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Aparecida Luzia de Mello*

Quando a mãe dela engravidou, o pai se “mandou”. Sumiu do mapa. Nunca mais ninguém ouviu falar dele. Desapareceu.

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.  E-mail: cidamell@uol.com.br

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.
E-mail: cidamell@uol.com.br

A coitada comeu o “pão que o diabo amassou”. Sem ninguém da família por perto, viu-se “em papos de aranha”. Sem coragem de voltar grávida para sua cidade de origem, teve que se virar.

Passou fome, passou frio, ficou noites sem dormir, trabalhou dia e noite, mas conseguiu ter sua bebezinha.

Depois que o ela nasceu, a mãe continuou com seu calvário, se submetendo a toda espécie de humilhação, nunca revidava ofensas para garantir o sustento e integridade da filha. Garantiu ainda que a menina estudasse até antigo curso secretariado.

Ela não sabe como, mas a mãe, ainda neste tempo, conseguiu comprar um “terreninho”, como costuma dizer. Na verdade, era um terrenão, loteamento novo, afastado, parcelado…

Naquele enorme terreno, no fim do mundo, a mãe construiu uma casinha. Ah, neste caso era casinha mesmo, tinha um quarto, cozinha e banheiro, além de um puxadinho no fundo para cobrir o tanque e só.

Planejava ampliar a obra, quando a filha começasse a ajudar financeiramente. Queria mais um quarto, uma sala de visitas e uma varandinha na frente. Mas quando a filha terminou o secretariado e arrumou emprego numa fábrica por indicação da escola, a mãe adoeceu.

Talvez por tantas privações enfrentadas ficou limitada, não conseguia mais andar, se arrastava devido ao reumatismo, tinha as mãos comprometidas pela artrose, mal dava conta das coisas de casa.

Por incentivo do governo algumas empresas se instalaram na região criando um polo industrial e a casinha no fim do mundo tornou-se um benefício para as duas.

A filha, na época considerou-se sortuda, por conseguir aquele emprego, mas a indicação havia sido feita porque era uma aluna dedicada, e, logo colocou em prática tudo que havia aprendido no curso.

O horário era puxado, tinha que chegar antes do patrão, que 7 horas da manhã já estava na empresa para tomar café.

Nesta hora a agenda dele já tinha que estar à disposição. Era neste momento que ele passava as instruções para ela. As vezes ela comia a marmita fria no banheiro porque não dava tempo de ir ao refeitório esquentar de tanto serviço e exigências daquele executivo. Mas o salário compensava. Dava para pagar a conta de água, a conta de luz, a comida, os remédios da mãe e ainda comprar alguma roupa porque tinha que se vestir mais ou menos, afinal trabalhava na diretoria da empresa.

Tudo que ela tinha no guarda-roupa eram três terninhos – um preto, um azul marinho, um bege, algumas camisas, um par de sapatos de salto alto preto e outro bege. No curso tivera aula de etiqueta e moda, assim sabia jogar com as peças e sempre se apresentava bem.

Todos os dias, ao chegar na fábrica, passava pela portaria, falava bom dia e percebia que o porteiro estava sempre de cabeça baixa lendo um livro de capa amarela, ele levantava a cabeça, sorria e respondia ao seu bom dia, mas ela já estava lá na frente.

Cumprimentava respeitosamente a senhora do café e todos que encontrava pelo caminho até chegar em sua sala. Ali, rapidamente fazia uma prece agradecendo a Deus pelo emprego, pela vida e pedia a Ele intuição para o seu dia fluir melhor.

Com o passar do tempo ela percebeu que não teria condições de construir mais nada, então comprou um tecido com uma bonita estampa e a mãe fez uma cortina que dividia o quarto ao meio, permitindo criar-se uma sala de visitas, ainda que provisória.

De dia a cortina ficava aberta e o sofá cama em que ela dormia transformava-se em apenas sofá, à noite, a mãe recolhia a cortina e o mesmo transformava-se em cama. Apesar da simplicidade a casa era muito bem cuidada e dava gosto em ver a criatividade das duas.

Ela tinha um namorado por quem era apaixonada e ele abusava por perceber sua paixão. Até gostava dela, mas gostava também de farrear. As vezes não aparecia, dava uma desculpa esfarrapada e ela se chateava. De quando em quando ele trazia um bichinho de pelúcia de presente, fazia um agrado e ela acabava cedendo.

Ela já tinha tantos bichinhos de pelúcia que a mãe havia criado uma prateleira onde ficavam como decoração na parede da sala improvisada.

O dia dos namorados estava chegando, naquele ano seria numa sexta feira e a pescaria dos amigos dele também. Ele bolou uma desculpa do tipo – minha mãe está doente – e se preparou para dar o golpe.

Logo de manhã quando ela chegou ao escritório, encontrou uma rosa vermelha sobre sua mesa, com ou cartão em formato de coração, escrito “BOM DIA”. Ela sorriu, pegou um vaso solitário, colocou água e acomodou a rosa em sua mesa. Era a primeira vez que ganhava uma rosa. Será que ele estava mudando? Será que se dera conta de que bichinho de pelúcia estava fora de moda? Afinal ela não era mais uma criança, era uma mulher…

O dia passou, foi corrido, quando se deu conta o expediente já estava encerrando. Estava de saída quando o telefone tocou. Era ele, ligou avisando-a que não iria encontra-la porque sua mãe, etc., etc., etc. ela nem o deixou terminar de falar, furiosa, mandou-o para o inferno e bateu o telefone.

Sabia que era mais uma de suas desculpas e lágrimas vieram aos seus olhos. Estava cansada de ser enrolada. Chegou perto da flor num ímpeto de jogá-la no lixo, mas não teve coragem. Pegou a bolsa, fechou a sala e foi embora, deixando a rosa vermelha para trás.

No domingo, quando a tarde já se recolhia e a noite dava seu ar, eis que bateram palmas no portão, a mãe dela atendeu e ao perceber que era ele deu sinal para que entrasse. Ela estava tomando banho e se preparava para ler e dormir. Ele entrou pelo quintal trazendo nos braços um urso enorme. Colocou-o no centro da sala improvisada, ocupando todo espaço livre para circulação. Quando ela apareceu na sala de pijama, ele com um grande sorriso amarelo lhe disse que aquele era um presente do tamanho do amor que sentia por ela.

Ela não se conteve, talvez por estar envergonhada afinal não estava arrumada, talvez por todas as vezes que ela havia sido passada para trás, talvez por isto, ou por aquilo ou aquilo outro, enfim, ou talvez por que aquele urso tomasse toda sua minúscula sala e ele não tivera a percepção de que estava sendo inconveniente com aquele presente. Afinal naquela casa humilde, que mal tinha espaço para as duas, onde colocar mais um maldito bicho de pelúcia, e, desta vez gigante…

Ela rodou a baiana, e falou:

-: bastaria a rosa vermelha que você me mandou e sua presença. Não quero este monstrengo na minha casa!

Ele surpreso, respondeu:

-: rosa vermelha? Que rosa vermelha? Quer dizer que tem alguém competindo comigo?

Ela olhou para ele e perguntou:

-: não foi você que mandou a rosa na fábrica?

         Naquele momento ele entendeu que seria sua oportunidade de virar de caça para caçador. E machão falou firme:

-: primeiro não é qualquer namorada que ganha um presente como este, a vendedora me falou que qualquer mulher adora ursinho e este aqui então nem se fale…e, segundo – quer dizer que quando eu não estou por perto tem outro urubu na carniça!

Foi o suficiente. Foi um comentário muito infeliz. Porque ela não era qualquer mulher, e, porque ele comparou-a com carniça. A discussão cresceu. Em dado momento, ela gritando e com dedo em riste, mandou-o pegar o seu monstrengo, sumir dali e nunca mais voltar. Pegou os demais bichinhos da prateleira que decoravam a sala e começou a jogar gritando que levasse aqueles também.

Ele de repente viu-se perdido, fora infeliz na comparação, não tivera a intenção de ofendê-la, era apenas para se defender e virar o jogo, mas não conseguiu argumentar a seu favor e quando se deu conta já estava na calçada com o urso nos braços.

Caiu em si, percebeu que tinha feito besteira. Pior, tinha assumido dívida, porque o bichão custara caro. Saiu equilibrando o presente nos braços e se auto praguejando.

No caminho entre a sua casa e a casa dela havia uma igreja que naquele período do ano, nos finais de semana, tinha quermesse. Naquele momento a festa estava acontecendo e vendo o padre, que o conhecia desde menino, circulando por lá, ofereceu-lhe o urso para rifar na quermesse. O padre quase o beijou de tão contente que ficou. Abraçou o urso e caminhou sorrindo em direção a barraca das prendas.

Ele seguiu seu caminho para casa. Estava de “cabeça inchada” precisava pensar. Pela primeira vez percebeu que ela era importante para ele. E com sua atitude tinha arrumado vários problemas de uma só vez.

Primeiro – agora tinha mais uma dívida para pagar; segundo – tinha ofendido a namorada; terceiro – ela o mandara embora; quarto – tinha concorrente e não sabia quem era; quinto – e se ela não o quisesse mais…

Adormeceu no sofá e acordou com os pais chegando. Imaginem… tinham ido à quermesse da igreja. A mãe não se continha de alegria e logo foi dizendo que tinha uma bela surpresa para ele:

-: olhe o que ganhei na rifa! Comprei um número pensando em você. Pode dar para sua namorada de presente. Você diz que ela gosta tanto de bichos de pelúcia!

Lá estava o enorme urso de pelúcia, fruto da discórdia, cruzando seu caminho novamente. Ele agressivo, imediatamente, respondeu:

-: e quem vai querer um monstrengo deste? Só se for a senhora mesmo!

Levantou-se, e para surpresa dos pais, foi para seu quarto e bateu a porta. Os pais ficaram sem entender, pois, sempre o ouviam dizer que “ganhava as gatinhas” com bichinhos de pelúcia…

Ela descobriu que a rosa vermelha fora dada pelo porteiro que diariamente lia o livro de capa amarela – um manual de engenharia – curso que ele estava fazendo enquanto trabalhava de porteiro para custear os estudos.

A senhora do café fez o papel de cupido nesta história.

Cinco anos depois estavam casados. O “terreninho” da mãe deu lugar a um prédio de 10 andares e alavancou a vida do casal, que comemora no dia dos namorados 30 anos de puro amor, respeito, fidelidade e carinho.

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