REFLEXÃO SOBRE A PRÁTICA EDUCATIVA E PROGRAMA DE INCENTIVO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA (PIBID)

 

Izis Almeida Domingues[1]

Vilma Aparecida de Souza[2]

Resumo:
O presente artigo procurou analisar as  percepções  dos   professores  acerca  da experiência vivenciada ao longo de dois anos de desenvolvimentos das ações do PIBID, bem  como  verificar  os  desdobramentos  do  programa  na  organização  do  trabalho pedagógico na escola e na atuação dos professores que participam do mesmo, possibilitam  a  compreensão  da  práxis  como  ação  fundamental  para  a mudança da prática.
Palavras-chaves: Prática educativa; PIBID; Formação inicial
Abstract:
This article aims to analyze the perceptions of teachers about the experience lived over two years of development of PIBID actions and verify the unfolding of the program in the organization of educational work in school and in the performance of teachers who participate in the same, enable understanding of praxis as a fundamental action for change of practice.
Keywords: Educational practice; PIBID; initial training

 

foto Vilma(1)

Vilma Aparecida de Souza – Doutora em Educação. Professora do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Uberlândia- FACIP – Faculdade de Ciências Integradas do Pontal. Email: vilmasouzza@yahoo.com.br

No início do século XXI surgem novos desdobramentos da política educacional de formação docente. Estas são desenvolvidas no governo de Luiz Inácio Lula da Silva e implementadas a  partir  de  uma  série  de  programas  que  têm  em vista, dentre  outros aspectos, a formação de professores e a melhoria da qualidade educacional.

Nesse cenário, temos a Lei nº 11.502, de 11 de julho de 2007, que sinaliza ações nas políticas de formação docente, ao alterar as atribuições da CAPES, que passa a assumir como mais uma de suas responsabilidades a formação dos professores da educação básica (BRASIL, 2007). Com a Lei nº 11.502, além de coordenar o Sistema Nacional de Pós-Graduação brasileiro, a “Nova Capes” assume  como  mais  uma  de  suas  atribuições  a implementação  de  ações voltadas para a formação e a valorização dos professores da educação básica. Tais ações são abrigadas em duas diretorias, a de Educação Básica Presencial (DEB) e a de Educação da Distância (DED).  Dentre essas ações, temos: Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid); Observatório da Educação; Programa de Consolidação das Licenciaturas (Prodocência); Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB); Plano Nacional de Formação dos Professores (Parfor); Observatório da Educação Escolar Indígena; e Programa Novos Talentos (CLIMACO, NEVES e LIMA, 2012).

O programa PIBID tem como meta maior contribuir na  formação inicial de alunos das várias licenciaturas, inserindo-os na escola pública.  Além disso, o PIBID tem como intenção reunir os esforços das secretarias municipais e estaduais de educação e as universidades públicas, para que haja a melhoria do ensino público. O mesmo oferece bolsas de iniciação à docência aos alunos de cursos de licenciaturas presenciais que se dediquem às atividades realizadas ao longo de dois anos nas escolas públicas.

Tendo como intenção evidenciar a importância da pesquisa no redimensionamento do trabalho docente, o Programa tem como uma de suas atribuições, contribuir com a formação dos alunos bolsistas, enquanto futuros professores pesquisadores e colaborar com a formação continuada dos docentes das instituições participantes do subprojeto. Para isso, tomam como ações: realização de grupo de estudos;  pesquisa das condições do trabalho docente; planejamento de ações didático-pedagógicas; construção de um banco de dados com os registros, imagens e análises desenvolvidas ao longo do subprojeto; elaboração de projetos de intervenção para aplicação nas instituições participantes; dentre outros (UFU, 2010).

Tais ações procuram também proporcionar aos professores, que atuam nas escolas públicas participantes do programa, um aperfeiçoamento  intelectual,  um  processo  de reflexão sobre a prática e a identidade pedagógica e superar os índices baixos de qualidade educacional, “assim a prática cotidiana é o objeto de reflexão e de formação profissional e o eixo estruturador do processo” (DALBEN, 2010, p.176).

Izis Almeida Domingues - Pedagoga e professora na rede estadual de ensino de Minas Gerais. Email: izisdomingues@hotmail.com

Izis Almeida Domingues – Pedagoga e professora na rede estadual de ensino de Minas Gerais. Email: izisdomingues@hotmail.com

Muito do que se houve nos cursos de formação inicial é que a teoria não tem nada a haver com a prática. Dessa forma, o programa PIBID proporciona um diálogo constante entre a universidade e as escolas públicas, ou seja, um constante diálogo entre a teoria e a prática que contribui para a “formação inicial de docentes capazes de atuar de maneira propositiva em  ambientes escolares, gerando aprendizagens e provocando a revisão das práticas de educadores e gestores já profissionais” (GIGLIO, 2010, p.377).

O projeto busca promover um espaço propício para a formação inicial e continuada dos licenciandos e professores envolvidos, pois o trabalho docente na sociedade atual exige que ações sejam feitas no sentido de se repensar a concepção de docência e de educação e assegurar uma formação integral dos educadores para avançar nesse processo.

PIBID e a reflexão da prática educativa

Nesta seção apresentar-se-ão os resultados da pesquisa de campo. No decorrer da pesquisa realizada em um município mineiro com os professores supervisores participantes do PIBID, buscou-se compreender as contribuições do  Programa PIBID na  prática pedagógica da escola.

A trajetória metodológica desse estudo contou com pesquisa bibliográfica, pesquisa documental e a técnica de entrevista semi-estruturada e questionário realizados com professores supervisores, acompanhando as ações do programa de quatro cursos de licenciatura, sendo eles: Física, Matemática, Pedagogia e Química.

Buscando compreender um pouco sobre as percepções dos professores acerca do papel do PIBID e a relação com a prática educativa da escola, foi perguntado então, o que era para ele o PIBID e qual a sua repercussão no trabalho pedagógico da instituição.  Os depoimentos  dos  professores revelaram que:

O PIBID é um programa de iniciação a docência das alunas da faculdade. É um vínculo, uma parceria, entre universidade e escola e com isso, se dá uma formação melhor de futuras professoras. E na escola eu vejo que foi muito bom,  muito rico por que os alunos aprenderam e vocês também puderam vivenciar essa prática de perto. (Professor A)

O PIBID é um  programa  que  financia  a  formação  inicial  de  alunos ingressos nas licenciaturas. E o mesmo tem um papel muito importante na escola, pois     traz      ideias novas, direcionamentos e práticas diferenciadas. (Professor B)

Encontra-se presente nos depoimentos que o PIBID é um programa que incentiva, financia e valoriza a iniciação à docência. Vale destacar que nas visões de alguns sujeitos envolvidos o seu papel é proporcionar a vivência com a prática, trazer ideias novas, direcionamentos e práticas diferenciadas.

Com as atividades do referido programa na escola buscou-se desvelar se o mesmo causou alguma mudança na escola. Deste modo percebe-se nos depoimentos que o mesmo só por estar  presente  na  instituição  já  causa  transformações,  além  de  mudanças  de comportamento, de atitudes, de posturas e  metodologias de todos. Assim como relatam:

Mudança tem bastante, a partir do momento que é inserido qualquer objeto ou pessoa na escola, isso causa uma certa mudança. No primeiro momento foi de desconfiança, às vezes, até mesmo de atrito.  Então tem uma certa mudança de atitude, de postura, isso na escola e na sala de aula também (Professor E)

Sim!  O PIBID  é  um  programa  que  trabalha  com  muitas  coisas diferenciadas, fora da sala de aula e outros, e isso mexe com a escola, com os  outros professores e todos. Acredito que houve mudanças sim! (Professor A)

Mediante essas        afirmações,   pode-se        perceber que houveram  mudanças significativas, que de certa forma, chamaram a atenção do corpo docente, funcionários e  alunos. E o PIBID de maneira crítica e reflexiva proporciona as instituições de ensino muitas vezes  fechadas,  a construção  de um  olhar diferenciado  sobre  as demandas  da escola.

O mesmo tem incitado também mudanças em sala de aula como o comportamento dos alunos, aprendizado, questionamentos, participação e aproveitamento escolar, assim como expõem os docentes:

Alguns  alunos  passaram  a  se  interessar  pelo  conteúdo  por  causa  do licenciando e muitas vezes aquele aluno que eu não consigo atingir numa aula,  o  bolsista  do  PIBID  consegue  com  suas  atividades.  Eles ficam curiosos. (Professor E)

Também notei mudanças em sala de aula, no comportamento dos alunos e no  seus aprendizados. Na verdade acaba aquela monotonia de só um professor na sala. Aí com o pessoal novo eles participam das atividades, aplicando  novas   técnicas.  Isso  prende  a  atenção  sim  dos  alunos. (Professor B)

Neste sentido, pode-se perceber que com a presença  do PIBID na escola, dos licenciandos  em  sala  de  aula,  aplicando  planos  construídos  no  coletivo  entre  os licenciandos e os professores de forma diferenciada e dinâmica, proporciona um ensino e aprendizagem mais prazerosos e significativos para ambos.

PIBID e prática educativa como foco de reflexão

Com as ações do programa nas instituições de ensino, podem-se perceber no âmbito escolar, mudanças não somente por parte dos professores participantes do mesmo, mas também é evidente a inquietação e  repercussão  de  todo  o  corpo  docente  da  escola, portanto, o PIBID como algo novo e  diferente a causa transformações na prática dos professores e também da escola.

No que se refere às influências do PIBID nas práticas pedagógicas dos docentes, foi indagado se havia mudado algo em seu saber prático. Todos os entrevistados responderam positivamente a essas mudanças, destacando a superação do modo conteudista e tradicional de se trabalhar em sala de aula.

Com o  PIBID  muita  coisa,  tudo  o  que  nós  fazemos  tinha  que  ter embasamento teórico. Então eu li muito, eu aprendi muito. E tudo isso contribuiu para uma mudança na minha prática sim. Um exemplo é que deixei de ser muito conteudista. Hoje já trabalho atividades diferenciadas na sala de aula e não somente com recursos como o quadro e o giz (Professor C).

O PIBID mudou muito minha prática. Antes ela se baseava no livro didático, lousa e giz. Então era super tradicional e não conhecia nenhum dos  currículos básicos,  os PCNs,  CBC.  Então fui aprendendo com o tempo  mesmo. Com o PIBID mudei a questão da metodologia. Agora algumas atividades eu procuro fazer de uma forma diferenciada, não sei se está totalmente certo ou se está totalmente errado, mas estou tentando, estou estudando para isso, para melhorar a minha prática (Professor E).

O PIBID mudou, mudou bastante minha prática! Porque, pelo suporte que você tem na universidade, você está sempre aprendendo. Eu acho que o PIBID  passa por isso. Então nos grupos de estudos e reuniões que fazemos semanalmente você vai percebendo a necessidade de mudança. Aí  você  passa  a  ver  que  está  tendo  que  melhorar  cada  vez  mais, aprendendo com eles, aprendendo cada vez mais (Professor B)

Percebe-se nos depoimentos que o PIBID tem contribuído significativamente no que se refere à prática educativa dos professores das escolas envolvidas no Programa. Os professores revelam que os estudos teóricos  e as discussões feitas nos grupos de estudos e reuniões com coordenadores são espaços propícios para a reflexão e a construção de novos saberes que passam a nortear suas atividades educativas. De acordo com Lima (2010) estes saberes práticos, são saberes específicos desenvolvidos pelos próprios professores, fundamentados no seu trabalho cotidiano e no conhecimento de seu meio, associados à vivencia individual e coletiva.

As atividades do PIBID promovem a  interlocução   entre  a  universidade  e  as  escolas  de  educação  básica, colaborando  de  forma  positiva  a  para  a   realização  de  um  trabalho  que  envolve significativamente  os  professores  em  exercício  num  processo  de  trocas  de  saberes  e experiências, contribuindo para a concretização da práxis e redimensionamento da prática pedagógica das escolas participantes.

Ao serem  questionados  sobre  o  incentivo  à  docência,  ou  seja,  se  o  programa conseguiu  atingir esse objetivo, todos afirmam positivamente e ainda ressaltam que o mesmo  tem  por  finalidade   demonstrar  o  que  vem  ser  prática  docente  cotidiana, proporcionando, desta forma, aos alunos de  dos  cursos de licenciatura um olhar sobre o que é realmente a escola e se isto é o que eles buscam.

Sim! Assim, e acho que conseguiu e ampliou essa metodologia da sala de aula, deu um entendimento maior de como fazer com a criança para ela alfabetizar, sem ser tanto no tradicional ali com o livro. (Professor A)

Assim, eu acho que melhorou muito. Tem que buscar mais ainda, mas melhorou. Atingir assim conseguiu, mas acho que precisa de mais tempo. (Professor B)

Sim, mas não pelo dinheiro, por que o conhecimento que construímos ali juntos  e  que  levamos  por  toda  a  carreira  profissional  é  muito  mais importante. (Professor C)

Com certeza de incentivo e outra coisa, ele permitiu às alunas chegar na sala de aula. Ele permitiu que as alunas tivessem oportunidade de ver se era aquilo que elas queriam. O contato com a sala de aula permite que a pessoa veja se é aquilo que ela quer , porque a partir do momento que ela tem esse contato semanal com as crianças, aquela que não quer, minha filha, não volta. (Professor D)

Sim, mas por outro lado deixa muito claro o que é docência. Então aquela pessoa que não tem afinidade para a docência, ela “cai” fora. (Professor E)

É fundamental que se perceba partindo das falas dos professores que o PIBID contribuir significativamente na formação   inicial   dos   licenciando   e   licenciandas, demonstrando-lhes a essência desta profissão de ser professor. Pode-se depreender que o PIBID apresenta-se como uma ação  complementar no processo de formação inicial dos alunos  dos  cursos  de licenciatura,  por meio  da  inserção  dos  licenciados  no  cotidiano escolar. Tal inserção permite uma atividade de reflexão na escola por meio da interlocução com os docentes em exercício. Nessa interlocução, o trabalho dos docentes que já  estão inseridos na realidade escolar passam a ser elemento fundamental de ponto de partida para estudos e pesquisas, enriquecendo o processo de formação inicial, no sentido de construir um processo de ressignificação da prática docente no cotidiano escolar.

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os dados desse estudo permitem inferir que o Programa PIBID tem trazido elementos para uma reflexão da prática educativa tanto dos licenciandos como dos professores que atuam na escola, a partir das ações diferenciadas que são realizadas no interior da escola. Ações essas realizadas no coletivo entre os licenciandos e o corpo docente, entre a universidade e a escola pública.

Não podemos assegurar que o PIBID conseguiu alcançar todos os seus objetivos junto a todos os  participantes.   Mas é preciso afirmar que, a partir dos resultados desse estudo, para   a   maioria   dos   professores   envolvidos,   o   Programa   trouxe amplas contribuições, em relação a superação das dificuldades cotidianas da escola, das mudanças das práticas pedagógica, principiando ações efetivas  e significativas que objetivam a reflexão-ação-reflexão, considerada  indispensável ao  trabalho  e  formação  docente  do profissional comprometido com a dimensão social e política da educação.

REFERÊNCIAS:

BRASIL. Lei   no   11.502,   de   11/7/2007.   Modifica as competências e a estrutura organizacional da fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Brasília, 2007b. Disponível em: <http:// www.planalto.gov.br>. Acesso em: 31 jan. 2008.

        . Portaria Normativa da CAPES nº 122, de 16 de setembro de 2009. Cria o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). Brasília, 2009.

BRZEZINSKI, Iria. Contribuição apresentada pela ANPEd nas Audiências Públicas sobre as “Diretrizes  para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica em Curso de Nível Superior”, promovidas pelo Conselho Nacional de Educação. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, n. 16, p. 118-124, jan./abr. 2001.

CLÍMACO, João Carlos Teatini de Souza; NEVES, Carmen Moreira de Castro; LIMA, Bruno Fernandes  Zenobio de. Ações da Capes para a formação e a valorização dos professores  da  educação  básica  do  Brasil  e  sua  interação  com  a  pós-graduação. RBPG, Brasília, v. 9, n. 16, p. 181 – 209, abril de 2012.

DALBEN, Ângela I. L. de Freitas. Tensões entre formação e docência: buscas pelos acertos de um  trabalho. In: DALBEN, Ângela I. L. de Freitas et al. Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente. Belo Horizonte: Autêntica, 2010, p. 166-187.

GIGLIO,  Celia  Maria  Benedicto.  Residência  pedagógica  como  diálogo  permanente entre a  formação inicial e continuada de professores. In: DALBEN, Ângela I. L. de Freitas et al. Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente. Belo Horizonte: Autêntica, 2010, p. 375-392.

UFU – UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA. Projeto Institucional  do  Programa  Institucional  de  Bolsa  de  Iniciação  à  Docência  –  PIBID. Uberlândia/MG, 2010.

UFU – UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA. Subprojeto de Licenciatura em Pedagogia (Séries Iniciais do Ensino Fundamental): Projeto 10

 


[1] Pedagoga e professora na rede estadual de ensino de Minas Gerais. Email: izisdomingues@hotmail.com

[2] Doutora em Educação. Professora do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Uberlândia- FACIP – Faculdade de Ciências Integradas do Pontal. Email: vilmasouzza@yahoo.com.br

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