Avaliação da Aprendizagem Escolar: alguns apontamentos

 Avaliação da Aprendizagem Escolar: alguns apontamentos

 

Celina Elisa de Paiva¹

Fernanda Duarte Araújo Silva²

 

 

Resumo:

Fernanda Duarte Araújo Silva. Doutora em Educação pelo Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Professora Adjunta do Curso de Pedagogia na Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP/UFU). Possui experiência na Educação Infantil e Ensino Fundamental como docente e coordenadora pedagógica. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Infâncias (GEPI). Coordenadora do I Curso de Especialização em Educação Infantil da FACIP/UFU.
Doutora em Educação. Professora do Curso de Pedagogia pela Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Especialista em Docência no Ensino Superior (UFU-2004) e graduada em Pedagogia (UFU-2003). Possui experiência na Educação Infantil e Ensino Fundamental como Docente e Coordenadora Pedagógica. Atuou como Professora Assistente da Universidade Federal do Tocantins e atualmente é Professora da Universidade Federal de Uberlândia, Campus do Pontal. fernandaduarte.facip@gmail.com

O presente artigo apresenta dados de uma pesquisa realizada no Curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal da Universidade Federal de Uberlândia (FACIP-UFU). Nosso propósito, nesta pesquisa, foi o de discutir alguns conceitos de avaliação segundo estudiosos da área. Concluímos que, para a avaliação ser realizada de forma plena é preciso que o professor observe e registre todos os momentos das atividades das crianças, pois por meio dessas observações é possível garantir a aprendizagem das crianças, além de propiciar oportunidades para que elas se desenvolvam integralmente.

Palavras Chave: Avaliação, Aprendizagem, Educação.

 

 

A avaliação está presente no nosso cotidiano diariamente. Segundo Kenski (1997) a todo o momento as pessoas são obrigadas a tomar decisões, e o ato de avaliar, a partir de opiniões assumidas como corretas é o que contribui para esse momento. O que não é diferente em sala de aula, alunos e professores se avaliam a todo o momento, emitindo opiniões e pré-julgamentos.

No contexto escolar do Ensino Fundamental a avaliação, normalmente, é compreendida pelo aluno como mero instrumento de obtenção de notas, não se importando com sua aprendizagem.

O aluno é cada vez mais conformado a ver a aprendizagem como algo que só tem valor a partir da nota, a troca pela nota assume o lugar da importância do próprio conhecimento, construção pessoal e poder de interferência no mundo. (FREITAS, 2003, p. 28).

O processo avaliativo no âmbito educacional atua em dois níveis: um formal e outro informal. Na avaliação formal observamos a mera verificação da aprendizagem, ou seja, a prova por meio de notas é o único instrumento utilizado como medição para avaliar as (in)capacidades do aluno e assim classificatória, objetiva e instrucional.

[…] a nota é uma das facetas da avaliação realizada na escola, representa especialmente a avaliação formal, mas na constituição da nota final a avaliação informal se faz presente. A avaliação informal ajuda a compor as notas dos alunos, e sua presença se manifesta em especial relacionada ao comportamento ou ao tipo de comportamento que o aluno deveria apresentar durante as aulas. (BERTAGNA, 1997, p. 178).

Já na avaliação informal o professor avaliador utiliza de juízos de valores construídos durante o processo de ensino-aprendizagem das relações diárias entre professor e aluno. E assim, caracteriza se subjetiva, comportamental e comparativa.

Podemos observar que a avaliação, na maior parte, é feita para verificar o que o aluno conseguiu aprender em determinados períodos.

Concebemos que a avaliação deve servir para garantir a aprendizagem dos alunos, como um meio de diagnosticar em que medida os objetivos propostos para o processo de ensino-aprendizagem estão sendo atingidos, como destaca Haydt (1997):

Avaliar consiste em fazer um julgamento sobre resultados, comparando o que foi obtido com o que se pretendia alcançar. Dessa forma, a avaliação pode ser útil para orientar tanto o aluno como o professor: fornece informações ao aluno para melhorar sua atuação e dos elementos ao professor para aperfeiçoar seus procedimentos didáticos. (HAYDT, 1997. p.288).

Assim, a avaliação deve ter o intuito de interferir no processo de aprendizagem, fazendo com que o aluno seja sujeito participante no processo educativo, no sentido de favorecer-lhe a tomada de consciência sobre suas conquistas e dificuldades. E, dessa forma, apontar alternativas possíveis de evolução na disciplina.

O esforço e o comprometimento do aluno não são por si só suficientes. Precisa o educador corresponder ao esforço e comprometimento fazendo lhe desafios intelectuais significativos, para que esse alcance o saber científico e se torne um permanente pesquisador em sua ciência […] a ação avaliativa enquanto mediação não se caracteriza como um momento do processo educativo, mas é integrante e implícita a todo processo. (HOFFMANN, 1998, p.82).

Celina Elisa de Paiva – Pedagoga. Formada pela Universidade Federal de Uberlândia

Hoffmann (1998) relata ainda que a prática avaliativa nas escolas vem sendo severamente criticada por negar ou desrespeitar as diferenças individuais do educando, pois muitas vezes na escola, o diferente é negativo.

Dependendo da forma como a escola entende a educação, a avaliação pode servir para hierarquizar, controlar e padronizar valores sociais. Sarmento (1997, p. 12) defende que “a avaliação educacional tem sido identificada como um instrumento importante de controle e seletividade, justificando a falsa democracia da escola na visão liberal.”

Com base no estudo de Sarmento (1997) existe uma grande preocupação referente á avaliação educacional, pois a mesma vem em sua maioria, com caráter punitivo, e não como meio de aprendizagem, o que constrange o educando em seu processo de formação, levando o retardamento de seu desenvolvimento em sua construção do conhecimento, atrapalhando no que já aprendeu e no que vai ainda aprender.

Outro aspecto importante é que o professor tem um papel primordial no modelo de educação atual, ele é visto como mediador, um facilitador do conhecimento, proporcionando ao aluno aprender a aprender, a compreender a sociedade em que está inserido, incentivando que ele participe ativamente, com atitudes positivas, agindo com criticidade, tornando-se um cidadão consciente de seus deveres e direitos, exercendo sua cidadania.

É função do professor reconhecer as diferenças existentes entre os alunos, em relação à capacidade de aprendizado, e esse reconhecimento permite ao professor ajudá-los a superar as dificuldades de aprendizagem, pois é sabido que, para alguns, o aprendizado acontece mais rapidamente do que para outros e, ainda, que alguns têm maior capacidade de aplicar o que lhes é ensinado. (HAYDT, 1997. p.147).

A reflexão sobre a avaliação só tem sentido se estiver atravessada pela reflexão sobre a produção do fracasso/sucesso escolar no processo de inclusão/exclusão social. O processo de avaliação do resultado escolar dos alunos e alunas está profundamente marcado pela necessidade de criação de uma nova cultura sobre avaliação, que ultrapasse os limites da técnica e incorpore em sua dinâmica a dimensão ética.

Freitas (2007) considera que:

O passo inicial, portanto, é mudar nossa concepção de avaliação passando de uma visão de “responsabilização” para uma visão de participação e envolvimento local na vida da escola. Os mecanismos para este processo ocorrer devem ser baseados no projeto político-pedagógico da escola e no processo de avaliação institucional. (FREITAS, 2007. p. 976).

Existe uma intensa crítica aos métodos e instrumentos de avaliação que às vezes são utilizados na sala de aula, que muitas vezes se fazem acompanhar da sinalização de novas diretrizes ou de novas propostas de ação. As alternativas para redefinição do cotidiano escolar, e a avaliação é uma questão significativa nesse processo.

Conforme Bloom (1995) a avaliação do processo ensino-aprendizagem possui três tipos de funções: diagnóstica (analítica), formativa (controladora) e somativa (classificatória).

Avaliação diagnóstica é o conhecimento prévio que o docente deve realizar ao iniciar o ano letivo com o intuito de constatar os pré-requisitos necessários de conhecimento ou habilidades imprescindíveis de que os alunos possuem para o preparo de novas aprendizagens.

Para que a avaliação diagnóstica seja possível, é preciso compreendê-la e realizá-la comprometida com uma concepção pedagógica. No caso, considerarmos que ela deva estar comprometida com uma proposta pedagógica histórico-crítica, uma vez que esta concepção está preocupada com a perspectiva de que o educando deverá apropriar-se criticamente de conhecimentos e habilidades necessárias à sua realização como sujeito crítico dentro desta sociedade que se caracteriza pelo modo capitalista de produção. A avaliação diagnostica não se propõe e nem existe uma forma solta isolada. É condição de sua existência e articulação com uma concepção pedagógica progressista. (LUCKESI, 2005, p.82).

A avaliação formativa é realizada ao longo do ano letivo, com a finalidade de verificar se os educandos estão atingindo os objetivos previstos. Portanto, esta forma de avaliação pretende verificar se o educando esta dominando gradativamente e hierarquicamente cada etapa da aprendizagem, para conseguir prosseguir para outra etapa do processo de ensino-aprendizagem. Este tipo de avaliação possibilita ao docente identificar problemas e limites no método de ensino, norteando para uma possível reformulação do seu trabalho didático. Na perspectiva de Bloom (1995) a avaliação formativa tem o sentido de indicar “como os alunos estão se modificando em direção aos objetivos desejados” (p. 72).

E, por fim, a avaliação somativa visa à classificação dos educandos e é realizada ao final do ano letivo, ou seja, classificando os discentes de acordo com os níveis de aproveitamento previamente estabelecidos.

Compreendemos que avaliar é muito importante e o professor deve buscar a melhor forma para fazê-la, o que não é nada fácil.

O importante é que a avaliação sirva como fonte de informações na procura de uma aprendizagem competente e não como forma de coerção, os alunos devem ser conscientizados da importância de ser avaliado, desenvolvendo atitudes positivas diante das avaliações, percebendo que elas existem para verificarem o aprendizado e identificarem falhas, para que estas sejam solucionadas e o grande objetivo seja alcançado, que é construir conhecimentos e aprimorar suas competências.

Uma avaliação eficaz é aquela que ocorre de forma que acompanhe todo processo de aprendizagem e não apenas um momento determinado. Esta, historicamente é associada ao autoritarismo, como fracasso, erro, reprovação. Freire (1997) propõe uma avaliação progressista que conceba o aluno como um ser completo, sendo avaliar um processo contínuo e realizado com diversas técnicas com o objetivo de um diagnóstico para que possa assim redirecionar a ação educativa.

Reconhecemos que a avaliação escolar na forma como é realizada exclui e silencia as pessoas, suas culturas e seus processos de construção de conhecimentos; desvalorizando saberes, assim fortalecendo a hierarquia que está posta, contribuindo para que diversos saberes sejam apagados, percam sua existência e se confirmem como a ausência de conhecimento. A avaliação funciona como instrumento de controle e de limitação das atuações (alunos/professores) no contexto escolar. Torna-se necessário a existência de um espaço onde os conhecimentos estejam em construção e não os conhecimentos já consolidados, conduzindo assim a prática pedagógica.

De acordo com Freitas (2007) nosso sistema educacional é frágil, excludente e capitalista pois se tentou superar o problema de reprovação através de “trilhas de progressão diferenciada”, nas quais as instituições escolares excluem os alunos com dificuldades de aprendizagem e que na maioria das vezes são de classes populares. Para Freitas (2007) essa ação consiste em uma eliminação adiada, isto é, o aluno que não atingiu a meta mínima para ir adiante é feito uma progressão automática, porém só adia a sua eliminação no meio escolar. Assim, percebemos que não se busca meios para melhoria destes déficits escolares, e sim uma solução instantânea, visando apenas uma estatística plausível para a escola, onde se busca somente resultados.

A nosso ver, o que são oferecidas as classes populares são apenas o acesso à educação, deixando a desejar a permanência, visando somente cumprir metas, estatísticas. Pois só o aumento do fluxo desses alunos é mais um fator que contribui para o grande problema da exclusão de conhecimentos que é vivenciada na sala de aula, pois não se pensou em uma ampliação do número de escolas, o que acarretou escolas com muitos alunos por sala, o que dificulta o trabalho do professor de garantir a aprendizagem dos alunos.

Vale advertir que a avaliação deve ser uma prática de investigação, que tenha por finalidade principal o auxílio ao aluno, concebendo-o como responsável e participante do processo educativo, no sentido de favorecer lhe a tomada de consciência, sobre suas conquistas e dificuldades.

Muitas instituições realizam a prática avaliativa de caráter verificativo e classificatório, o que faz com que os alunos tenham uma rejeição em relação às avaliações, que possuem um aspecto punitivo e ameaçador no cotidiano escolar, como afirma Haydt (1997):

Um professor autoritário e inseguro poderá ver na avaliação uma arma de tortura ou punição para os alunos apáticos ou indisciplinados. Por sua vez um professor que seja um profissional sério e responsável, seguro de sua prática docente – que orienta as atividades dos educandos, colaborando com eles na construção do conhecimento, tenderá a encarar a avaliação como uma forma de diagnóstico do avanço e dificuldades dos alunos e como indicador para o replanejamento de seu trabalho docente. (p.287).

Em face do exposto, é necessário considerar que o erro é um dos motivos para o fracasso no processo avaliativo na escola, pois é entendido como falta de capacidade por parte do educando, lembrando que o mesmo pode causar constrangimento e se tornar um empecilho no processo de aprendizagem, inibindo os alunos a tirarem suas dúvidas e expressarem suas opiniões.

Cabe ainda mencionar que o sistema tradicional de avaliação se torna em um dos entraves das mudanças de currículo e das práticas pedagógicas, pois os professores ficam “amarrados” a este sistema sem visar outra opção e os alunos estudando somente pela nota e não pelo aprendizado. Perrenoud (1999) abre uma discussão sobre este aspecto relatando que soltando as amarras da avaliação tradicional, facilita-se a transformação das práticas de ensino em pedagogia mais abertas e atuais. Não há como mudar apenas a avaliação, visto que ela está vinculada ao processo educativo:

Deve-se mudar a avaliação para mudar a pedagogia não apenas no sentido de diferenciação, mas dos encaminhamentos de projetos, trabalhos por meio de situações problemas, dos métodos ativo, da formação de conhecimentos transferíveis e de competências utilizáveis fora da escola. (PERRENOUD, 1999, p.21).

Perrenoud (1999) sinaliza então para a necessidade de propor mudanças na prática avaliativa, e assim contribuir para superação de vários problemas do cotidiano escolar, tais como: profissionais da educação preocupados porque precisam atribuir uma nota ao desempenho de seu aluno, como se o aspecto mais relevante da prática avaliativa fosse à expressão dos resultados e não seu significado e, principalmente, sua função.

Considerando-se que os indivíduos constroem seus conhecimentos na dinâmica das relações dialogais, que são permeadas por contradições, argumentações, trocas e buscas solidárias, a avaliação do processo de ensino e aprendizagem é essencial, tanto para o aluno como para o professor. (MELCHIOR, 2002, p. 15).

Reconhecemos que é primordial para o educando o conhecimento dos resultados de seu desempenho e esforço, não apenas pela satisfação da aprendizagem e sim, principalmente, pelo significado que tem o conhecimento de suas competências para futuras aprendizagens.

Algumas Considerações

Em linhas gerais, podemos afirmar, por meio dos estudos tecidos nesse trabalho que a avaliação pode contribuir para o desenvolvimento intelectual, social e moral dos alunos. Enfim, segundo Saul (1988) “o compromisso principal da avaliação é o de fazer com que as pessoas direta ou indiretamente envolvidas em uma ação educacional escrevam a sua própria história e gerem as suas próprias alternativas de ação” (p. 61).

Deste modo, compreendemos que a finalidade da prática avaliativa para os alunos é ser um instrumento de diagnóstico de sua situação, tendo em vista a definição de encaminhamentos adequados para sua aprendizagem.

Referências

BERTAGNA, R. H. Avaliação da aprendizagem escolar: a visão de alunos de 4ª e 5ª séries do 1.º grau. Dissertação de mestrado. Campinas, SP: Unicamp, 1997.

BLOOM, M. R. Diretrizes Éticas para Negócios Educação-Parcerias. Publicado relatório. Ottawa: Conference Board do Canadá, 1995.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

FREITAS, L.C.D.E. Ciclos, seriação e avaliação. Confronto de lógica. Educação Moderna 2003.

_________________. Eliminação Adiada: O ocaso das classes populares no interior da escola e a ocultação da (má) qualidade do ensino. Educ. Soc; Campinas, vol. 28, n. 100 – Especial p. 965-987, out. 2007.

HAYDT, R.C.C. A avaliação do processo ensino-aprendizagem. São Paulo: ed. Ática, 1997.

HOFFMANN, J. M. L. Contos e Contrapontos: do pensar ao agir em avaliação. Porto Alegre: Mediação, 1998.

 

KENSKI, V. M. Repensando a didática. São Paulo: Ed. Moderna, 1997.

LUCKESI, C. C. Avaliação da Aprendizagem Escolar. 17ª ed. São Paulo: Cortez, 2005.

MELCHIOR, M. C. Avaliação pedagógica: função e necessidade. 2.ed Porto Alegre: Mercado Aberto, 2002.

PERRENOUD, P. Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens – entre duas lógicas / Philippe Perrenoud; trad. Patrícia Chittoni Ramos – Porto Alegre: Artes Medicas, 1999.

SARMENTO, D. C. O discurso e a prática da avaliação na escola. Campinas: EDUFJF, 1997.

SAUL, A. M. Avaliação emancipatória. São Paulo: Cortez, 1988.

¹ Pedagoga. Formada pela Universidade Federal de Uberlândia

² Professora do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Uberlândia- Campus Pontal. Doutoranda em Educação.

Contatos: celinaelis_a@hotmail.com ; fernandaduarte@pontal.ufu.br

 

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