Mara Rovida Ferreira afirma que "São os momentos, obviamente menos recorrentes, em que o diálogo orienta as interações sociais."

Mara Rovida Ferreira afirma que “são os momentos, obviamente menos recorrentes, em que o diálogo orienta as interações sociais.”

Mara Ferreira Rovida  entrevista por Gilberto da Silva

Quem a vê circulando pelos caminhos das universidades ou em seu carro pelas engarrafadas ruas da metrópole paulistana não imagina que ali se esconde uma gigante. Firme em seus conceitos, meiga na aparência, Mara Ferreira Rovida se agiganta quando o assunto é a atualidade dos conceitos da sociologia clássica durkheimiana aplicada ao jornalismo.

“A construção do ser social, feita em boa parte pela educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios — sejam morais, religiosos, éticos ou de comportamento — que balizam a conduta do indivíduo num grupo. O homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela”, assim escreveu Émile Durkheim; ou mais explicitamente, o indivíduo não se pertence é literalmente uma coisa de que a sociedade dispõe.

Mara Rovida defendeu recentemente uma brilhante tese  –Jornalismo em trânsito – o diálogo social solidário no espaço urbano.  A tese teve a orientação de Cremilda Celeste de Araujo Medina e participaram da banca examinadora Heloiza Helena Matos e Nobre, Patricia Sales Patricio, Dulcilia Helena Schroeder Buitoni e Cláudio Novaes Pinto Coelho e é do professor Cláudio Faculdade Cásper Líbero) que recebeu um elogio à sua altura: “O mínimo que eu posso dizer é que quem não foi à defesa de doutorado da Mara hoje, perdeu uma apresentação de tese brilhante e arguições que foram unânimes em destacar as qualidades do trabalho , que foi aprovado com distinção e louvor. Não apenas eu, mas os demais membros da banca ressaltamos que o trabalho da Mara possui a qualidade cada vez mais rara de ser efetivamente uma tese, que propõe um CONCEITO novo, de diálogo social solidário, além de ser um trabalho muito bem escrito. Trata-se de uma tese que tem tudo para se tornar uma referência na discussão sobre as perspectivas do jornalismo contemporâneo. Espero que a Mara siga as recomendações da banca e transforme a tese em livro”. Assim, ansiosos aguardamos a edição do livro…

Resolvemos fazer algumas perguntas para a nova doutora. Eis aqui o resultado:

 

1. O que te levou a estudar um tema não recorrente na academia que é a relação entre o jornalismo e a mobilidade?

Na verdade, toda a pesquisa parte do acompanhamento não planejado de uma narrativa veiculada pela Rádio SulAmérica Trânsito. Na primeira parte da tese, eu recrio essa narrativa e mostro que a repercussão do caso foi extremamente diferente do que se observa no cotidiano da cobertura do trânsito. O personagem principal da narrativa, um caminhoneiro, é visto de forma amistosa e dialógica pelo próprio público, quando o normal (ou mais recorrente) é que ele seja visto como um antagonista. A pergunta que fiz, diante da repercussão do caso entre os ouvintes da rádio, é “até que ponto isso é resultado da maneira como o repórter narrou a história?”

2. Você se utiliza do conceito de solidariedade orgânica do sociólogo francês Emile Durkheim para analisar o jornalismo. Por que usar um autor não usual na área da comunicação?

O conceito de solidariedade orgânica não é usado para analisar o jornalismo exatamente. Eu uso essa noção teórica para compreender as interações estabelecidas por esse comunicador no seu cotidiano de trabalho. O que observei na minha pesquisa de campo evidencia que esse profissional da comunicação faz parte de uma rede solidária (no sentido durkheimiano e não no sentido vulgar do termo).

3. O que vem a ser “diálogo social solidário” termo que utiliza em sua tese e que relação há entre esse termo e a crescente especialização profissional.

O termo foi criado como uma síntese da própria tese. Aliás é justamente nesse conceito sintético que eu chego ao final do percurso desenvolvido na pesquisa. O repórter da rádio, que aparece na tese como um “representante” desse grupo profissional estudado (os jornalistas), está imerso nessa rede solidária, como dito anteriormente. Em algumas situações esse comunicador, entendido como um mediador social, consegue dar visibilidade para essa rede solidária em suas narrativas. Quando isso acontece, ele acaba por incluir – por assim dizer – um terceiro grupo de sujeitos sociais nessa dinâmica que é o público, fruidor da informação jornalística. Nos momentos ou situações em que isso acontece, pode-se dizer que há uma ampliação da abrangência da solidariedade social (orgânica) pela mediação do jornalista; é isso que eu chamo de diálogo social solidário. Assim, temos uma abordagem que conjuga a ideia da solidariedade orgânica e a dialogia jornalística. Isso não tem absolutamente nenhuma relação com os processos de especialização profissional, no sentido observado hoje. Tem a ver com a ideia clássica da sociologia durkheimiana da divisão do trabalho como uma das principais características da organização social capitalista ocidental.

4. É possível, então, uma comunicação comprometida com mudanças nas relações sociais?

Não evidencio mudanças, pelo contrário. Há uma relação forte com a ideia clássica de divisão do trabalho.

5.Que tipo de pesquisa você realizou para testar as suas hipóteses e porquê optou por uma determinada metodologia?

Minha pesquisa foi orientada pela ideia da descrição densa da antropologia de Geertz. Nessa perspectiva, o pesquisador divide seu trabalho, a grosso modo, em duas etapas. Num primeiro momento se faz uma imersão em campo para experimentar a realidade a ser estudada, para observar de perto. Numa segunda etapa, o pesquisador busca interpretar aquilo que foi levantado em campo e para isso ele se vale dos megaconceitos das ciências sociais (e porque não comunicacionais). Geertz defende um pensar com os conceitos e não uma reflexão sobre os conceitos. Assim, a teoria é usada como ferramenta para interpretar a realidade. Foi isso que fiz.

Mara Rovida é jornalista, doutora em ciências da comunicação pela USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Mara Ferreira Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela USP, mestre em Comunicação Social pela Faculdade Cásper Libero e membro do grupo de pesquisas do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo. Atualmente é professora de jornalismo nas Faculdades Integradas Rio Branco.

6. É possível “re encantar-se” numa sociedade onde o diálogo tem sido abandonado?

O que observo na minha tese é justamente o contraditório dessa perspectiva. São os momentos, obviamente menos recorrentes, em que o diálogo orienta as interações sociais. São os desvios, como diria Geertz, e são eles que guardam chaves interessantíssimas para compreender o social. Mesmo que possa parecer apenas uma exceção, a ideia do mediador dialógico imerso numa rede solidária pode ser muito mais recorrente do que poderíamos imaginar. O problema é que para verificar esse tipo de fenômeno social tão efêmero só é possível por meio de metodologias de pesquisa como a de Geertz. Fica difícil pensar em levantamentos quantitativos para analisar esse tipo de ocorrência. Dai muita gente concluir, apressadamente, que se trata de algo tão raro que não vale a pena levar em consideração.

7. O que restou do seu trabalho, ou seja, que caminhos percorrer daqui para a frente? Aprofundar a questão da mobilidade urbana está em seus planos?

Aprofundar a questão da mobilidade é uma das questões que resta no horizonte, sem sombra de dúvidas. Mas a principal proposta que aparece no fim da tese é explorar mais a ideia do diálogo social solidário como um conceito mesmo ou uma visão teórica nova. Aliás foi para isso que a banca apontou no dia da defesa. Segundo os professores, essa seria a contribuição maior da minha pesquisa e o aspecto inovador dela se concretizaria nesse conceito.

A tese está disponível para consulta no banco de teses da USP

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27152/tde-27022015-164649/pt-br.php

Dica de leitura – Jornalismo em trânsito

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