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Aparecida Luzia de Mello*

Ele e a irmã ficaram órfãos aos cinco e sete anos respectivamente, o pai morreu numa disputa de terras. Foi assassinado. A mãe que tivera tracoma[1] no início do século XX era cega.

Pai morto, mãe cega e analfabeta, roubados, os três ficaram na mendicância. Expulsos das terras, não tinham onde morar. Pediam ajuda de fazenda em fazenda. Até que o administrador de certa fazenda, apiedado, recolheu-os e passou a sustentar a família.

Ela embora cega, ajudava nos afazeres domésticos. Lavava roupas, picava legumes, tirava água do poço, trançava toalhas de banho feitas de saco de farinha alvejado enquanto os garotos ajudavam na roça, catando ervas daninhas em volta dos pés de algodão junto com a garotada da fazenda.

Por dois anos moraram nesta fazenda até que conseguiram contato com a família que morava na capital. Estes arrumaram um quartinho no fundo do quintal onde moravam e foram buscá-los.

O garoto apesar da pouca idade, nunca mais esqueceu aquele pedaço de chão e muito menos o homem que os havia acolhido na fazenda. A vida era dura, levantavam de madrugada todos os dias, mas tinham fartura. A roupa era simples, mas cobria o corpo e todo mundo se vestia igual, cada um tinha sua cama feita de palha de milho, a comida era boa e nunca faltava nada no dia a dia.

Já a vida na cidade grande foi um drama, como diziam “um pega pra capar[2]” era difícil sobreviver. Dormiam no chão forrado com trapos velhos, teve ano que por seis meses a única comida que viam em casa era batata. Batata no café da manhã, batata no almoço e batata no jantar. Os outros seis meses era fubá. Mingau de fubá de manhã, polenta no almoço e sopa de fubá no jantar. As roupas não eram nada melhores que as usadas na fazenda, mas, havia uma diferença, enquanto lá todo mundo era igual na capital estampava a pobreza da família.

Ele contava que um tio criava galinhas, mas nunca ofereceu um ovo ou um frango. Sonhava, às vezes, que estava mordendo uma asinha e acordava com água na boca.

O tempo passou, conseguiu aprender algumas letras e arrumou emprego como auxiliar numa metalúrgica.

A irmã casou-se aos 16 anos e ele com 14 anos passou a sustentar a mãe. Os dois continuavam a viver no quartinho, mas em melhores condições. Já tinham colchão e a comida era um pouco mais variada. Tinha arroz, feijão, ovo e de vez em quando carne, leite, pão…

 Quando completou 18 anos confessou à mãe seu desejo de viajar até a cidade que havia morado na infância. Sentia saudades, queria rever o pessoal. Ela apoiou a ideia e ficou na casa da filha enquanto ele saiu de férias.

Ele por ser um rapaz muito educado, humilde e demonstrando sua enorme gratidão à família foi recebido com alegria por todos. Levou alguns agrados e matou a saudade do pessoal. Não só matou a saudade como saiu de lá amarrado numa moreninha, filha do administrador.

Começaram a se corresponder por cartas. Mal escritas claro, porque os dois eram semianalfabetos, mas se entendiam. Ele na ânsia de impressioná-la procurava textos para copiar e sempre começava as cartas, assim: “Escrevo estas mal traçadas linhas…” que havia visto em algum lugar. Escrevia sobre a saudade e depois alguns versos bonitos copiados.

A cada três ou quatro meses pegava o trem no sábado à noite, chegava lá no domingo de manhã, passava o dia com a família e a noite embarcava de novo. Quando chegava à estação ia direto para o trabalho. Era um sacrifício financeiro e físico, pois seus recursos eram pequenos e dormia no trem por duas noites seguidas. Mas valia a pena, já que voltava renovado pela paixão e esperança de uma vida melhor.

Depois de dois anos marcou novas férias e nova viagem. Ficaria por lá uma semana. Comprou um broche muito bonito para a namorada e embarcou feliz.

Lá chegando, como sempre, foi recebido com festa, já que continuava muito querido. Cumprimentou a todos e deu o presente para a namorada. Foi uma inveja só! O namorado de uma das irmãs dela ficou enciumado e no outro dia providenciou um broche também.

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.  E-mail: cidamell@uol.com.br

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.
E-mail: cidamell@uol.com.br

A família inteira trabalhava na colheita do algodão. Saíram na madrugada do outro dia para a roça, a namorada com os doze irmãos e o pai, enquanto a mãe ficava cozinhando e ele seguiu junto para roçar.

Ele, de saco na mão, seguia em paralelo com o grupo trabalhando duro de igual para igual.

A futura cunhada então se aproximou e debochada, lhe disse:

-: sabia que eu ganhei um broche também? E é mais bonito do que o que você deu para minha irmã…

Ele que já tinha ouvido comentários a respeito fez cara de surpreso. E disse:

-: é mesmo? “Deixa eu” ver….

Ela ingênua, tirou de dentro do sutiã o pequeno pacotinho embrulhado num pedaço de seda. Abriu-o e entregou a preciosidade nas mãos dele, com um largo sorriso. Dando provas do que tinha falado.

Ele respondeu:

-: é bonito mesmo!

Quebrou-o ao meio, jogou dentro do saco de algodão e continuou a colher algodão como se nada tivesse acontecido.

Ela chocada, gritava, chorava e xingava, mas ninguém lhe deu atenção.

A rivalidade dos dois casais foi até o casamento. E depois também! Todavia ele sempre esteve em vantagem, pois contava com a simpatia e apoio da família dela enquanto o outro não!

BIBLIOGRAFIA:

MELDAU, Débora Carvalho. Tracoma: Disponível em: <http://www.infoescola.com/doencas/tracoma/>. Acesso em: 10/01/2011.

 


[1] O tracoma é uma doença oftálmica, que afeta a conjuntiva, córnea dos olhos e pálpebras, levando a uma inflamação crônica. No Brasil, há relatos de que esta enfermidade foi trazida pelos europeus, no século XVIII, no Nordeste, onde foram estabelecidos diversos focos desta doença. Mais informações Disponível em:< http://www.infoescola.com/doencas/tracoma/>

 

[2] Linguagem informal que quer dizer: problema, confusão.

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

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