Estrutura e linguagem do documentário audiovisual

Larissa Gonçalves

Documentário: história e linguagem é um vídeo realizado pelo Professor Richard Romancini que tem por objetivo fazer uma breve trajetória histórica do documentário explicando as suas fases e seus procedimentos. O recorte da apresentação começa na década de 60 até chegar à era contemporânea, quando então é feito uma diferenciação dos vários tipos de documentário segundo o conceito de “modo” criado pelo teórico Bill Nichols². Este trabalho realizado pelo professor Romancini é útil para os que se iniciam no estudo sobre documentário, porque foge primeiramente dos conceitos do senso comum que circulam pelo gênero audiovisual, questionando  o que leva um filme a ser considerado como documentário. O documentário é a própria realidade ou o documentário edita a realidade? O que tem de real no documentário?

O professor começa por falar sobre a dificuldade para  definir de maneira consistente e geral o que pode ser chamado e considerado um filme documentário. O principal critério para classificar um filme como documentário seria a “indexação ao real”, a documentação e os registros que estão fora do discurso narrativo, mas foram necessários para a sua construção, ou seja, o índice de verdade que o filme pertence, as informações reais e verdadeiras que compõem a obra.

Segundo um dos entrevistados, Professor Fernão Pessoa Ramos,  livre-docente do Departamento de Cinema da Universidade de Campinas, “O documentário pode ser definido, de forma breve, como uma narrativa que estabelece enunciados sobre o mundo histórico […]. A camada que enuncia no documentário distingue-se nitidamente daquela que enuncia no cinema de ficção” (RAMOS, 2004, p. 163). A abordagem discursiva e os meios utilizados por ambos os gêneros narrativos para dissertarem e argumentarem sobre seus temas são diferentes, por isso é possível distingui-los.

Em seguida, é feito um breve histórico do documentário, começando ainda antes dos anos 60 com um Cinema Primitivo, Documentários Clássicos e Vanguardas. A partir de 1960 começa a era moderna, com o Cinema Direto nos Estados Unidos, e o Cinema Verdade na França, mas ainda permanecem o Documentário Clássico e as experiências de Vanguarda. O período contemporâneo é marcado pelo hibridismo, pela abertura a novas linguagens que rompem fronteiras.

O Documentário Clássico tem como característica a encenação do real e a edição do que foi filmado criando uma narratividade com desenvolvimento, clímax, desfecho. Com Robert Flaherty, os temas do documentário são tratados de forma narrativa e influencia o Cinema Antropológico. Enquanto John Grierson acredita em uma visão artística da realidade e se preocupa com questões sociais e com o caráter educativo que deveria estar presente nos documentários. O Cinema Direto é inaugurado com a obra Primárias (1960), de Robert Drew, possuindo uma estética objetiva sem intervenção, com filmes sem narração ou trilha sonora original.

Influenciado pelo jornalismo, o Cinema Direto gasta muito mais tempo e investimento filmando e buscando momentos verdadeiros, para então construir uma narrativa no momento da edição. O Cinema Verdade tem como obra inaugural Crônica de um verão (1961), de Jean Rouch e Edgar Morin. Esse tipo de produção é marcado pela participação que faz uso de entrevistas e demais situações de intervenção de terceiros.

Tanto o Cinema Direto quanto o Cinema Verdade trabalham com um número pequeno de pessoas e têm a construção da narrativa no momento da edição, e ambos conseguiram se desenvolver com as novas tecnologias de filmagem que facilitaram o trabalho e representaram uma renovação estética sendo modelo para os documentários contemporâneos.

No fim, é trabalhado os modos do documentário, com base no teórico de cinema Bill Nichols, que criou o conceito de “modo” para referir-se ao conjunto de elementos que organizam a lógica de um filme. Esse quesito  é composto por seis estilos: o modo expositivo, o poético, o observativo, o participativo, o reflexivo e o performático.

Com esse vídeo explicativo, temos a oportunidade de compreender de forma simples e direta a estrutura e o funcionamento dos filmes documentários aos quais temos acesso, identificando as escolhas estéticas que caracterizam cada modo diferente desse gênero. O que implica compreender  melhor a construção da realidade em cada um deles.

Por fim, nota-se que  os Documentários Contemporâneos, por conta do hibridismo com outros gêneros, coloca-se em confronto  com a realidade enquanto conceito absoluto, exigindo  um olhar mais crítico e atento do espectador para as estratégias retóricas de convencimento. É preciso dizer que tais mecanismos de “criação da verdade” são necessários aos outros modos de documentar, levando em conta que todos passam pelo momento de edição, quando há o recorte selecionando apenas aquilo que interessa ao diretor transmitir.


Larissa Gonçalves
Acadêmica do curso de Letras da Faculdade de Comunicação, Artes e Letras (FACALE), da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). No Grupo de Estudos InterArtes tem como objeto de pesquisa a animação Dossiê Rê Bordosa de César Cabral, evidenciando a fronteira entre o HQ e o Cinema.


Nota:

²NICHOLS, Bill apud Richard Romancini. Introdução ao documentário. Campinas, SP: Papirus (2005).

Referência:

ROMANCINI, Richard. Documentário: história e linguagem. Produção de suportes midiáticos para a educação, 2014. Disponível em http://pt.slideshare.net/richard_romancini/documentrio-historia-e-linguagem. Acesso em 18 dez 2015.

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