escravidaodomestica

Aparecida Luzia de Mello*

Quando eles se conheceram ela tinha 16 anos e ele 20. Ela já trabalhava fora desde os 9 anos, isto mesmo que você leu – nove anos, por necessidade da família. Dava graças a Deus, pois odiava as

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.  E-mail: cidamell@uol.com.br

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.
E-mail: cidamell@uol.com.br

atividades do lar.

Cozinhar então nem pensar. Quando o namoro começou a ficar sério, a mãe dela começou a se preocupar, afinal a filha não sabia fazer nada, ou melhor, nada não, porque se dava muito bem no trabalho fora de casa, tinha tino para o comércio e ganhava a base de comissão.

Tanto que o maior salário da casa, nesta época, era o dela, não que fosse muito, mas ganhava mais que o pai que era operário, mais que os irmãos e mais que o próprio namorado que era escriturário.

Mas lavar, passar, cozinhar, ah…. Isto não era com ela.

Como a preocupação da mãe aumentava, um dia quando o casal estava namorando na sala, a mãe chamou os dois e disse ao rapaz:

-: olha, pensa bem, minha filha não sabe fazer nada! Nem um café!

         Ele todo pomposo, respondeu de pronto:

-: quero uma esposa e não uma cozinheira!

         A mãe então se acalmou, mas sempre que tinha oportunidade cobrava da filha a aprendizagem das lidas do lar e reforçava o recado ao rapaz.

         Passados 2 anos o casório saiu. Ela continuou a trabalhar fora, embora no primeiro momento ele tivesse oferecido resistência do tipo: mulher minha não trabalha fora…, mas somando o salário dos dois ainda faltava dinheiro para fazer frente a todos os compromissos de um novo lar, então ele teve que “engolir…”. Pagavam – aluguel, água, luz, alimentos, material de limpeza, roupas e para completar, um mês depois de casados ela ficou grávida.

O casal não estava preparado para tudo isto. Achavam que casar era apenas morar junto, mas ao sair da casa dos pais é que se deram conta das responsabilidades de uma família.

A vida era dureza. As decepções começavam a crescer de ambos os lados.

A mãe dela procurava ajudar de todas as maneiras possíveis. Fazia faxina na casa do casal enquanto a filha estava fora, convidava-os para jantar frequentemente, mas as frustrações dos dois sempre aumentavam.

A primeira filha nasceu. Apenas 11 meses e 29 dias depois nasceu a segunda filha. Oh vida… Oh dor! Quanta responsabilidade para um casal despreparado. A desarmonia era total.

Até que no dia 13 de maio de 1976 ele foi embora de casa, deixando a mulher e as filhas. Mas antes de partir passou na casa da sogra e disse:

-: vou embora! Para mim chega! Casei e não tenho uma mulher. Se eu quiser tomar um mísero café tenho que vir até aqui. Porque ela não serve nem para isto! Hoje é dia da libertação dos escravos, hoje eu me liberto de vez desta escravidão!

         Foi uma humilhação para a jovem, até então ela procurava não comentar nada do que se passava em seu lar, nem com os próprios pais para não os magoar.

Ele sumiu.

Com a partida dele, ela perdeu a casa recém comprada porque não conseguiu pagar as prestações, perdeu o carro financiado em seu nome que ele levou e ela pagou sem reclamar porque sentia-se muito culpada.

         Com o tempo a vergonha foi passando, as coisas se assentando e ela percebeu que na verdade quem havia se libertado era ela. Libertou-se das crises de ciúmes, das agressões verbais, das ameaças de agressões físicas, da submissão a que tinha se imposto, do machismo destemperado daquele homem…

         Conseguiu dar a volta por cima, educou as filhas com a ajuda dos pais. Voltou a estudar.

Embora ela nunca tenha aprendido a fazer café, casou-se de novo com um homem muito especial que se tornou “pai postiço” para suas filhas e posteriormente um avô apaixonado pelas netinhas.

O casal comprou casa, carro, apartamento no litoral, no interior… viajam, frequentam restaurantes, têm amigos, desenvolvem trabalhos voluntários, se amam, se respeitam. Estão felizes e envelhecendo juntos.

Hoje, ela diz que em suas orações sempre agradece ao Senhor com estas palavras:

-: obrigado Senhor, por eu não ter aprendido a fazer café. Por causa disto perdi um marido controlador e ciumento. Apiedado o Senhor me deu de presente um verdadeiro companheiro, amigo, amante, gentil, confidente e que toma café solúvel todo dia sem reclamar!

*Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

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