Etnomatemática na perspectiva de Ubirantan D’Ambrosio

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Etnomatemática na perspectiva de Ubirantan D’Ambrosio

 

Jonatha Daniel dos Santos[1]

 

 

Jonatha Daniel dos Santos Licenciado em Matemática pela Fundação Universidade de Rondônia. Mestre em Educação em Ciências e Matemática pelo Programa de Pós Graduação em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. dholjipa@gmail.com

Resumo: O presente artigo esboça teoricamente a concepção de Etnomatemática a partir da visão do professor Ubiratan D’Ambrosio. Percebe-se que o autor em questão, considera a Etnomatemática como um campo fértil capaz de aproximar o espaço escolar ao seu contexto social. Também é possível perceber que a Etnomatemática estando em constante movimento, origina diferenças quanto à vinculação da Etnomatemática com a Matemática.

 

Palavras Chaves: Etnomatemática, Cultura, Educação, D’Ambrósio.

 

 

Abstract: This article outlines the theoretical design Ethnomathematics from the teacher Ubiratan D’Ambrosio vision. It is noticed that the author in question, considers the Ethnomathematics as fertile ground able to approach the school environment to its social context. You can also see that the Ethnomathematics being in constant motion, causes differences in the binding of Ethnomathematics with mathematics.

 

Key Words: Ethnomathematics, Culture, Education, D’Ambrosio.

 

 

Palavras Iniciais 

 

Nas últimas décadas diversas pesquisas e estudos vêm colaborando para temas sobre a perspectiva cultural e educacional na área de matemática. Dentro do campo da Educação Matemática, algumas pesquisas mostram que diversos grupos sociais apresentam habilidades próprias de raciocínio, bem como pensamentos distintos no que se refere ao uso de calendários, medidas, processos de contagem, sistemas numéricos, entre outros, sendo importante ressaltar sua utilização nos mais variados aspectos dentro de sua comunidade.

A partir de estudos que visam a perceber outros sistemas de pensamento, e a partir da antropologia cultural atrelada a pesquisas baseadas em modelos etnográficos, começa-se então a repensar as ideias eurocêntricas, ou seja, há outros conhecimentos no mundo, que diferem dos que conhecemos e que foram distribuídos, com grande ênfase pelos governos e sistemas educacionais, como verdades imutáveis. Vale ressaltar que grupos inseridos dentro de nossa sociedade “dominantes”, não escolarizados ou pouco escolarizados,    também    expressam    suas    lógicas    de    pensamentos,     utilizando conhecimentos empíricos, onde conseguem solucionar seus problemas tão bem como se utilizassem o conhecimento matemático, físico, entre outros conhecimentos  disciplinares ocidentais.

No que condiz a matemática, o atual estado de conhecimento do ser humano neste campo se apresenta em um alto nível de estabilidade. Ele deriva de acordo com a história universal, de povos históricos, como os Babilônicos, Egípcios, Gregos, entre outros importantes na construção do conhecimento humano. Este conhecimento constrói-se ao longo dos tempos imutável e estruturalmente inabalável. Percebe-se também a capacidade de oferecer discursos verdadeiros, como exemplo numa perspectiva numérica.

É claro que a matemática exerceu e exerce um papel significativo em nosso espaço social, uma vez que é possível estabelecer conexões de práticas do cotidiano com conhecimentos matemáticos e se pensarmos em um mundo sem tecnologia, pode-se pensar em um mundo sem a matemática. Mas será que não existem outras formas numéricas além destas aprendidas em nossas relações sociais e escolares? Nesta perspectiva, surgem alguns termos que tentam de algum modo expor e explicar os distintos conhecimentos de outros povos. De acordo com Gerdes (1991, p.29), onde elencou alguns destes termos, valendo-se como exemplo: Claudia Zalavski (1973) que chamava de Sociomatemática, D’Ambrosio (1982) com o termo Matemática Espontânea, no mesmo ano, pesquisadores como Posner (1982) que designou de Matemática Informal e Gerdes (1982) Matemática Oprimida. Vale salientar a expressão dada por Ferreira (1986) cujo nome era Matemática Codificada.

Assim, nesse movimento exponencial, diante destes termos, dos debates, de como interpretar outras lógicas de pensamento de povos culturalmente distintos, no campo da educação matemática, em meados da década de 70, o professor Ubiratan D’Ambrosio usa a expressão “Etnomatemática”. Esta tem o intuito de explicar, conhecer e entender saberes e fazeres de distintos povos. (D’AMBROSIO, 2009, p.60). Deste modo, a partir da definição de D’Ambrosio (2002, 2004, 2009, 2012), partindo de suas experiências práticas e teóricas, pretende-se esboçar sobre o que o autor citado têm para si em relação ao estudo da Etnomatemática. É o que se propõem nos tópicos seguintes.

Ubiratan D’Ambrosio 

Dentro da educação matemática, a partir da década de 70, com todas as discussões que havia na época sobre os conhecimentos não oficializados, bem como conhecimentos gerados por distintos grupos sociais no contexto urbano, rural, classes profissionais, sociedades indígenas, que se identifiquem por objetivos e tradições comuns aos grupos, D’Ambrosio (2009, p.09) denomina estes vários conhecimentos como sendo Etnomatemática.

Assim, nesta perspectiva, o autor afirma que a Etnomatemática tem o intuito de explicar, conhecer e entender saberes e fazeres de distintos povos. Neste sentido, tais grupos ao produzirem Etnomatemática, saem do sentido escolarizado pensando na perspectiva escolar e oficial, uma vez que os seus conhecimentos, ou seja, suas lógicas utilizadas para a produção, construção e validação dos objetos, são em grande parte construídos por necessidades históricas independentes da utilização do pensamento matemático euro-usa-centrista. Isso que dizer que não é necessário o conhecimento “oficial” para se construir medir, contar entre outras atividades inerentes a sobrevivência.

Deste modo o D’Ambrosio (2012) apresenta ao longo de suas obras alguns princípios defendendo a existência de várias matemáticas, consideradas como Etnomatemática. Como uma significação teórica, a Etnomatemática hoje é uma subárea da História da Matemática e da Educação Matemática e possui uma relação abrangente com a Antropologia e Ciências da Cognição. (idem, 2009).

Para o autor,

Indivíduos e povos têm, ao longo de suas existências e ao longo da história, criado e desenvolvido instrumentos de reflexão, instrumentos materiais e intelectuais [que chamo ticas] para explicar, entender, conhecer, aprender para saber e fazer [ que chamo de matema] como resposta a necessidades de sobrevivência e de transcendência em diferentes ambientes naturais, sociais e culturais [que chamo de etnos] (D’AMBROSIO, 2009, p.60)

Neste sentido, em busca de investigar e verificar outros modos de pensamento, inicialmente a Etnomatemática visa entender através da história como os povos por  meio de instrumentos materiais e intelectuais produziram e produzem conhecimento para responder a necessidade de sobrevivência em seus espaços naturais e culturais.

Para D’Ambrosio (2010) a Etnomatemática busca entender ao longo da história da humanidade o saber/fazer. O ser humano, independente de sua cultura tem necessidades  básicas  no  intuito  de  sua  sobrevivência,  havendo  a  necessidade de produção de objetos e técnicas, onde se pode conhecer como seu próprio matema, que  se traduz quando os membros da sociedade “compartilham maneiras de  explicação, artes e técnicas próprias e especificas” para realizar suas atividades. (D’AMBROSIO, 2012, p.17)

No sentido da construção de pensamentos de acordo com o autor supracitado, “pensamento são parte de uma realidade de ideias abstratas aos indivíduos de forma intima, assim como as emoções.” (idem, 2002, p.31). Desse modo, com os sistemas lógicos de pensamento, o grupo social produz objetos manipuláveis capazes de criar, modificar e re(modificar) suas produções. Este conhecimento, a partir de informações proporcionadas pela realidade, de acordo com sua necessidade histórica é necessário ser repassado a outros membros da comunidade. Assim, esse processo cumulativo compreende estágios de geração, organização intelectual, organização social e difusão do conhecimento. (D’ AMBROSIO, 2002, p.25). Então, verifica-se que esses estágios  de acordo com o autor são responsáveis pelo processo de uma reprodução de conhecimentos, bem como possível forma de mantê-lo em constante movimento aos sujeitos sucessores.

Neste sentido, convém ressaltar que o autor denomina de Programa Etnomatemático,

que teve sua origem na busca de entender o fazer e o saber  matemático de culturas marginalizadas. Intrínseca a eles há uma proposta historiográfica que remete à dinâmica cultural da evolução  de fazeres e saberes que resultam da exposição mútua de culturas. […] Embora haja uma vertente da etnomatemática que busca identificar manifestações matemáticas nas culturas periféricas tomando como referência a matemática ocidental, o Programa Etnomatemática tem como referências categorias próprias de cada cultura, reconhecendo que é próprio da espécie humana a satisfação de pulsões de sobrevivência e transcendência, absolutamente integrados, como numa relação de simbiose. (D’AMBROSIO, 2010, p.44-45)

Então, percebe-se que o Programa Etnomatemática, tem como objetivo entender o ciclo do conhecimento em distintos ambientes (D’AMBROSIO, 2010, p.46), pois acredita-se nos conhecimentos produzidos pelos povos e culturas ao longo do tempo, tentando ao máximo visualizar as habilidades produzidas, por um olhar mais atento as diversidades e pensamentos que emergi de suas necessidades físicas e mentais.

O autor (2010) busca em seus escritos dar uma ênfase aos etnoconhecimentos dos povos e culturas, valendo-se da ideia que a disciplina denominada Matemática é, na verdade, uma Etnomatemática que recebeu importantes contribuições das civilizações do Oriente e da África nos séculos XVI e XVII até chegar a sua forma hoje, então estruturada, levada e imposta em todas as nações.

Neste pensamento de observar em distintas culturas, com um olhar menos ocidental, suas lógicas e habilidades utilizadas nas suas realizações, como dito, perante sua sobrevivência, o autor (2010, 2012) faz uma reflexão sobre a Educação Indígena do Brasil. O questionamento se da na medida em que o conhecimento do não índio, normalmente denominado de “branco” é apresentado como verdade na escola indígena e ainda mais de qual forma o etnoconhecimento produzidos até aquele momento são desconsiderados. D’Ambrosio (2012), ressalta que o conhecimento ocidental não deve ser desconsiderado, uma vez que pela estrutura da sociedade não indígena, os conceitos devem sim ser aprendidos pelos índios, mas ressalta que a “matemática do branco” que se apresenta com uma roupagem de superioridade, pode ter o poder de eliminar a “matemática do índio”. Disso, o autor comenta que

A etnomatemática do indígena serve, é eficiente e adequada para coisas muito importantes. Não há por quê substituí-la. A etnomatemática do branco serve para outras, igualmente muito importante. Não há como ignorá-la. Pretender que uma seja melhor que a outra é uma questão falsa e falsificadora, se removida do contexto. O domínio de duas etnomatemáticas, e possivelmente de outras, oferece maiores possibilidades de explicações, de entendimentos, de manejo de situações novas, de resolução de problemas. É exatamente assim que se faz pesquisa matemática em qualquer outro campo do conhecimento. (p. 131,132)

Percebe-se então a importância de observar os conhecimentos etnomatemáticos em sua forma original, permeada das construções patriarcais, onde construíam, contavam e se situavam no espaço e tempo sem o auxílio de conhecimentos ocidentais. Entretanto é necessária uma visão transcultural com a perspectiva de intermediação de convivências em outras culturas, ou seja, num contexto intercultural.

Diante do exposto, percebe-se a importância de ser realizadas pesquisas com o intuito de registrar e preservar os saberes Etnomatemáticos de distintos grupos sociais. Tal pesquisa vinculada a etnomatemática perpassa pela antropologia com enfoque ao estudo baseada no modelo etnográfico. O autor acredita que a matemática é uma etnomatemática, ou seja, a matemática é vista na Etnomatemática, oriunda de interconexões entra as diversas culturas.

Algumas palavras finais

Como dito, o campo de estudo da Etnomatemática está em constante movimento. Esses estudos apresentam ao longo dos anos novas perspectivas quanto ao objeto de estudo bem como as práticas para realização destes. A etnomatemática contida dentro da Educação Matemática vem sendo concebida em temas de constante debate, como a formação de professores, na prática pedagógica e um grande debate se instala nos currículos escolares.Entende-se com isso que a Etnomatemática é uma desdobramento da matemática, sendo assim, conclui-se a importância da Etnomatemática, utilizada a partir da visão da Matemática.

Percebemos então que os estudos voltados à pesquisa de outros conhecimentos de distintos grupos culturais pode enriquecer nosso modo de perceber o mundo, bem como auxiliar na valorização e resgate destes conhecimentos, sendo importante para o próprio grupo social e a outros dentro da “sociedade dominante”. Também é de  utilidade por meio da Etnomatemática, a inserção nos currículos escolares com um foco na formação de professores e professoras, despertando uma motivação para valorizar os mais diversos conhecimentos dos estudantes e da sociedade em geral.

Referências

 

D’AMBROSIO, Ubiratan. Transdiciplinaridade. 2.ed. São Paulo: Palas Atenas, 2012.

                  . Etnomatemática: elo entre as tradições e a modernidade. 3.ed. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2009.

                  . Etnomatemática e Educação. In: Etnomatemática: currículo e formação de professores. Gelsa Knijnik, Fernanda Wanderer, Claudio J. de Oliveira (Orgs.) 2.ed. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004.

                   . Etnomatemática.     Um     enfoque    antropológico    da matemática e do ensino. In: Idéias Matemáticas de povos culturamente distintos Mariana K. L. Ferreira (Org.). São Paulo: Global, 2002.

[1] Licenciado em Matemática pela Fundação Universidade de Rondônia. Mestre em Educação em Ciências e Matemática pelo Programa de Pós Graduação em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. dholjipa@gmail.com

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