dancacigana

Aparecida Luzia de Mello*

Eram nove irmãs, todas fogosas, espanholas bem nutridas, cabelos longos cacheados, seios fartos e exuberância na vestimenta.

Ela era a mais velha, casou-se, teve um filho e levava uma vida de privações e provações, humilhações, agressões, até o dia que ele a agrediu fisicamente de fato. Ele derrubou-a no chão e com um muro no rosto deixou-a inconsciente, retalhou seus seios e coxas com uma faca, chamando-a de sem-vergonha. Vitorioso, gritava que queria ver se ela continuaria a se vestir como uma prostituta mostrando tudo.

O filho pequeno, assustado, correu até a casa de uma das tias e entrou pedindo socorro, dizendo que o pai estava matando a mãe.

Logo uma “multidão” avançou sobre ele, deram-lhe uma surra e ordenaram que sumisse, porque se voltasse morreria. Enquanto outros a socorriam levando-a para o hospital.

Naquela época a sutura era feita para estancar o sangue. E foi assim que aconteceu. A pobre mulher continuou com seios fartos, coxas roliças, mas agora o corpo parecia uma colcha de retalhos.

Ela era naturalmente sensual, passou a usar os vestidos sem decotes, mas mantinha os babados, os cabelos continuaram vermelhos, a boca e unhas também.

O marido nunca mais voltou, e ela de dona de casa, tornou-se balconista de uma loja de tecidos no Braz pertencente a uma família de libaneses, para sustentar a si própria e ao filho.

Saia de casa cedinho, andava meia hora a pé para pegar o ônibus e ajudar a abrir a loja antes das oito horas da manhã e só saia depois das dezenove horas, quando o movimento do dia já estava fechado.

Inteligente e dedicada, logo foi notada pela dona da loja, por outro lado a mulher sentiu-se ameaçada, pois tinha um filho na idade casadoura que já tinha esticado o olho para o lado da espanhola. Mas, certo dia ouviu nos bastidores da loja uma resposta ríspida da moça para o filho que tinha feito um gracejo qualquer. Foi o suficiente para sentir-se tranquila e deixar o barco correr.

Assim voltou a visitar a loja uma vez por semana, como fazia costumeiramente, e agora que contava com uma funcionária extremamente dedicada estava ainda mais satisfeita.

Porém, “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, e foi ali mesmo na loja que os dois se enrolaram… começaram com alguns beijos, abraços, depois “amassos” e quando se deram conta já estavam em vias de fato.

Ele acreditou que poderia se aproveitar por algum tempo e depois a descartaria facilmente, se ela criasse problemas, ele contaria à mãe e ela seria dispensada.

O que ele não contava é que se apaixonaria perdidamente por aquela mulher. Ele nunca tinha estado com uma mulher tão ardente, tão sensual, tão cheirosa, tão gostosa!!!

Pouco tempo depois ele comprou uma quitinete no Braz e um Cadillac Eldorado com imenso rabo de peixe em nome dela, em contrapartida, ela deveria ficar 3 vezes por semana lá e os outros dias voltaria para sua casa.

A mãe e as irmãs se dispuseram a cuidar do filho dela enquanto ela trabalhava na loja e nos dias que ela faria “serão”. Ela tornou-se a irmã rica para a família.

O tempo passou e eles estavam cada dia mais próximos. Nos dias em que dormiam na quitinete, enquanto ela preparava o jantar, riam muito, conversavam sobre os costumes, as diferenças, o trabalho, a vida, os sonhos, as dificuldades, os segredos, beliscavam algum tira gosto regado a um bom vinho, jantavam, tomavam banho, faziam sexo e dormiam abraçados.

De manhã, ela acordava antes dele, preparava o café e levava na cama. Aproveitava e ligava o som com músicas espanholas para alegrar o ambiente. Ele sorria e agradecia. Dizia que ela era o anjo da alegria. Depois tomava o banho que ela já havia preparado, vestia a roupa separada por ela e ia trabalhar. Mas na loja ela o ignorava e quando ele se mostrava saliente ela o rechaçava, sempre, para não dar o que falar.

As cicatrizes que ela trazia no corpo não atrapalharam em nada o relacionamento. Os dois eram felizes juntos.

Passaram-se alguns anos e um dia a mãe dele descobriu o envolvimento. Fez um escândalo. Exigiu a demissão dela e que ele arrumasse uma noiva decente para casar e lhe dar netos.

Como bom libanês, embora já não fosse mais o garoto de outrora e cuidasse dos bens da família, respeitando os costumes, aceitou as ordens da mãe.

Chamou-a e lhe disse que não dava mais para continuar. Ela a dispensaria da loja com sua mãe exigia e se afastaria dela, iria procurar uma noiva na comunidade libanesa, casar e ter filhos como mandava a tradição. Porém, para que ela não se sentisse lesada, ele iria lhe dar uma loja no mesmo ramo como meio de sobrevivência e uma casa confortável próxima a sua família para que ela não se sentisse só. Além de lhe garantir uma reserva para pagar os estudos do filho.

Revoltada, na hora ela queria mandar que ele enfiasse tudo no *#¨+*#, virar a mesa, xingá-lo, chama-lo de fraco, esmurra-lo, ofende-lo, pela dor que ela estava sentindo, mas pensando na família e nos estudos do filho silenciou. Ficou triste, pois gostava dele, estava acostumada, já se sentia “casada” se bem que era um casamento diferente, mas era assim que se sentia. Foi um baque.

Mulher de fibra, aceitou a oferta, assumiu a loja, alugou a quitinete, mudou para a nova casa perto da família e “tocou o barco”, enquanto o filho cursava medicina em outro Estado.

Algum tempo depois soube por um fornecedor em comum que o ex. estava noivo e iria se casar em breve. Viu a foto do casal, a noiva – era jovem, bonita, magra e elegante, enquanto ela já não era jovem, a beleza estava se esvaindo, estava gorda e nunca fora elegante. Chorou, no fundo tinha esperança que ele voltasse, mas suas esperanças ruíram.

No dia do casamento dele, ela viajou. Deixou a loja com os empregados, uma irmã que a ajudava e foi para a praia. Lá andou muito, chorou, riu, bebeu, vomitou e dormiu. No outro dia voltou, vestiu um vestido extravagante, pintou os cabelos, as unhas e a boca de vermelho e prometeu que nunca mais pensaria nele.

Seis meses depois um taxi parou na porta de sua casa. Era noite, chovia e fazia frio. A campainha tocou. Era ele. Parecia alterado, abatido, barbudo e desarrumado. Mal conseguia manter-se em pé.

Ela abriu a porta, o taxi arrancou, ele entrou em silêncio. Ela sentiu o cheiro do álcool. Ele jogou-se no sofá e desabou a chorar. Chorou até cansar. Deitou e dormiu. Ela então tirou seus sapatos, cobriu-o e apagou a luz.

Aparecida Luzia de Mello é mestre em Políticas Sociais

Aparecida Luzia de Mello é mestre em Políticas Sociais

No dia seguinte, ela levantou-se bem cedo, preparou o café e levou para ele que ainda dormia, ligou o som com músicas espanholas para alegrar o ambiente. Ele sorriu e disse que ela era o anjo da alegria. Bebeu o café sem açúcar e pediu licença para ir ao banheiro. Lá estava tudo pronto para um banho, menos a roupa, afinal ela já tinha se desfeito de tudo.

Quando ele entrou na cozinha, ela bebericava o café. Ele tomou as mãos dela entre as suas, beijou-a e lhe disse:

-: você é a mulher que eu amo, tentei atender o pedido da minha mãe e respeitar nossos costumes, mas estou muito infeliz. Aquela mulher não sabe conversar como nós fazíamos, ela só sabe falar de bolsas, sapatos, das amigas e fazer fofoca. Ela não gosta de comer e beber como a gente fazia, ela só come alface e bebe água. Ela não tem carne para eu pegar, nem cicatrizes para eu beijar. Se você me aceitar de volta, vou devolver aquela mulher para minha mãe, pois foi ela quem a arrumou para mim. Abro mão dos bens de família, se necessário, e venho morar e trabalhar com você.

Um mês depois eles abriam, juntos, a loja que agora tinha um novo sócio.

A noite enquanto ela preparava o jantar, riram muito, conversaram sobre os costumes, as diferenças, o trabalho, a vida, os sonhos, as dificuldades, os segredos e agora, quanto aos planos para o futuro também, enquanto isto iam beliscando um tira gosto regado a um bom vinho, jantaram, tomaram banho, fizeram sexo e dormiram abraçados…

 

 

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

 

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