentes dimensões ou universos. A grande dificuldade é que, até o momento, nenhuma outra dimensão, além da nossa, foi detectada. Tudo está no campo das hipóteses matemáticas, ou seja, existem equações que demostram a viabilidade dessas ideias, mas nenhum experimento que seja capaz de comprová-las.

De qualquer maneira, quando se trata de fenômenos quânticos é preciso abandonar de vez o que o senso comum diz ser o real. E o engraçado é que essa dificuldade de aceitar a estranheza desse universo não é só das pessoas comuns, mas também de muitos cientistas. Einstein, por exemplo, jamais concordou com a ideia de um corpo poder influenciar o comportamento de outro estando os dois separados por grandes distâncias, chegando a chamar esse fenômeno de “ação fantasmagórica à distância”. Contudo, hoje muitos físicos já defendem que existem influências escondidas além do espaço-tempo.

O fato é que a “Lagarta Azul” encontra-se próxima a nós. Não precisamos entrar no “País das Maravilhas” para conhecê-la. Seu nome é diferente, mas o efeito de suas revelações sobre a nossa forma de ver o mundo pode ser tão bizarro como foi para Alice quando ela mordeu os dois lados do cogumelo. Qual será o resultado de tanta “sabedoria”? Ainda não temos como saber, mas o que importa na ciência, e também na literatura, é a viagem fantástica que a busca por respostas pode sempre nos proporcionar.

[1] Um bit é a base da informação computacional. Independente de suas representações físicas, ele sempre é lido como 0 ou 1. Já um um qubit pode ser 0, 1, ou uma superposição de ambos.

[2] Ver o texto “Alice e o Coelho

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . A LAGARTA AZUL. REVISTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, 06 abr. 2015.

 

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