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Um segundo antes Despertar de um Sonho causado pelo vôo de uma Abelha Cerca de Romãs, 1944 – salvador dali

DORMIR E SONHAR

Margarete Hülsendeger

O mundo do sonho é silencioso como o mundo submarino. Por isso é que faz bem sonhar.

Mario Quintana

Há algum tempo sabe-se que a falta de sono causa uma série de efeitos prejudiciais ao corpo humano, como problemas no sistema imunológico e descontrole do peso. Os efeitos são tão severos que os “torturadores profissionais” têm usado de forma eficaz esse método para extrair informações e no processo transformar a mente de suas pobres vítimas em mingau. Existem histórias tenebrosas sobre prisioneiros que após ficarem 15 dias sem dormir arrancaram pedaços do próprio corpo ou cometeram suicídio.

Recentemente, um estudo científico – sem qualquer tipo de relação com tortura! – sobre a privação do sono foi realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, com 26 estudantes saudáveis, em idades variando entre 24 e 31 anos. Nesse experimento, uma parte dos alunos ficou algumas noites acordados (estudando), enquanto outros dormiram a noite toda. Quatorze deles permaneceram trinta e cinco horas seguidas sem dormir antes de serem submetidos a um exame de ressonância magnética. Os resultados do estudo não deixaram muita margem a dúvidas: ao contrário do que se imaginava são os problemas relacionados com o sono (insônia, apnéia) a causa de algumas desordens e sintomatologias psiquiátricas. Portanto, essa pesquisa apenas confirmou o que há tempos já se sabe: é preciso dormir bem. E “dormir bem” significa horas de sono compatíveis com a idade da pessoa permitindo ao organismo recuperar-se do estresse do dia-a-dia.

Dentro dos vários estudos que estão sendo realizados sobre o sono, surgiu outro campo de pesquisa relacionado com apenas uma parte – aproximadamente duas horas – desse período no qual a pessoa parece estar desligada do mundo, os sonhos. Um dos primeiros a defender a importância do seu estudo foi o médico neurologista e pai da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939). Segundo ele, os sonhos não seriam apenas simples devaneios, mas uma forma complexa da mente lidar com anseios e conflitos reprimidos.

Contudo, apesar das teorias freudianas sobre a influência dos sonhos no comportamento humano, não há ainda pesquisas que esclareçam de forma definitiva o que ocorre durante eles. Sabe-se que o primeiro estudo sobre o assunto foi realizado em 1950 quando se monitorou o sono de um menino. Nessa época percebeu-se que, apesar da criança estar dormindo profundamente, o cérebro reagia como se estivesse desperto, mas naquela ocasião, atribuiu-se a um erro da máquina as leituras estranhas que estavam sendo obtidas.

Atualmente, muitos cientistas já acreditam que assim como dormir é essencial para o bem estar físico e mental de uma pessoa, sonhar também o é, pois apesar do corpo permanecer “desligado”, a mente se mantém ativa. Durante cerca de duas horas os neurônios recebem estímulos que são enviados ao diafragma e aos olhos, esses últimos sendo os responsáveis por estabelecer a ligação entre o mundo real e o sonho. E é aqui que as dúvidas surgem.

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestranda em Teoria Literária na PUC-RS

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestranda em Teoria Literária na PUC-RS

Até agora os pesquisadores têm atribuído aos sonhos apenas a função de fazer a “limpeza” no nosso cérebro liberando espaços na memória relacionados com os excessos que fazemos durante os períodos de vigília. No entanto, uma nova questão começa a surgir: se o cérebro fica menos “atulhado” será que não poderíamos utilizar esse novo espaço de uma maneira mais criativa e produtiva? Em outras palavras: será que não se poderia aproveitar esse período de suposto descanso para ativar áreas do nosso cérebro que nos permitissem atingir níveis mais elevados de compreensão?

Infelizmente, com já foi dito antes, ainda não existem respostas conclusivas para essas perguntas, apenas teorias. Aliás, quase tudo que se refere ao cérebro é ainda um território pouco explorado. Nosso conhecimento sobre Marte[1] e Vênus é provavelmente mais amplo quando comparado ao que sabemos sobre o nosso próprio cérebro. Por esse motivo, os pesquisadores responsáveis por mapear as atividades “extracurriculares” da mente humana acreditam que o estudo dos sonhos pode nos dar respostas, não só interessantes, mas bastante surpreendentes no que se refere a essa “região desconhecida” do nosso corpo.

Reza a lenda que Paul McCartney sonhou com a melodia de Yesterday e o químico alemão August Kekulé (1829-1896) com a estrutura cíclica do anel de benzeno. Já o filósofo da ciência Gaston Bachelard (1984-1962) acreditava que pelos sonhos as diversas moradas de nossa vida se interpenetravam e guardavam os “tesouros dos dias antigos”. Assim, artistas, homens (e mulheres) de ciência e filósofos são unânimes em considerar os sonhos, não só um reservatório de desejos reprimidos, mas uma fonte de inspiração que pode nos levar por caminhos nunca “dantes navegados”. Afinal, como dizia Fernando Pessoa, quando o homem sonha, a obra nasce. Que “obra” é essa? Acredito que cabe a nós descobrir.



[1] Agora até já sabemos que existe água em Marte.

Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150928_marte_descobertas_cc. Acesso em: 01 out 2015.

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