Sapinhos

Por Gilberto da Silva e Chrischão*

Nessa manhã acordei e fui logo procurando um número de telefone no meu celular certo que hoje uma pessoa muito especial na minha vida cumpre anos. Fiquei pasmo, não tinha anotado nem o número do celular, nem o número residencial da aniversariante. Fiquei assustado e intrigado com esse esquecimento. Restou-me enviar, de pronto, uma mensagem via rede social. Estava ali, a palavra pronta: rápida, fácil, indolor e inodora. Tal fato contribuiu para que irritado procurasse alguém para conversar e trocar umas “figurinhas” sobre a tal contemporaneidade.

Encontrei-me com Chrischão um amigo que costumo envocar nos momentos de delírios e precisão espiritual. Entre um café e outro percebemos que estamos vivendo no mundo do Faz-De-Conta, mas não aquele o qual a personagem Emília, do Sitio do Pica-Pau Amarelo jogava o pó de Pirlimpimpim e vivia aventuras com seus amigos fiéis em um mundo imaginário… não….  O mundo do Faz-De-Conta de hoje não possui mais o contato físico com o ser humano. Cada qual em sua respectiva cadeira com olhos fixos em uma tela que o leva para um mundo Matrix. Lembramo-nos daqueles tempos em que, ansiosos, esperávamos o carteiro que trazia as cartas de pessoas distantes e cartões postais (mostrando as maravilhas de onde estavam) e em ato contínuo logo preparávamos uma resposta, sempre bem elaborada, procurando nossas melhores palavras, nossos verbos bem empregados, vírgulas, acentos e emoção. Cartas eram então apenas comunicações devidamente acondicionadas e endereçadas a uma ou várias pessoas… canetas e lápis ao vento…

O tempo em movimento trouxe a tal “correspondência eletrônica”, ou melhor, o e-mail (pois quem iria querer usar algo com nome em português?). Por que sítio se site é mais melodioso? Por que jogo da velha se hashtag soa mais americanizado? No princípio éramos corretos, textos longos, palavras estilosas, sempre procurando os melhores termos para enviar a mensagem. O tédio apossou-se dessa ferramenta e ficamos a utilizar tal “meio” apenas nas contingências.

E após horas de navegação em salas de bate papo que hoje chamam de CHAT (por sinal “chatos” pacas), criaram o mundo das Redes Sociais, no inicio com o chamariz de encontrar pessoas que há muito não víamos. Mas percebemos depois que nos “chats” as pessoas estavam apenas querendo sexo, drogas e músicas ligeiras…

O Facebook, o Twitter e o inconveniente porém “mal necessário” Whatsapp tomaram conta do Universo.  Para bem e para o mal. E nesse universo tudo é rápido, logo uma ferramenta é substituída por outra mais atualizada e “funcional”.

Eu e meu colega doido – que me ajudou a escrever este texto, entre um café e outro, lembramos das pregações de alguns fanáticos que diziam que “no fim dos tempos, as pessoas seriam marcadas com um chip, e seria sinais de guerras e turbulências e anunciaria a vinda do anti-Cristo, e blá blá blá”. Ok; aí estão os chips dos computadores dominando o nosso mundo.

Hoje, não nos vemos mais, não ouvimos mais a voz do outro. Apenas, digitamos. E por sinal, digitamos errado. Um simples “Feliz Aniversário” virou um ícone representando um polegar fazendo um “positivo”. Tenho uma amiga que sempre recomenda colocar esse dedão em outro lugar. Escrevo “é meu aniversário” e recebo milhares de curtidas que poderiam ser convertidas em telefonemas ou abraços. Mas se eu disser que vou fazer uma festança, aí sim… todo mundo quer aparecer (mas chegar com uma cachaça debaixo do braço para dar ao amigo uma ova!). Mas vamos supor que eu faça a festa e venham 200 convidados. Serão 200 celulares tirando “selfies” e postando nas Redes Sociais. Cantar parabéns, perguntar quem é o aniversariante, vigiar o churrasco, prestar atenção na cerveja do congelador é prática de poucos.  O aniversário é meu e eu não apareço em nenhuma foto!

Convenhamos, o mundo está um porre! Porre de cachaça sem álcool. Um mundo virtual repleto de intolerâncias, fanatismos, preconceitos, julgamentos (pré e pós). Mandaria meio mundo pro divã por falta de Amor… Pessimismo virou pastel de feira. Política virou joguinho de ficar pedindo vida, as ruas meras reproduções dos jogos de GTAs.

E no mundo virtual está cheio de engraçadinho querendo dar a sua opinião. Combinei que no meu blog só publico comentários contrários se depositarem na minha conta 0,25 centavos por cada palavra postada. Nada de engolir sapos. E nem me venham com homilias!

Outra onda do momento são os tais “aplicativos”. Tem aplicativo para tudo e para todos. Quer comer?, um aplicativo busca a melhor alternativa; que beber?, tem aplicativo que busca até a origem da bebida. Quer o melhor caminho?, o aplicativo te leva….

Estamos passando por uma morioplastia e aos poucos substituindo nossos órgãos por aplicativos mais convenientes. Logo mais teremos aplicativos para nos indicar a melhor hora de fazer sexo e de amar (ou as duas coisas juntas…). Teremos aplicativo para até perdoar nossos pecados!

É claro que tudo que conversamos e publicamos aqui deve ser relativizado, mas derruba-se o sinal de internet do mundo por 24 horas e o ser humano não saberá mais o que fazer.

Para variar hoje é dia do amigo. Quer ser meu amigo? Leva-me para almoçar no Lino Lord; vamos tomar café na padaria; pergunta se estou bem, mesmo sabendo que eu vou te mandar passear na floresta…

PS: *Chrischão é um amigo meio medieval que envoco sempre que necessário.

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