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Aparecida Luzia de Mello*

A família era negra. Era não, é, e continuará sendo!

Na época era chamada família de cor. Porquê de cor? Ninguém sabe, mas era assim que muitos definiam uma família negra.

O caçula tinha um gingado especial, gostava de dançar, sorriso farto, papo fácil e maneiro, diziam, alguns, era do tipo malandrinho…. Hoje é professor de educação física e tem academia de dança. Será isto malandro!?!

Num sábado à tarde, a mãe mandou o moleque até o mercadinho na rua de baixo para buscar um refrigerante. Com 12 anos e aquele ar de “garoto do Rio” ele entrou, pegou o refrigerante e foi para o caixa. Lá entregou o dinheiro para pagar, recebeu o troco do dono mal-humorado e viu que estava errado.

Ao informar que o troco estava errado, com aquele ar debochado, quase foi agredido pelo senhor, que aos gritos expulsou-o do comércio. O menino continuou ali parado olhando para o homem que não satisfeito, ameaçou acerta-lo com um pedaço de madeira dizendo:

- Trombadinha, negrinho encardido, ladrãozinho de meia tigela, suma daqui! Se pensa que vai se aproveitar de mim está enganado. O troco está certo e nunca mais volte porque se voltar vai apanhar.

O menino tentou se defender, mas o povo já estava olhando para ele também com desconfiança… assustado, recuou e voltou para casa chorando.

Chegou em casa, colocou o refrigerante e o troco sobre a mesa e foi para o banheiro. A mãe estranhou aquela atitude e logo se deu conta do erro no troco e chamou o filho questionando-o. Gritando disse:

-: o filho da esperteza, você não viu não que o troco está errado? Qual é a sua? Porque não reclamou na hora? Quando é que vai aprender a viver?

Ele de cabeça baixa, respondeu que tinha percebido, mas que fora destratado, chamado de negrinho encardido, trombadinha e expulso de lá sob ameaça de um pau.

O pai que assistia televisão na sala ouviu o comentário e levantou-se rapidamente para se inteirar melhor dos fatos.

Minutos depois estavam lá pai e filho, para tirar satisfação com o ofensor. Mas não deu tempo, pois ao adentrarem o comércio o homem já gritou para alguém de dentro que chamasse a polícia porque agora tinham trombadinha e trombadão querendo lesa-lo.

E com palavras ainda mais ofensivas xingou pai e filho. Com a madeira na mão gritava para que os negros não se aproximassem porque senão ele ia lavar o chão com sangue escravo.

Um minuto depois encostou uma “baratinha”, como eram chamados os fusquinhas usados pela polícia.

Rapidamente o comerciante explicou aos policiais que estava sendo achacado por aqueles negros e bla, bla, bla…

O policial então dirigiu-se ao pai do menino e disse:

-: o que o senhor tem a dizer para justificar esta atitude?

Com calma, o pai pediu apenas que o policial solicitasse para o comerciante repetir palavra por palavra o que havia dito e que ele, por favor, anotasse tudo.

O comerciante enfezado, nem precisou ouvir o pedido do policial e já começou a repetir:

- Este malandrinho, veio aqui, pegou uma garrafa de refrigerante e passou aqui no caixa, me deu 50 reais[1] para cobrar. Eu lhe dei o troco e ele nem conferiu e já disse que estava errado. Mas eu tenho certeza que está certo! Agora ele voltou com o malandrão aqui achando que ia me intimidar! Mas estes negros encardidos não vão levar a melhor, quero que o senhor leve os dois para a cadeia que é o que eles merecem.

O pai então pediu ao filho que mostrasse o troco recebido. O policial teve a oportunidade de conferir o valor e percebeu que estava certo. Olhou para o homem com aquele olhar de – você acha que sou bobo, ou você está querendo tirar uma com a nossa cara?

O comerciante não se contendo, começou a gritar ainda mais alto, sobre a desonestidade do pai que estava sendo herdada pelo filho.

O pai, respirou fundo para se controlar, olhou para o comerciante, para o policial e disse:

-: eu e minha mulher ensinamos nossos filhos a serem honestos em qualquer circunstância. Por isto quando meu filho viu o troco, de imediato, falou que estava errado, mesmo sem conferir, porque ele trouxe 20 reais para pagar o refrigerante e não 50 reais como disse o comerciante.

O homem ficou vermelho, roxo, calou-se e baixou a cabeça. Logo a seguir disse que aquilo era armação que agora eles estavam invertendo a situação, dando uma de bonzinho, mas que ele podia provar que era 50 reais, pois a nota ainda estava lá, mas ao pega-la para mostrar que estava com razão, no espaço destinado à nota de 50 estava uma de 20.

Respirou fundo, constrangido e baixinho pediu desculpas, mas o pai do garoto não aceitou. E disse:

-: senhor policial agora quem quer ir à delegacia sou eu. E quero que este senhor nos acompanhe.  Meu filho não merece o que ele fez, ele tinha que primeiro ouvir e depois falar.

O policial então olhou para o comerciante e disse-lhe:

-: o que o senhor pode oferecer a esta família para que eles o desculpem e não precisemos ir à delegacia?

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.  E-mail: cidamell@uol.com.br

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.
E-mail: cidamell@uol.com.br

O boçal então respondeu:

-: ah, eles podem levar o que quiserem que eu não cobro.

O pai então respondeu:

-: quero que o senhor coloque uma faixa bem grande aqui na frente de seu comércio, por um mês, pedindo desculpas a todos os negros que o senhor ofendeu até hoje, caso contrário vou processa-lo.

No dia seguinte estava à frente do comércio uma faixa que tomava toda a frente da loja com os seguintes dizeres:

“A todos nossos irmãos negros, queremos pedir desculpas, pelas ofensas, grosserias e calúnias. Sejam todos muito bem-vindos. ”

Aquele comerciante teve oportunidade de mostrar que havia aprendido a lição, pois nunca mais teve atitudes grosseiras ou ofensivas com clientes ou funcionários negros.

Ah… se todos aprendessem como ele, este mundo seria melhor para se viver!

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br



[1] A referência de moedas se perdeu, por isto foi usado o real, moeda atual.

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