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Aparecida Luzia de Mello*

Houve uma época em que recebíamos muitos cartões de natal.

Isto representava status. Quanto mais cartões mais amigos a pessoa tinha ou mais “interessados”. Sim interessados, porque ainda hoje os políticos usam este recurso. Mandam cartão no dia do nosso aniversário, na pascoa, no natal, nas eleições… será que são nossos amigos ou candidatos interessados em nosso voto?

Algumas empresas também usam este recurso para chamar nossa atenção.

Mas com o passar do tempo e o advento do mundo tecnológico, este hábito caiu de moda e diga-se a verdade, tornou-se mais barato e nem precisamos ir ao correio.

Basta sentar na frente do computador, usar o tablet ou celular e mandar uma mensagem para nosso amigo e ele a receberá instantaneamente, coisa que com o correio é impossível, já que o cartão vai seguir para a central que fará a distribuição e depois um homem “chamado” carteiro fará a entrega se o endereço e CEP estiverem corretos.

Se no passado era corriqueiro receber cartões pelo correio, hoje é raridade. No passado pelo volume recebido, às vezes, juntávamos num canto a correspondência e no momento de folga, abríamos, liamos e selecionávamos os melhores… retribuíamos alguns e ignorávamos outros por vários motivos.

Lembro-me de um cartão que recebi por alguns anos, mas ao ver o remetente jogava no lixo, sem abrir.

Porém, sempre haverá algum ou alguns cartões que deixaram ou deixarão marcas em nossas vidas. Mesmo que o percamos numa mudança de casa ou emprego, mesmo que o joguemos fora na faxina, ele estará registrado em nossa memória.

Até hoje tive quatro cartões que marcaram minha vida.

O primeiro foi de um colega de classe.

Estávamos prestes a encerrar o curso e ele ficou desempregado. Numa sexta-feira chegou e comentou que ia trancar a matrícula pois não teria recurso para pagar as últimas mensalidades.

Fiquei sensibilizada pois era um rapaz esforçado e eu sabia da importância daquele certificado na vida dele. No intervalo para o café, fui até a secretaria, expliquei o fato, negociei e quitei o saldo devedor. No final da aula entreguei o documento para ele num envelope. Naquela época eu tinha recurso para fazer isto.

Quando nos reencontramos na segunda-feira, ele não disse nada, tinha os olhos marejados, apenas perguntou se poderia me dar um abraço.

No último dia de aula, ele me entregou pessoalmente um cartão de natal e disse:

-: este é o cartão de natal mais importante da minha coleção. É a maneira que encontrei de te agradecer o que fez por mim.

Relutei para aceitar, mas não houve jeito. Constrangida, agradeci e guardei. O cartão era lindo, tocava música quando abria. Nunca mais nos vimos. Sei que ainda tenho o cartão guardado, mas não sei onde está.

O segundo cartão me ensinou duas grandes lições.

Como diariamente recebia muita correspondência na empresa e no final de ano muitos cartões de boas festas, tinha o hábito de abrir o envelope, tirar a correspondência de dentro, rasgar o envelope ao meio e jogá-lo fora. Na hora do almoço, ficava em minha sala e com calma, lia tudo, inclusive os cartões um a um.

Naquele dia fiz a mesma coisa. Porém, nunca vou esquecer minha reação quando li aquele cartão. Aflita, puxei minha cestinha de lixo em busca dos envelopes jogados, mas a faxineira já havia passado e tirado o lixo. Até hoje sinto a angústia do momento. Mas porque tudo isto?

O cartão era quase uma carta de agradecimento, agradecia minha ajuda, apoio e enfatizava o quanto eu fora importante em sua vida. Entretanto no final havia uma assinatura ilegível. E, como joguei o envelope fora, não sabia quem era o remetente. Nunca descobri quem foi a pessoa que de alguma forma ajudei…

Por esta experiência vivida, aprendi a nunca mais jogar fora o envelope das correspondências e a nunca assinar ilegível algo que envio a outra pessoa. Escrevo meu nome. Assinatura só em documentos legais.

O terceiro cartão recebi, de uma amiga, pelo correio em minha casa.

Éramos vizinhas, ela quis me impactar e conseguiu.

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.  E-mail: cidamell@uol.com.br

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.
E-mail: cidamell@uol.com.br

Ela sempre me convidava para sair, tinha uma disposição inacreditável. Trabalhava o dia todo e curtia a noitada, dormia apenas 4 horas para se recompor, dizia que dormir era perda de tempo. Que a vida era curta. Eu ao contrário sempre precisei dormir muito, por isto quase nunca saíamos juntas. Mas quando havia um problema sério eu sempre estava ao lado dela. Creio que ela tinha razão quanto a vida curta, pois morreu aos 33 anos, em um acidente de carro.

Mas voltando ao cartão, a mensagem que ela me enviou era simples, porém esta frase que ela escreveu eu nunca esqueci: “envio este cartão à amiga das horas necessárias”.

O quarto cartão, muito especial, recebi neste ano de 2015.

Ao chegar da viagem de férias, encontrei-o sobre minha mesa:

* Veio de uma pessoa que eu não esperava;

* Me deseja saúde, paz e felicidade – ou seja tudo que precisamos;

* Espera continuar a desfrutar das histórias que escrevo;

* Agradece o compartilhamento do conhecimento;

* E, ainda alimenta um sonho de todos que se propõem a escrever…

Ou seja, receber um cartão destes, no final do ano, coisa rara hoje em dia – “não tem preço”.

Cada palavra escrita à mão calou fundo em meu coração. Me incentivou a continuar a escrever, a continuar a estudar e a sonhar, porque o sonho alimenta a alma.

Fez do meu dia um dia maravilhoso, fiquei realmente MUITO FELIZ!

Obrigada pelo lindo cartão e palavras incentivadoras.

Sei que o cartão que enviei agradecendo e desejando boas festas não chegará a tempo, mas as preces, ah, estas sim!

A todos boas festas e próspero 2016.

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

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