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UM OLHAR PARA A HISTÓRIA E AS LUTAS DO POVO PAITER SURUÍ DE RONDÔNIA[1]

Naraykopega Suruíi

naraykopegasurui@gmail.com

 

 

Foto Naray

Naraykopega Suruíi

RESUMO: O texto apresentado trata de um breve histórico do Povo Suruí Paiter a partir da perspectiva de um indígena Paiter. Constitui uma parte do Trabalho de Conclusão de Curso – TCC: “Alfabetização Intercultural Paiter Suruí: historiografando trajetórias do tempo ágrafo à cultura escrita”, sob a orientação da professora doutora Josélia Gomes Neves apresentado ao Departamento de Educação Intercultural – DEINTER da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR – Campus de Ji-Paraná em maio de 2015. Foi elaborado a partir de fontes – orais como escritas: das minhas memórias de criança, de indígenas experientes: Pedro Kabetem, Agamenon Masakaká, Mehpoy Suruí, Arildo Gahpame, Mabehib, Ibjaraga Noah e Pagoxijor, minha mãe, após as devidas autorizações, bem como das leituras do livro da antropóloga Betty, “Vozes da Origem”  (MINDLIN, 2007). Olhar para a trajetória do povo Paiter após o contato estabelecido com o não indígena quase 50 anos depois permite afirmar que apesar dos enfrentamentos iniciais com o modo de vida do outro, ainda estamos aqui, afirmando nossa identidade, ressignificando nossa cultura e construindo novas possibilidades de diálogo intercultural.

 

PALAVRAS-CHAVE: História. Povo Paiter Suruí. Lutas.

O objetivo de escrever este texto surgiu da necessidade de refletir sobre a trajetória Paiter do contato com os “brancos”, isto é os não indígenas, até o presente momento. Representa uma oportunidade de construção de uma narrativa escrita, a partir de um objeto que foi  apropriado do outro, do não indígena já que éramos um povo de grande tradição oral, a gente não praticava a escrita. É um texto escrito a partir da visão de um indígena, um esforço de narrar um pouco da historiografia Paiter.

Pelo objetivo apresentado, a metodologia adotada é a da narrativa pela importância que dá ao auto relato que:

[...] pode ser tomado como um locus privilegiado do encontro entre a vida íntima do indivíduo e sua inscrição numa história social e cultural. A biografia, ao tornar-se discurso narrado pelo sujeito autor e protagonista, instaura sempre um campo de renegociação e reinvenção identitária. (CARVALHO, 2003, p.1).

Nós, os Suruí de Rondônia nos autodenominamos Paiter, que significa em nossa língua, “gente de verdade”, “nós mesmos”, quem primeiro surgiu no mundo, um povo de raiz, de qualidade, da natureza. Atualmente, o povo prefere ser chamado de forma intercultural – Paiter Suruí, respeitando a autodenominação e o nome dado pela FUNAI no tempo do contato. Nossa lingua materna é a Paiter e temos como 2ª língua a portuguesa. Vivemos na Terra Indígena Paiterey Karah Ká – Terra Indígena Sete de Setembro, em um espaço de aproximadamente 248.147 mil hectares, localizado no sudeste de Rondônia e noroeste de Mato Grosso.

Ainda menino, eu lembro que ouvia os mais velhos contarem que nos aproximamos dos não índios através da expedição oficial da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, chefiada pelo sertanista Francisco Meirelles e o filho dele, o Apoena Meirelles em 7 de Setembro de 1969, em um tempo que muitas pessoas de outros lugares do país vinham para Rondônia em busca de terras e uma vida melhor, elas foram incentivadas pelo governo federal, através do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA.

O encontro com os não indígenas e o contato com a FUNAI, no inicio foi difícil, pois fez a nossa população diminuir, trouxe muito sofrimento para a gente trouxe estranhamento, pois tinham assuntos e costumes diferentes que alterou o ritmo diferente do espírito nativo dos Paiter e provocou modificações no nosso costume da natureza. Na minha imaginação se não tivesse acontecido o contato com o não indígena nossa vida talvez fosse mais tranquila, a alimentação melhor, mais saudável e sem doenças.

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  Imagem 1 – Apoena Meireles fazendo o contato com Povo Paiter Suruí em 1969.

Crédito: Aimoré da Cunha – (1969)

No entanto, penso que além das coisas ruins, o contato trouxe coisas boas, por exemplo: foi reduzido o conflito com outros grupos indígenas e não indígena isolados através da ação da FUNAI, foi possível conhecer um pouco mais o mundo do branco, utilizar suas ferramentas – antes do contato a gente usava a flecha hoje usamos o documento escrito, a tecnologia digital e outros, assim juntamos os dois mundos de conhecimentos, o do branco e os nossos costumes tradicionais.

 Como Paiter Suruí e gente de verdade, utilizamos a tecnologia do não indígena na atualidade na é nossa grande arma que mostra ao mundo, com certeza o primeiro povo indígena que luta para salvar o mundo, o planeta. Este trabalho tem sido divulgado e está espalhado para o mundo inteiro conhecer o nosso plano de 50 anos oportunizado pela tecnologia digital é uma ferramenta muito importante para nosso povo Paiter e para toda a humanidade.

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Imagem 2 – Sertanista Aimoré Cunha da Silva e o Paiter Oytxoud.

Crédito: Aimoré da Cunha – (1970).

Eu fiquei muito admirado com a entrada do branco, dos não indígenas da chegada deles. Quando criança tinha medo do branco porque eu pensava que ele ia pegar a gente, até porque eu estava sabendo pelas história contadas por minha mãe do primeiro índio que foi casado na época do contato com uma [mulher] branca, a FUNAI não deixava o Suruí se casar com a mulher branca, na verdade era certo o pensamento da FUNAI,mas ele ficou com ela assim mesmo, na marra mesmo.

Primeira admiração aconteceu depois do contato com não indígena, me lembro da minha infância que a festa do Mapimaí acontecia direto, também me lembro que a comunidade indígena Paiter era unida e uma união para organização do trabalho, cultural do homem como também da mulher e crianças. União era pra chamar atenção de todos de manhã e a tarde, todo mundo se unia para sentar perto do fogo aceso para esquentar é um costume tradicional, ali eles contavam história, mitos e história da caçada e outros histórias e as crianças ficavam brincando em volta dos pais com seus colegas e hoje não acontece mais. Isso me marcou profundamente.

Neste tempo, os velhos falam que o Suruí namorava escondido da FUNAI com essa mulher branca, aí depois que descobriu isso a FUNAI pegou esse índio e falou para ele ajudar a fazer contato com outros parentes, os Uru Eu Wau Wau era um jeito para ele esquecer aquela mulher, mas não adiantou. Não imaginava que o pessoal estava levando ele pra lá para esquecer aquela mulher. Mas, mesmo estando longe, ele continuava apaixonado pela mulher [branca] e voltou a sua procura na casa de sua mãe e parentes, os colonos. Só que a FUNAI já tinha pedido para a família da mulher fugir com ela para outro canto, lá para o Espírito Santo [Estado].

Assim quando chegou ali e não a encontrou, ficou desesperado e ele acabou matando um homem, pensando que era namorado dela, achava que ele estava escondendo ela. Depois os colonos parentes dela, mataram ele, aí acabou a história, ali mesmo. Essa história me deixou emocionado, fiquei muito sentido com essa invasão, a invasão do contato. Naquela época a Fundação Nacional do Indio – FUNAI tinha poder para retirar invasores e cuidava dos Paiter Suruí ajudando na saúde, educação e segurança e hoje no ponto da minha visão, a FUNAI está acabando não tem poder igual antes.

Conforme as fontes orais o lugar onde iniciou o contato com os sertanistas, a frente de atração foi na Linha 12, município de Cacoal mais tarde identificada pelo Povo Paiter como nabekodabalakibah, que quer dizer, lugar onde foi colocado facão, panelas, os objetos oferecidos pela FUNAI para agradar a gente.

“[...] reinventando o passado, ressignificando o presente e o vivido para narrar a si mesmos” (ANDRADE, 2012, p.174).

O quadro abaixo demonstra o quanto o estabelecimento do contato com o não índio, resultado principalmente da migração estimulada pelo governo trouxe terror e sofrimento para os Paiter Suruí, em dez anos, a população diminuiu pela metade e nos próximos, os prejuízos continuaram, só a partir de 2000 é que conseguimos ter um visível aumento populacional, confirmando que foi: “[...] um dos casos mais flagrantes do choque da vida tribal com a fronteira econômica em expansão, [...] a devastação da Amazônia, com a explosão demográfica do novo Estado de Rondônia” (MINDLIN, 1985, p. 15).

Ano

Quantitativo populacional

Fonte

1969

700

(MINDLIN, 2001, p. 228)

1979

340

(MINDLIN, 2001, p. 228)

1991

349

(IBGE, 1991)

2000

801

(IBGE, 2000)

2006

1000

(MINDLIN, 2007).

2010

1316

(IBGE, 2010)

Quadro 1 – População Paiter. Sistematização: Naraykopega Suruí (2015).

Esta respeitada antropóloga conhece muito de nossa história, conviveu com a gente de 1979 a 1983, aprendeu a falar nossa língua e escreveu sobre a cultura, costume, mitos e tradição Paiter. Nos conheceu em um tempo muito difícil para os Paiter, pois Rondônia passava da situação de território para estado e havia um grande estimulo para a vinda de outras pessoas do Brasil para essa região, assim, como ela mesma diz:

Acompanhei o drama dos Suruí e tentei analisar suas relações com a nossa sociedade, a entrada para um sistema econômico muito diferente, e a interferência da FUNAI. Minhas viagens se deram em meio a um clima tenso de luta pela terra. A área dos Suruí estava invadida por cerca de duzentas famílias de colonos e havia choques ocasionais entre eles e os índios.[...]. O clima regional era de violência: posseiros expulsos de fazendas, assassinatos, ameaças físicas ao pessoas da FUNAI. (MINDLIN, 1985, p. 13-14).

Mas apesar dos muitos problemas, a população Paiter Suruí vem crescendo e possui aproximadamente hum mil e quatrocentas pessoas[2] conforme dados da Associação Metareilá através de fonte oral, o Arildo Suruí. Apesar das pressões que ainda sofremos por parte dos não índios, que tem contribuído para diversas mudanças no grupo, acredito que os Paiter ainda mantêm muito das suas tradições, como a festa Mapimaí ilustrada na imagem abaixo, tanto no que diz respeito à cultura material quanto aos aspectos cosmológicos. Nossa língua é do tronco Tupi, família Mondé e nos organizamos em metades compostas por quatros grupos de clãs isogâmicos patrilineares: Gameb, Gabgir, Makor e Kaban.

Nossas terras foram demarcadas em 1976 (MINDLIN, 2007). A posse permanente foi declarada pela Portaria 1561 de 29 de setembro de 1983 pelo então presidente da FUNAI Octavio Ferreira Lima, momento em que recebeu o nome oficial de “Área Indígena Sete de Setembro”. Sua homologação saiu no mesmo ano através do decreto nº 88867 de 17 de outubro de 1983, pelo presidente João Figueiredo (KANINDÉ, 2015).

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Imagem 3 – Festa Mapimaí em 2011

Crédito: Adriano Suruí (2015)

Antes do contato a luta era diferente, hoje lutamos para defender o território, para preservar as riquezas naturais e para fortalecer as práticas culturais. Também os Paiter mantêm as lembranças, transmitida de pai para filho, o tempo que teriam vindo da região de Cuiabá para Rondônia, no século XlX, fugindo da perseguição do branco. Nesse tempo, entramos em choque com outros grupos indígenas e não indígenas. Mas, hoje muita coisa mudou, para melhor. Há vinte e sete chefias, correspondentes acerca de vinte sete aldeias na T. I. Sete de Setembro, além de vinte e nove professores indígenas, dezoito cursam a graduação na UNIR, onze no Projeto Açaí e mais ou menos uma dezena de agentes de saúde indígena Paiter.

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Imagem 4 – Mapa da T. I. Sete de Setembro (2011)

Crédito: Naraykopega Suruí (2015).

A memória do Povo Paiter continua viva e em ação. Permanece a lembrança de nossos velhos e dos não indígenas que também ajudaram a construir nossa história como o Apoena Meireles, pessoa importante que gostava de coração do povo Suruí, tratava a gente como igual, não se importava com dinheiro. Hoje infelizmente muitos funcionários da FUNAI estão ali apenas pelo salário.

Conclusão

 

Penso que registros como esse, é importante para os Paiter – pois é mais uma forma de guardar nossas lembranças e também serve para o não indígena poder conhecer mais sobre o Povo Paiter Suruí e com esse conhecimento, quem sabe respeitar mais os Povos indígenas, principalmente porque este documento foi feito pelo próprio índio.

O ensino formal aconteceu na escola em 1982, os primeiros Surui que aprenderam a ler eram do sexo masculino, sete ao todo. A escola é mantida pelo poder público estadual e o ensino é ministrado por docentes indígenas, no caso da alfabetização isso é ainda mais fundamental tendo em vista a questão da língua materna. Assim as crianças de hoje aprendem a ler e a escrever, inicialmente em Paiter e depois em português. Este conhecimento que começa na escola, aos poucos é ampliado para a prática social e principalmente com a internet chegando nas aldeias, é socializado não apenas através do papel mas também por meio dos recursos eletrônicos.

Houve um tempo que nossa memória se expressava pelo oral. Na atualidade utilizamos – este trabalho é um exemplo disso – também a memória escrita. Escrevemos por muitas razões: para registrar o que achamos que é importante, escrevemos para dar notícias aos nossos parentes, escrevemos para reivindicar nossos direitos, enfim para recontar nossos mitos, para mostrar ao mundo que existimos e que somos gente verdadeira. Escrevemos para continuar afirmando nossa identidade Paiter.

Referências

CARVALHO, I. C. M. Biografia, identidade e narrativa: elementos para uma análise hermenêutica. Horizontes Antropológicos Vol. 9, Nº 19 Porto Alegre, 2003.

GAHPAME, Arildo Suruí. Entrevista concedida a Naraykopega Suruí. Cacoal-RO, outubro de 2013.

KABETEM, Pedro Suruí.   Entrevista concedida a Naraykopega Suruí sobre o contato. Cacoal-RO, outubro de 2013.

MASAKAKA, Agamenon Suruí.   Entrevista concedida a Naraykopega Suruí sobre o contato. Cacoal-RO, outubro de 2013.

MABEHIB, Suruí. Entrevista concedida a Naraykopega Suruí. Cacoal-RO, outubro de 2013.

MINDLIN, Betty. Vozes da origem, estórias sem escrita: narrativas dos índios Suruí de Rondônia: São Paulo: Ática/Iamá, 2007.

NOAH, Ibjaraga. Entrevista concedida a Naraykopega Suruí. Cacoal-RO, outubro de 2013.

SURUÍ, Mehpoy. Entrevista concedida a Naraykopega Suruí. Cacoal-RO, outubro de 2013.

PAGOXIJOR,Suruí. Entrevista concedida a Naraykopega Suruí. Cacoal-RO, outubro de 2013.


[1] Trabalho elaborado sob orientação da Prof.ª Dra Josélia Gomes Neves, da Universidade Federal de Rondônia. UNIR – Campus de Ji-Paraná. Docente do Departamento de Ciências Humanas e Sociais – DCHS e Líder do Grupo de Pesquisa em Educação na Amazônia. joselia.neves@pq.cnpq.br

 

[2]Como citado no quadro acima, o Censo de 2010 aponta para a existência de 1316 pessoas.

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