O Fenômeno Religioso das Tropeadas e os Espaços Sagrados no Município de Imbituva-Pr

Leandro Lemos de Jesus*

Alides Baptista Chimin Junior*

Resumo

As tropeadas é uma prática recente no município de Imbituva e vem acompanhando as festas religiosas que acontecem nas capelas da Igreja católica. A prática alia o gosto por andar a cavalo com a religiosidade dos cavaleiros. A presente pesquisa buscou compreender as possíveis relações entre o fenômeno religioso das tropeadas e os espaços sagrados do município de Imbituva-PR.

Palavras-chave: cultura, religião, espaço, sagrado.

Abstract

Tropeadas is a recent practice in the municipality of Imbituva and has accompanied religious festivals that take place in the chapels of the Catholic Church. The practice combines the taste for horse riding with the religiosity of the knights. This research sought to understand the possible relations between the religious phenomenon of tropeadas and sacred spaces of the city of Imbituva-PR.

Keywords: culture, religion, space, sacred.

Introdução

A prática das tropeadas é um fenômeno recente em Imbituva. Ela vem acontecendo há cerca de nove anos no município e vem ganhando cada vez mais adeptos, atualmente o fenômeno envolve aproximadamente 200 cavaleiros.

A dinâmica das tropeadas é semelhante em todas as capelas. Por volta das sete da manhã um grupo de cavaleiros reúne-se em frente ao Centro de Tradição Gaúcha  (CTG) ou então próximo ao trevo da BR 373 localizado na comunidade de Mato Branco, sendo estes os pontos de início das tropeadas. Aos poucos vão chegando novos integrantes e logo forma-se um grupo, que por volta das oito horas da manhã, realiza uma “reza” e parte destes pontos iniciais em direção às comunidades do interior onde acontecerá a festa religiosa. A tropeada vai ganhando corpo à medida que percorre o trajeto previsto, chegando ao seu destino, geralmente, com cerca de cem a duzentos cavaleiros.

Chegando a capela é então dado início a benção dos cavaleiros, a comunidade em conjunto com o pároco e os tropeiros rezam e em seguida o padre asperge água benta sobre os participantes concretizando assim o momento da benção.

O caráter religioso da tropeada se manifesta na prática de carregar os santos, nos momentos de oração e da benção. Há também uma relação com as igrejas católicas, pois são somente nas capelas desta religião que a prática acontece. Buscando investigar a prática a partir da Geografia, a presente pesquisa se fundamentou em autores que tratam da relação entre religião e espaço, abordagem esta empreendida pela chamada Geografia da Religião.

Materiais e métodos

A metodologia empreendida na realização da pesquisa constituiu-se em um primeiro momento da leitura de autores que tinham como foco de estudo as relações entre o espaço e religião, análise essa empreendida pela chamada Geografia da Religião.

Em um segundo momento foi realizada a coleta de dados. Para tal foram efetivadas entrevistas estruturadas e semi-estruturadas com os participantes das tropeadas, e uma entrevista com o padre, buscando assim identificar a posição de um membro da religião católica enquanto instituição frente ao fenômeno. As questões foram aplicadas individualmente a partir da escolha aleatória de participantes durante a realização de duas tropeadas que aconteceram no município. Para um maior entendimento e uma maior clareza sobre qual informação estava sendo solicitada em cada questão objetiva, optou-se por ler a explicar cada uma delas aos entrevistados. Após a confirmação da compreensão da questão eram elencadas as alternativas que ele poderia vir escolher. A amostra constituiu-se de 15 participantes, representando aproximadamente 10% do universo de pesquisa.

 

Resultados e Discussão

A partir das entrevistas estruturadas constatou-se que das 36 igrejas católicas do município, sendo 1 a matriz e a as demais 35 capelas, há 18 igrejas participantes e 17 não participantes. A maioria dos participantes é católica, sendo que dos 15 entrevistados apenas um pertencia a religião luterana. A fim de identificar a relação dos participantes com as capelas, fora perguntado sobre a participação ou não participação caso a tropeada passasse a ter como ponto de chegada um centro de eventos ou então outro local qualquer que não fosse uma capela. A partir das respostas obtidas elaborou-se o seguinte gráfico.

grafico1

Gráfico 1. Participação ou não participação a partir da substituição das igrejas por outro ponto de chegada.

Fonte: JESUS, Leandro Lemos 2014.

Este dado acabou revelando que para um número expressivo de participantes a capela em si não representa uma grande importância para a realização da prática. No entanto, para muitos dos participantes ela tem um significado especial, para estes, participar de uma tropeada que segue rumo a uma capela e de uma que segue em direção a um outro lugar qualquer faz toda a diferença. Silva e Gil Filho (2009, p. 91) explicitam que para o homem religioso “o espaço passa de uma base material da sua existência para um espaço carregado de sentido, no caso da religião, um espaço sagrado”, desta forma é possível entender a importância do ponto de chegada (capela) para um grande número de participantes das tropeadas, pois as capelas são, do ponto de vista do sujeito religioso um espaço qualitativamente diferente dos demais, de forma que participar de uma tropeada que se dirige a uma igreja e de uma que se dirige a um centro de eventos, faz toda diferença no âmbito da sua significação simbólica.

Há uma divergência entre os tropeiros na relação com a capela. Todavia, com relação ao momento mais importante da prática, a grande opinião da maioria conflui, como pode ser observado no gráfico a seguir.

 grafico2

Gráfico 2. Momento mais importante da tropeada.

Fonte: JESUS, Leandro Lemos 2014

A partir desse dado foi possível perceber que a relação mais profunda das tropeadas com o sagrado se efetiva no momento da benção, e que este momento se sobrepõe a relação com o espaço sagrado enquanto materialidade expressa na forma das capelas.

A partir da análise dos dados do gráfico 1 e do gráfico 2 pode-se concluir que os tropeiros marcham em direção ao sagrado que está contido enquanto materialidade, expresso nas igrejas e reconhecidas como espaços qualitativamente diferentes. No entanto, a busca maior está em alcançar a experiência com o transcendente, possibilitada pela benção.

A benção é algo que se recebe, algo que se “porta” e que precisa ser “atualizado”, a fim de que se mantenha o sentimento de estar abençoado. A benção concedida pelo padre tem em certo sentido o poder de “revestir” o fiel com uma “qualidade sagrada”, isso serve como proteção diante de dificuldades e também contra as forças malignas. Desta forma entende-se porque esse momento é considerado como o mais importante da prática. A cada tropeada que acontece nas diferentes capelas ocorre uma atualização desse “qualitativo sagrado” promovido pela benção.

É a partir do ritual das bênçãos e do sentimento de ser abençoado que uma das dimensões do espaço sagrado emerge. Essa dimensão está presente na identidade de cada fiel, o qual tem a sensação de ter efetivado uma ligação com o transcendente a partir da mediação do padre. Essa experiência é vivenciada em grupo e repetida em cada tropeada, ela é uma dimensão do espaço sagrado que se efetiva enquanto uma espacialidade do sentimento religioso, este se evidência enquanto espacialidade “na atitude de fé (experiência pessoal) e também nas manifestações “espirituais” dos fiéis” (PEREIRA JUNIOR; GIL FILHO, 2012 , p.74).

De acordo com o padre Maikól Lourenço Mika a igreja católica do município apoia o movimento dos tropeiros, de forma que em outubro de 2014 a instituição tem em sua programação a realização de um evento religioso onde serão convocados todos os “tropeiros” da região para a realização de uma cavalgada religiosa.

Conclusões

O principal objetivo da pesquisa foi identificar a relação dos cavaleiros com os espaços sagrados no município de Imbituva. Em um primeiro momento a preocupação estava voltada para a relação com as capelas, concebendo-as como uma manifestação material do sagrado, que por serem percebidas como lugares qualitativamente diferentes eram capazes de atrair o homem religioso, e por conseguinte ser um polo de atração para a realização das tropeadas. No entanto, as respostas obtidas pelas entrevistas estruturadas demonstraram que era necessário se repensar a questão, visto que se identificou que havia uma valorização maior do momento da benção do que a capela em si. Foi a partir daí que se chegou a noção de “espacialidade do sentimento religioso” (PEREIRA JUNIOR; GIL FILHO, 2012, p.74). Percebeu-se então que os “tropeiros” marcham em direção as capelas enquanto expressão material do sagrado, mas principalmente em direção a uma ligação com o transcendente que é promovida pela benção. A experiência é vivida em conjunto e o objetivo a alcançar é o sentimento de estar abençoado. A relação das tropeadas com o sagrado têm expressão maior no momento da benção, do que na percepção das capelas como um espaço capaz de promover a ligação com a significação de uma transcendentalidade.

Referências

PEREIRA JÚNIOR, C; GIL FILHO, S. F Geografia da Religião, espaço sagrado e pentecostalismo: análise de uma espacialidade pentecostal. Relegens thréskeia estudos e pesquisa em religião. v.1, n.2, 2012, p. 63-78. Disponível em:< http://ojs.c3sl .ufpr. br/ojs2/ index.php /relegens/ article/view/31085/19961>  Acesso em: 2 mai. 2014.

SILVA, A. S.; GIL FILHO, S. F. Geografia da religião a partir das formas simbólicas de Ernst Cassirer: Um estudo da Igreja Nacional do Reino de Deus no Brasil. Revista de Estudos da Religião, p. 73-91, jun. 2009. Disponível em <www.pucsp.br/rever/rv2_2009/t_silva.pdf> Acesso em: 19 jul. 2013.

* Graduado em Geografia pela UNICENTRO – Universidade Estadual do Centro Oeste e Mestrando em Geografia pela UEPG -  Universidade Estadual de Ponta Grossa

* Professor do Departamento de Geografia – DEGEO da Universidade Estadual do Centro Oeste e Doutorando pela UEPG Universidade Estadual de Ponta Grossa.

JESUS, Leandro Lemos; CHIMIN, Alides Baptista. O Fenômeno Religioso das Tropeadas e os Espaços Sagrados no Município de Imbituva-Pr. P@rtes (São Paulo). Novembro, 2015.

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