Aparecida Luzia de Mello*

 

A vovó que fora uma mulher de garra, batalhadora, começava a entregar os pontos.

cida melloA primeira crise de depressão aconteceu quando todos os filhos já tinham casado e saído de casa. Bateu a “síndrome do ninho vazio” que é o vazio deixado pelos filhos que já não requerem mais seus cuidados e atenção.

Precisou de ajuda médica. O marido passou a lhe dar mais atenção, começaram a passear, viajar, coisa que não faziam antes.

Quase tudo já tinha voltado ao normal quando o vovô adoeceu. Ela enfrentou tudo com maestria, mostrou-se forte, cuidava, acompanhava, medicava, alimentava… até o dia que ele partiu.

Aí a depressão voltou galopante, a família também abalada pela partida do ente querido se dividia em cuidar dela e cada um de si próprio. Embora incentivada pelos familiares e amigos, a vovó não queria sair de casa de jeito nenhum, ficava sempre nos cantos chorando, reclamando da vida, da má sorte, da solidão, das dores aqui e ali.

Foi um período muito difícil para todos até que um neto teve a ideia de presentear a vovó com um companheirinho.

Ele era peludinho, tinha dois meses de vida, estava vacinado e castrado. Uma bolinha de pelo preto que com o passar do tempo mudou para cinza chumbo.

Como acontecia tradicionalmente todo domingo, a família se reunia, ainda que faltasse um ou outro membro sempre tinha alguns filhos, netos e bisnetos visitando-a para o almoço e depois o café. Foi num destes domingos que o neto trouxe a surpresa.

Sentados em círculo, todos ficaram ansiosos para ver a reação dela, já que não fora informada sobre o novo acompanhante. Quando a bichinho foi colocado no chão, saiu farejando, foi até a vovó e aconchegou-se sobre seus pés, até parecia que tinha sido treinado.

Ela baixou os braços pegou o cachorrinho no colo, acariciando sua cabecinha esboçou o primeiro sorriso desde a partida do marido e falou:

- que xodó!!! É seu meu querido?

O neto sorrindo disse:

-: não vovó, é seu! O xodó é da vovó…

Assim surgiu o nome Xodó. Ela logo se envolveu com os cuidados necessários para com o novo morador da casa e seu rosto voltou a se iluminar. A família supria as necessidades do animalzinho trazendo a ração, levando ao veterinário, ao pet shop para o banho, etc.

A vovó embora orientada sobre a alimentação do Xodó, sabendo que deveria ser aquela determinada pelo veterinário, as escondidas, reforçava o prato com carne, frango, peixe, frutas e tudo que ela gostava e o safado se acostumou. Não adiantava brigar com ela, bastava virar as costas e lá estava ela alimentando-o com….

Anos se passaram, vovó envelhecendo e Xodó mais ainda. Com 15 anos ele começou a desenvolver algumas doenças comuns nesta faixa etária em cachorro daquela raça, principalmente devido aos abusos alimentares. Passou a tomar remédio para artrose, insulina para diabetes e medicamentos para problemas digestivos.

As reuniões familiares continuavam sempre aos domingos e o Xodó sempre estava deitadinho aos pés da vovó. Nestes encontros era comum alguém em dado momento gritar:

-: credo Xodó, de novo!!! E saía correndo com os dedos tapando o nariz. Logo o odor tomava conta de espaço e cada um corria para um lado rindo e reclamando. Isto também fazia parte da rotina.

Cachorro solta “bufa” sem fazer barulho e a gente só se dá conta quando o cheiro chega ao nariz, que é de doer, ou de amargar, ou de feder….

Quando o Xodó começou a demonstrar sinais de falência a família se apavorou, pela saúde do animalzinho claro, mas principalmente pelo novo baque que estaria por vir. O veterinário não tinha mais o que fazer. Xodó morreu, vovó morreu mais um pouquinho junto com ele e a depressão veio lascada.

A família não sabia o que fazer desta vez. Ela não queria mais nenhum animal, pois dizia que iria se apegar e depois… sofrer tudo de novo. Mas o neto alheio as negativas da vovó lhe trouxe um gatinho achado na rua, carente, magrinho e disse à avó que o animalzinho só sobreviveria se ela cuidasse dele. O que ela fez de bom grado e voltou a se animar.

Os encontros familiares aos domingos continuavam, aliás todos os dias tinha alguém visitando-a para que sentisse o calor e atenção dos familiares.

Certo domingo quando todos estavam tomando café como de costume, a bisneta que estava ao lado da vovó gritou:

-: credo!!!

Ao sentir um cheiro horrível e saiu tapando o nariz…

A avó, então séria disse:

-: é o Xodó soltando suas bufas!

Alguém argumentou:

-: mas vovó o Xodó morreu!

E ela então, virou-se e disse:

-: xiiiiiii, esqueci….

E caiu na gargalhada! Demonstrando que a depressão mais uma vez tinha ficado para trás, mas as bufas não!

 

 

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

 

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