olhodesogra

Aparecida Luzia de Mello*

A Família era numerosa, pai, mãe e sete filhos.

A situação econômica não era das melhores, tinham o que comer, onde morar, mas havia necessidades diárias não atendidas.

Ele contava com mais ou menos sete anos e queria muito ajudar os pais de alguma forma.

Descobriu que havia uma senhora que fazia língua de sogra para vender, eram deliciosas, com aquele creminho de baunilha dentro, hummmm… ninguém resistia.

Com espírito empreendedor, foi procurá-la, mas antes providenciou um tabuleiro de madeira com uma tira para apoiar no pescoço. Assim mostraria seu verdadeiro interesse em vender línguas de sogra.

Quando a senhora viu o empenho do garotinho ficou sensibilizada e topou a parceria. Meio a meio, ou seja, cada língua de sogra vendida, 50% do valor seria dele.

Acordo fechado. No sábado, logo pela manhã, ele, de tabuleiro enganchado no pescoço foi para a casa da cozinheira e se abasteceu de línguas de sogra. Todos doces arrumadinhos, um do lado do outro.

Doces dourados, com aquele recheio maravilhoso cheirando a baunilha com açúcar polvilhado por cima eram mesmo de dar água na boca.

Quando o empreendedor mirim saiu já tinha destino certo. O campo de futebol de várzea que nos finais de semana lotava.

O sorriso em seu rostinho denunciava antecipadamente a certeza do sucesso.

E lá foi ele. Vendeu meia dúzia de doces logo de cara. Aí resolveu dar uma paradinha atrás do gol, ah… era um prazer vem a gorduchinha rolar. Era só uma paradinha, pois os torcedores e possíveis consumidores estavam nas laterais do campo, longe da onde ele estava.

Ali parou, ali ficou… distraído, acompanhando cada jogada. Nem percebeu o tempo passar. De repente uma jogada perigosa… um escanteio seria cobrado! Ele vibrava.

Ah…, mas este escanteio custou caro para o garotinho empreendedor. Na disputa da bola e na ânsia de tirá-la da área do gol, o jogador da defesa deu um chute para o alto. A bola subiu como uma bomba e na mesma velocidade desceu… sobre o tabuleiro recheado de línguas de sogra.

Voou língua de sogra para todo lado e lágrimas também.

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.  E-mail: cidamell@uol.com.br

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.
E-mail: cidamell@uol.com.br

Com medo, mas sem alternativa, voltou para casa chorando. Contou para a mãe a encrenca em que havia se emitido, a surpresa que ele pretendia fazer tornou-se um problemão. O prejuízo fora quase total. A barra pesou em casa, pois além do orçamento apertado, naquele mês os pais tiveram um compromisso a mais, pagar os 50% da cozinheira.

Mas a mãe sempre acolhedora, entendeu o objeto do filho querido e sensibilizada com a dor moral dele pelo prejuízo financeiro causado, lavou mais roupa para fora naquele mês sem reclamar da dor nas costas e nas juntas das mãos já comprometidas pela artrose, garantindo o dinheiro extra necessário para indenizar a cozinheira.

Apoiado pela mãe ele não desistiu… depois disto foi engraxate, fez carretos na feira entre outros “bicos”, claro, língua de sogra, até hoje, ele não pode nem ver.

Quanto ao campo de futebol nunca mais frequentou, ficou traumatizado, para ele campo de futebol representava prejuízo.

Aposentado recentemente, ganhou dos filhos ingresso para assistir uma partida amistosa do seu time e mudou de ideia, pois conheceu o Arena Corinthians e voltou falando que se a cozinheira que fazia as línguas de sogra ainda estivesse viva, ele, agora, ficaria rico!

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

 

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