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QUANDO ELES SÃO OS MELHORES AMIGOS

Margarete Hülsendeger

O amor é mais do que a verdade, é uma decisão.

Alexandra Lucas Coelho

Apesar da existência de sites que disponibilizam espaços para relações visando apenas o sexo, chega do Canadá uma notícia positiva que me faz acreditar ser ainda possível existir relacionamentos duradouros baseados no amor e na amizade. Segundo um estudo conduzido pelos economistas John Helliwell, da Faculdade de Economia de Vancouver, e Shawn Grover, do Departamento Canadense de Finanças, estar em um relacionamento estável torna as pessoas mais felizes e satisfeitas com a vida, em comparação com aquelas que estão solteiras.

Esse “efeito de felicidade” ficaria mais evidente nos momentos de crise, pois é quando o casal precisa estar unido por laços que vão muito além da paixão ou da luxúria. A amizade entre os casais torna-se, portanto, uma forma saudável de superar, não só os grandes problemas, mas também aquelas pequenas dificuldades que surgem no dia-a-dia. Os pesquisadores explicam que esse efeito não tem relação com a situação legal do casal, mas é o resultado da convivência, ou seja, ele também está evidente entre aqueles que, apesar não estarem oficialmente casados, vivem juntos.

Outra conclusão da pesquisa é que os benefícios da amizade conjugal se tornam mais óbvios conforme o casal vai se aproximando da meia idade, pois, é nessa época que são enfrentados os períodos de maior insatisfação, geralmente, devido aos altos índices de stress ocasionados pelas exigências impostas pela carreira e família. Assim, ver em seu companheiro (ou companheira) um amigo minimiza os efeitos negativos das inevitáveis cobranças já que nesse tipo de relacionamento o diálogo costuma ser mais aberto e sincero, existindo mais facilidade em compartilhar confidências e dividir os problemas.

Essa pesquisa apenas confirma o que muitos já sabem: uma relação só tem chances de dar certo se, depois da paixão inicial, for possível encontrar em sua companheira (ou companheiro) a camaradagem necessária para vencer as tempestades que com frequência se abatem sobre um casal. Alguns podem pensar que seja um pouco brega falar em amizade conjugal. Afinal, em uma sociedade onde os bens não são feitos para durar, é sempre mais fácil desistir do que perseverar, é sempre menos problemático “partir para outra” do que insistir tentando escolher caminhos que superem os obstáculos.

No entanto, não pensem que com esse discurso estou defendendo a ideia de que em um relacionamento tudo precisa ser perdoado e esquecido. Uma mulher, em nome da manutenção de um casamento,

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestranda em Teoria Literária na PUC-RS

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestre em Teoria Literária na PUC-RS

não deve suportar abusos de nenhum tipo e um homem que não se sente feliz não deve permanecer casado apenas para manter as aparências. O que estou tentando dizer, utilizando os dados dessa pesquisa canadense, é que é possível ver em seu companheiro ou companheira mais do que o/a amante, pai ou mãe de seus filhos. Acredito que uma relação saudável tem mais chances de dar certo quando o casal consegue conversar de forma sincera, mesmo que seja para pronunciar uma frase dolorosa como “eu não te amo mais”. Um casal que é capaz de fazer isso, com certeza, evitará muita dor emocional e terá maiores probabilidades de ser feliz, mesmo que no final acabem concordando que a separação é necessária. Em geral, nesses casos, é a amizade que permanece para benefício não só do casal, mas também dos filhos, se existirem.

Silenciar, para depois trair, não é a solução. Encontros agendados pela internet para noites de sexo sem compromisso podem, na melhor das hipóteses, trazer uma satisfação momentânea, mas a curto e médio prazo não vai ser suficiente para manter afastada a solidão. Como explicam os canadenses, é na amizade que está a solução para a maioria dos nossos problemas. É a presença dos amigos que nos conforta quando estamos em meio à dor. São eles que, muitas vezes, nos puxam do buraco que nos enfiamos quando não conseguimos ver além dos problemas mais imediatos. Assim, como não valorizar a amizade? E se a encontramos na pessoa que escolhemos para ser nosso companheiro de vida como, simplesmente, deixar essa oportunidade se perder? Seria um desperdício indesculpável.

Para concluir, encerro este texto com dois pequenos poemas de Mario Quintana, a interpretação, como ocorre na poesia, vai depender de quem os ler:

Amizade

Quando o silêncio a dois não se torna incômodo.

Amor

Quando o silêncio a dois se torna cômodo.[1]

Eu já fiz a minha interpretação, faça você a sua.


[1] QUINTANA, Mario. Para viver com poesia. São Paulo: Globo, 2010.

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