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Aparecida Luzia de Mello*

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.  E-mail: cidamell@uol.com.br

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.
E-mail: cidamell@uol.com.br

Na idade média os pobres e camponeses usavam tamancos. Naquele tempo um dos fatores era a garantia de proteção à saúde. O tempo passou, e, de quando em quando, surgem modelos para todos os gostos.

Certo dia, no encontro de memórias, uma idosa contou que quando criança havia uns tamancos cujas tiras eram de couro colorido, tinha vermelho, cinza, verde e azul, alguns até com bordados e ou desenhos.

Naqueles tempos ela morava num sítio distante na cidade de São José do Rio Pardo, ao lado de outros sitiantes. Quando tinha sete anos, ganhou um par destes tamancos bordados do pai, que era comerciante e o comprara numa de suas viagens a Capital de São Paulo.

Ficou muito feliz, pois por ali não era hábito usar calçado, estavam sempre descalços, ela, os irmãos, amigos e vizinhos. Calçado, para eles, era artigo de luxo, só usado em datas especiais.

Como o tamanco era muito bonito guardou-o para usar no dia da missa do galo. Todos os dias, antes de dormir, ela pegava a caixa que era de madeira e tinha esculpido na tampa um desenho em forma de coração, tirava-o de lá, calçava, dava uma volta pelo corredor da casa e guardava.

No dia esperado tomou banho, a mãe trançou seus cabelos, colocou um vestido novo de chitinha estampada com flores amarelas e calçou o tamanco bordado. Foi junto com a família e vizinhos para missa. Enquanto ia andando, pulando e correndo na frente de todos com o tamanco, fazia barulho e todas as amigas olhavam encantadas.

Mas a missa foi longa, ela ficou cansada, quase dormiu no banco. Saiu de lá carregada pelo pai. Só quando chegou em sua casa é que percebeu?!! Na hora de ir embora tinha esquecido um pé do tamanco na igreja.

Voltou para casa como a cinderela, um pé com tamanco e um pé sem tamanco.

Começou a chorar! O pai para consolá-la voltou à igreja, como era tarde da noite, foi de carroça, numa mão segurava as rédeas e na outra carregava a filha no colo, mas naquelas alturas a igreja já estava fechada. No outro dia, levantaram bem cedo, voltaram ao local, mas o tamanco não estava lá!

O pai condoído prometeu que quando viajasse de novo traria outro par. Enquanto isto, para consolá-la ele lhe disse que ela guardasse bem o outro pé, pois se um príncipe tivesse achado o tamanquinho, ele, certamente, o guardaria esperando-a crescer…

Todavia nas viagens futuras o pai ele nunca mais encontrou o calçado tão querido da filha.

E quanto ao príncipe encantado…. Bem, até ontem, quando completou 88 anos, continuava solteira e virgem, mas como ela disse:

-: a esperança é a última que morre! Portanto continuo guardando meu pé de tamanco com todo carinho… vai quê…

Olhou para todas e caiu na gargalhada!!!

* Mestre em Políticas Sociais

Email: cidamell@uol.com.br

 

 

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