trouxaeu

Aparecida Luzia de Mello*

Sexta-feira foi um dia atípico. Sai cedo, levei minha mãe ao médico e depois fui às compras. Andei das 10 horas até as 16 horas. Pesquisando, escolhendo, comprando e carregando.

Esperem… não foram compras de natal, ou melhor, foram sim, compras de natal, mas para as sacolinhas do abrigo infantil que assistimos. Claro que os amigos ajudam, mas sempre falta muita coisa e são estas coisas que compramos.

Já carregada a ponto de não aguentar o peso, me dei conta que ainda não havia ido ao banheiro, tomado água e nem comido nada.

Cansada, resolvi parar. Com dificuldade fui ao sanitário e coloquei os pacotes num lado, pedi a gentil senhora que fazia a faxina que olhasse aquela montanha de sacola enquanto eu me aliviava. Certamente ela deve ter pensado que eu era louca, comprar tanta coisa, inclusive coisas repetidas, depois pedir a um estranho que cuidasse enquanto ia ao banheiro. De qualquer forma foi o que fiz e depois coloquei um trocado na caixinha sobre a banqueta que tinha a figura do Papai Noel e ela sorriu satisfeita, creio, ainda me achando louca, mas uma louca que saber agradecer, hehehe.

A praça da alimentação estava razoável, ou seja, pelo menos tinha algumas mesas vagas. Escolhi uma mais ou menos próxima do buffet onde me serviria, duas fileiras adentro do espaço, coloquei lá todas as tralhas e como se diz “com um olho no peixe e outro no gato”, fiz o prato – alguns legumes, um pouco de salada, arroz com brócolis, um pedaço pequeno de salmão grelhado e água.

Sentei, respirei fundo, cansada, olhei mais uma vez a montanha de sacolas, sorri e comecei a comer. Na terceira garfada, aproximou-se um jovem, alto magro, calça jeans e camiseta polo vermelha, mochila nas costas, bem-falante, pediu desculpas por me atrapalhar e começou o rosário:

-: senhora, eu estava vendendo água, mas o “rapa” passou e levou tudo, eu fiquei sem um tostão, estou sem comer até agora…

Naquele momento olhei para o meu prato, para os buffets, para ele e apontando para um dos quiosques eu disse:

-: ok, vá até ali e peça para te servirem que eu pago.

Ele, perguntou:

-: pode ser no quiosque do lado?

Vi que os preços eram similares e sinalizei com a cabeça que sim.

Ele foi até lá, conversou e voltou dizendo o valor que deveria ser pago, dando a entender que esperava o dinheiro.

Eu então lhe disse:

-: diga à jovem que traga a “maquininha de cartão” para eu pagar porque não tenho dinheiro.

Ele voltou lá e vi que a jovem esticou o pescoço tentando ver se era real a informação. Eu sinalizei com a mão, ela me viu, e viu que fiz o gesto tradicional – “positivo”.

Um minuto depois a moça estava à minha frente. Logicamente antes de entregar a refeição ao jovem. O público a minha volta observava.

Ela estendeu a maquininha, eu peguei o cartão e ela informou o valor a ser pago, confirmando o que ele havia dito e complementou:

-: porque a senhora não o mandou trabalhar ao invés de pagar a comida?

Eu olhei para ela e sorrindo disse-lhe:

Ah menina eu estou comendo e alguém me diz que está com fome…

E ela então respondeu em tom de revolta:

-: mas ele faz isto toda semana!!!

Eu olhei surpresa para ela enquanto estava prestes a pôr a senha do cartão autorizando a cobrança…

Ela então me disse:

-: quer suspender, dá tempo de desistir?

Sorri. Sorri e respondi:

-: melhor assim, fico feliz que ele não passe fome de verdade. Eu estou comendo, comprando presentes para crianças de um abrigo infantil, vou negar um prato de comida? Claro que não, não me importo se ele faz isto sempre…

Coloquei a senha. Com uma voz mais acolhedora, ela então me disse que eu era uma pessoa de bom coração. Enquanto isto as mesas ao lado faziam seus julgamentos bem diferentes.

Olhando para mim, ouvi, entre outros comentários indelicados:

-: sempre tem gente que gosta de ser lesada…

-: como pode ser tão ingênua?

-: é por isto que os espertinhos sobrevivem…

-: olha só o prato do sujeito, parece que nunca comeu, abusado…

-: sempre tem uma trouxa…

Mais uma vez sorri, sorri e comi em paz. Se não tivesse pagado o almoço do rapaz não conseguiria comer. Aliás, nem eu, nem meu marido e nem minhas filhas, porque estes são nossos valores.

Pensei no rapaz e na humilhação que é ir de mesa em mesa até encontrar alguém que se disponha a “ser trouxa” e lhe pagar a refeição. Conclui que sou muito orgulhosa porque mesmo que estivesse morrendo de fome não teria coragem de

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.  E-mail: cidamell@uol.com.br

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.
E-mail: cidamell@uol.com.br

fazer isto… pensei na pobreza daquele rapaz, não na pobreza financeira, mas na pobreza moral para se submeter a isto…

Enfim saí de lá carregando minhas sacolas com mais disposição e agradecendo a Deus por ser eu a “trouxa”, e não ser eu, a fazer o outro de “trouxa”. Saí sorrindo, carregando minhas sacolas e pensando – “sou trouxa, mas sou feliz, mais trouxa quem me diz”.

No domingo entregamos as sacolinhas de natal, do sonho, kits de higiene e kits escolares para setenta e cinco crianças… provavelmente aos olhos de alguns – “sendo trouxa novamente”.

Mas àqueles que pensarem assim, lembro: “sou trouxa, mas sou feliz, mais trouxa quem me diz”.

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

 

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