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Aparecida Luzia de Mello*

Todo final de ano eles marcam um encontro – a chamada confraternização entre amigos. Pedem um tira gosto, umas “brejas”, outro tira gosto, outras “brejas” aí vem o jantar, acompanhado de mais “brejas” e muito papo saudosista. Contam causos, experiências, sonhos, desejos, o que fizeram, o que não deu certo… até altas horas da madrugada.

A risada corre solta na mesa, às vezes, breve silêncio em respeito a uma dor, mas logo em seguida contam uma piada, fazem um comentário brincalhão e o clima melhora.

Acabam chamando a atenção de outras pessoas que também estão comemorando porque as risadas e gargalhadas são tão altas e escandalosas, mas eles não ligam, afinal depois dos sessenta tem mais é que rir…

E foi numa destas conversas que alguém, na mesa, falou que precisava começar o ano-novo vendo um homem porque carecia de sorte! Logo ouviu-se o grito:

-: como é que é? Não entendi…

Aí ela fazendo cara de inocente e repetiu:

-: a sogra da minha avó, portanto minha bisavó, dizia que no primeiro dia do ano, quando você acorda, se ver um homem terá sorte, se ver uma mulher terá azar! Para garantir este ano quero ver só homem!!!!!

         É claro que a gozação começou e logo estavam “tirando sarro” de todas as fêmeas de mesa.

         Depois de muita gargalhada e os homens fazendo poses de superiores ela resolveu explicar e começou a contar o “causo”:

         Quando minha avó casou com meu avô, foram morar em outra cidade e, portanto, viam as famílias muito pouco, pois a locomoção era cara e demorada. Um dia a mãe dele que ficara viúva resolveu fazer uma surpresa ao casal – chegou para passar o ano-novo, logicamente sem avisar, pois, os meios de comunicação também eram precários e caros. Veio para passar um mês.

Imagine a cara da minha avó. Porém isto era comum naquela época e ela, embora não se encaixasse nos padrões da época aceitou resignada, afinal era mãe do marido, viúva recente, e seria apenas um mês!

A casa era grande, eles tinham, graças a Deus, um bom padrão de vida. Acomodaram a senhora num dos quartos e dentro do possível tentaram tocar a vida.

A velha era implicante, não dava paz para os netos, interferia na cozinha, “metia a colher” em tudo. A paciência da minha avó já estava se esgotando, mas resignada ela prometia para si mesmo, todo dia de manhã, que naquele dia não iria se irritar, respirava fundo e lembrava – será apenas por um mês, será por apenas três semanas, será por apenas quinze dias, será apenas por….

Bem, chegou a noite de ano-novo, e com ela as superstições que existem ainda hoje. Exemplo – colocar a roupa branca, simbolizando a paz; comer lentilha para ter fartura; guardar as sementes de romã para ter dinheiro; não consumir aves porque ciscam para trás, consumir peixe ou porco porque se movimentam para a frente; pular sete ondas e por aí vai…

Mas a sogra trouxe uma outra que chocou minha avó. Ela determinou que na manhã do dia primeiro nem ela nem minha avó deveriam levantar da cama.

Meu avô, meu pai e meu tio deveriam dormir em outro quarto e de manhã levantarem e se encontrarem na cozinha, depois de terem se visto e se cumprimentado, iriam até os quartos delas para que elas vissem primeiro um homem e tão somente depois disto elas poderiam sair, porque se a primeira pessoa vista fosse mulher iriam ter um ano de azar.

Minha avó contestou, achou aquilo demais, um preconceito idiota, uma grande bobagem, mas não houve jeito a velhota falou, brigou, contestou, estragou literalmente a noite da família e para não discutirem mais cederam e assim foi feito.

As festas terminaram a velhinha foi embora e a paz voltou a reinar. Porém a paz reinou por onze meses, pois no outro ano-novo lá estava a velhota de mala e cuia.

Minha avó ficou furiosa e começou a lembrar as maluquices da sogra e os transtornos que ela havia provocado na visita anterior. O que mais a irritou foi lembrar da “mulher que dava azar”.

Assim que possível ela puxou o assunto e disse que não aceitaria mais aquele constrangimento de ter que dormir separada do marido e ficar aguardando um homem entrar em seu quarto, no primeiro dia do ano, para garantir a sorte dela e da família. E, por outro lado, por ser mulher, ser considerada uma pessoa que representava o azar.

Na hora começou a discussão e a velhota disse que só tinha vindo por causa disto, pois sabia que a nora não tinha aprendido a lição. Foi um show de horror. Um bate-boca feio…

Enfim já estava tarde e foram dormir, cada uma delas garantindo que seria à sua maneira. Uma dizia que a casa era dela, a outra que o filho era seu e os netos também, que era mais velha e devia ser respeitada. O imbróglio estava feito.

Minha avó não conseguia dormir de raiva e passou a noite pensando em como dar uma lição na velhota. Nos dias posteriores elas não se falaram, mandavam recado por meio dos homens da casa. Meu avô pedia tolerância entre elas, aconselhava uma, depois a outra, mas nada adiantava. O clima estava insuportável.

Um dia minha avó levantou animada como se nada tivesse acontecido. A paz voltou a reinar na casa. Pensaram que ela resolvera fazer a vontade da velhinha, que iria embora satisfeita e tudo voltaria a normalidade.

No dia 31 minha avó começou cedo a preparar a comida do réveillon. Elaborou o cardápio preferido da sogra, quando esta veio tentar ajudar, rapidamente propôs que ela fosse arrumar o cabelo, afinal era um dia especial e ela deveria estar descansada. A velhinha sentiu-se prestigiada, aceitou e saiu toda faceira.

A mesa foi primorosamente montada. Pratos, copos, talheres e guardanapos com os nomes de todos os familiares. Uma cabeceira da mesa era tradicionalmente do marido e a outra era sua, mas ela cedeu para a sogra. De forma que os filhos ficaram um de cada lado do pai e ela ao lado da velhota.

Quando sentaram para jantar, todos estavam deslumbrados com a beleza da mesa, se bem que minha avó era caprichosa em tudo que fazia, mas aquele dia ela esmerou-se.

Enquanto eles traçavam elogios aos detalhes ela foi servindo os pratos. Serviu as bebidas e sentou-se. Comeram, beberam, brindaram, conversaram e a meia-noite abraçaram-se desejando felicidades, prosperidade, saúde e blá, blá, blá…

Antes de se recolherem para seus quartos minha avó propôs mais um brinde, trouxe a bandeja da cozinha com as taças e entregou uma para cada um. A do meu avô com vinho, a dela, dos meninos e da sogra – suco.

Depois do brinde derradeiro e do boa noite, foram dormir. Logicamente o casal separado por causa do azar. A instrução foi repassada pela sogra como no ano anterior – os homens deveriam levantar primeiro, se encontrarem na cozinha, se cumprimentarem e depois irem cumprimentar as mulheres para dar sorte a todos.

No outro dia, as nove horas da manhã, a casa ainda estava em silêncio absoluto. Todos dormiam. Para a velhinha já era hora de levantarem…, porém deu dez horas, onze horas e nada.

Ela resolveu começar a fazer barulho. Bateu uma porta, arrastou a cadeira, tossiu e nada. Estava inquieta em seu quarto, queria ir ao banheiro, afinal esta coisa de suíte é coisa da modernidade.

Naquela época isto não existia, o banheiro era mesmo no quintal, havia o famoso penico que ficava embaixo da cama e socorria o pessoal no meio da noite.

Ali ela só soltou o líquido, que era bastante, mas agora ela queira soltar o sólido. Meio-dia e nada! Todos continuavam a dormir. Começou a ficar preocupada. Não sabia se a preocupação era maior com eles ou com a cólica que ia e vinha cada vez mais forte.

Resolveu chamar o filho pelo vão da porta, falou se nome, aumentou a voz, gritou e nada. Chamou um neto, o outro e também não responderam. Ficou tão nervosa que nem teve tempo de sentar direito no urinol, outro nome do penico. Sujou o chão do quarto, a roupa e as cólicas eram cada vez mais forte.

Finalmente gritou:

-: socorro, por favor, alguém me ajude!!! Estou passando mal. Preciso de um banho. Meu intestino soltou. Cadê vocês meninos? Por que não apareceram aqui até agora?

A diarreia tomou conta do espaço e o cheiro se alastrou. Com os gritos de socorro, todos acordaram e saíram de seus quartos correndo para socorrer a velhinha, inclusive minha avó que chegou primeiro e já foi tapando o nariz e abrindo a janela.

A velha corou! Nova cólica, um barulho horrível e nova descarga… no chão.

A nora, minha avó, fechou a porta do quarto antes que os homens entrassem, ajudou-a a tirar a roupa e jogou um lençol sobre ela, pegou-a pelo braço e pediu que a acompanhasse até o banheiro.

Os homens em contrapartida estavam ainda atordoados de sono sem entender bem o que se passava. Ela aproveitou e deu ordem ao marido que esquentasse água para que a mãe pudesse tomar um banho e aos meninos que limpassem o quarto e o corredor empesteado.

Quando tudo se acalmou. A velhinha envergonhada e de cabeça baixa se desculpava pelo vexame e resmungava sua má sorte, a cólica, o mal-estar, depois de uma noite tão bonita. Então minha avó aproveitou a oportunidade e emendou:

-: ah, má sorte terei eu, que socorri a senhora, com certeza este será o pior ano de minha vida. Para atender o pedido de socorro, eu vi primeiro uma mulher, a senhora!

Sorrindo, minha avó levantou-se e foi passar um café. Lembrando que precisava ir à pharmacia… agradecer ao prático pelas fórmulas que haviam sido manipuladas, afinal fora um sucesso!!! Enquanto o sonífero fazia efeito e os homens dormiam, a velhota se borrava toda…

No outro ano a velhinha mandou apenas uma carta de recomendação lembrando a família para manter a tradição, senão teriam “azar”.

E você, viu primeiro um homem ou uma mulher? Vai ter sorte ou azar!?!

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

 

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