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Representações Simbólicas Regionais em Músicas: Uma Análise Comparativa dos Trabalhos de Luiz Gonzaga e da Dupla César de Oliveira e Rogério Melo

Mauro Augusto Musiat *

Alides Baptista Chimin Junior *

Resumo:

O presente trabalho teve como objetivo central compreender como se faz a representação simbólica regional nas músicas de Luiz Gonzaga e César de Oliveira e Rogério Melo. A relação entre música e representação simbólica espacial assume viés de linguagem de comunicação expressa por sujeitos que procuram dar visibilidade a problemas sociais ou simplesmente ao cotidiano lírico. Com isso o trabalho pretende demonstrar que o campo da Geografia da Música é uma fértil área para compreender as distintas realidades brasileira.

Palavras-chave: geografia, música, simbolismo, regional.

Abstract:

This work was mainly aimed to understand how to make the symbolic regional representation in music of Luiz Gonzaga and Cesar de Oliveira and Rogério Melo. The relationship between music and spatial symbolic representation assumes communication language bias expressed by individuals who seek to give visibility to social or simply lyrical everyday problems. With this work aims to demonstrate that the field of music Geography is a fertile area to understand the different Brazilian realities.

Keywords: geography, music, symbolism, regional.

Introdução

Tomando a música como meio de comunicação que expressa valores simbólicos e identitários assim como emergências e carências espaciais, trabalharemos interpretando as letras das músicas de Luiz Gonzaga a respeito do nordeste e César de Oliveira e Rogério Melo a respeito do sul do Brasil. As letras das músicas de Gonzaga são famosas por destacar problemas sociais relacionados tanto a seca, falta de alimento, desemprego do nordeste, quando pela identidade lírica regional construída pelo sertanejo. Já César de Oliveira e Rogério Melo traz nas letras de sua música o lirismo poético do cotidiano gaúcho mostrando forte apego regionalista aos pampas do Rio Grande do Sul. Os trabalhos de Luiz Gonzaga, deflagrando uma realidade vivenciada pelo autor no nordeste, e César de Oliveira e Rogério Melo deflagrando uma realidade lírica nos pampas gaúcha é possível realizar um trabalho comparativo demonstrando as diferenças regionais do Brasil expressas nas respectivas letras musicais.

Compreendemos no presente trabalho que a relação entre música e representação simbólica espacial assume viés de linguagem de comunicação expressa por sujeitos que procuram dar visibilidade a problemas sociais ou simplesmente ao cotidiano lírico. Tomando a música como meio de comunicação que expressa valores simbólicos e identitários assim como emergências e carências espaciais, trabalhamos interpretando as letras das músicas de Luiz Gonzaga a respeito do nordeste e César de Oliveira e Rogério Melo a respeito do sul do Brasil. As letras das músicas de Gonzaga são famosas por destacar problemas sociais relacionados tanto a seca, falta de alimento, desemprego do nordeste, quando pela identidade lírica regional construída pelo sertanejo. Já César de Oliveira e Rogério Melo traz nas letras de sua música o lirismo poético do cotidiano gaúcho mostrando forte apego regionalista aos pampas do Rio Grande do Sul. Os trabalhos de Luiz Gonzaga deflagra uma realidade vivenciada pelo autor no nordeste, e César de Oliveira e Rogério Melo deflagra uma realidade lírica nos pampas gaúcho, é possível realizar um trabalho comparativo demonstrando as diferenças (contrastes) regionais do Brasil expressas nas respectivas letras musicais.

Materiais e métodos

A pesquisa realizada foi de cunho qualitativo, buscando assim a interpretação das músicas regionais, tendo como recorte espacial as representações simbólicas das letras das músicas de Luiz Gonzaga (nordeste) e César de Oliveira e Rogério Melo (sul). Para que os objetivos propostos no trabalho sejam atingidos, foram realizadas pesquisas biográficas contextualizando as espacialidades, conforme Massey (2008), de vivência dos respectivos autores das músicas. Este levantamento serviu como base para construir uma relação de problematizações que foram analisadas a partir da sistematização de evocações simbólicas regionais identificadas nas letras das músicas de Luis Gonzaga (nordeste do Brasil) e César de Oliveira e Rogério Melo (sul do Brasil). Buscando em sites e blogs sobre a vida e o cotidiano dos autores, foram pesquisadas todas as músicas que Gonzaga compôs só ou em parceria com outros músicos. Da mesma forma foram as pesquisas sobre Cesar Oliveira e Rogério Melo, buscando todas as músicas em que os integrantes da dupla participaram em compor, buscando nessas letras elementos simbólicos que os autores mais evidenciam, sendo desde os problemas enfrentados pela sociedade, a superação do povo com esses problemas, a Fé, os amores pelo lugar, etc. O agrupamento destas evocações serviram como base para analisarmos as regionalizações, por meio do que Massey (2008) denomina de contrastes espaciais.

Resultados e Discussão

Com o levantamento de dados foram analisados os títulos das músicas e suas relações com as letras, ano, e a temática sendo que foram analisados como uma base as questões de família, bares, festas, características regionais e sertão, que Gonzaga retratava em suas músicas. Os conceitos e categorias geográficos analisados paisagens, território, região e lugar. A análise da critica ou ostentação lírica a uma espacialidade feita por Gonzaga, sendo o lírico uma forma de elogiar, exaltar o nordeste, as festas e costumes religiosos, contos e causos dos dias de trabalhos ou dos amores encontrados e perdidos nas noites festivas, e o povo que mesmo sofrendo pela falta de água ou outros motivos, batalham e sobrevive a dureza da vida. Com os mesmos critérios de pesquisas foram analisadas as letras de Cesar Oliveira e Rogério Melo.

Nas letras de Luiz Gonzaga buscamos refletir sobre o apego de Gonzaga com o Nordeste e o povo Nordestino, encontrados em muitas letras o amor que o autor retratava, mulheres as quais o autor retrata uma forte paixão. Nas festas religiosas com costumes nordestinos o autor relata histórias das brincadeiras, fogueiras, comidas típicas, mulheres que conheceu paixões passageiras, amores vividos em noites de festas, a critica a seca é notável. Retratando o Rio Grande do Sul temos o entusiasmo e o orgulho que os músicos tem em pertencer a sua região, cantam de forma lírica um lugar talhado com lutas de um povo batalhador, vindo de guerras, suor de um povo que mantém seus costumes e tradições, uma terra onde tem o valor do esforço e do trabalho de cada um, oferecendo como recompensa um lugar incrível para se viver. No romantismo temos as letras que trazem amores vividos ou presenciados pelos autores, namoros de fim de semana deixando uma triste saudade nos dias em que está longe de sua prenda, a vontade de rever e estar junto, na ausência uma dor superada pelo trabalho ou nas lutas do dia a dia.

A comparação entre as músicas demonstram por um lado a descrição de uma paisagem de um Sertão com graves problemas sociais causados pela seca nas letras de Gonzaga. Os problemas sociais são muitas vezes associados a fé religiosa em forma de preces de ajuda a Deus. Por outro lado Gonzaga também descreve um ufanismo regional, uma paixão pela sua terra apresentando um sentimento de pertencimento a um “Sertão Lugar” acreditando em futuras mudanças. As paixões por outras espacialidades também são observadas no ritmo de um baião de bailes, onde o sanfoneiro descreve paixões pelas festas e dedicatórias as mulheres.

Já nas letras das músicas de Cesar Oliveira e Rogério Melo percebemos que não são citados problemas sociais, porém existem evocações tanto no quesito religioso quanto nas festas, amor a terra e romance. Comparando o contexto das evocações entre as diferentes regiões percebemos que a relação destas evocações são distintas no quesito espacial. A religiosidade tratada nas músicas dos gaúchos são orientadas a gratidão, enquanto que nas do sertanejo são de preces. As festas gaúchas retratam características regionalistas dos pampas, do churrasco, da fartura de alimento. O ufanismo por uma paisagem residual, conceito este tratado por Cosgrove (2004), de tropeirismo configurado atualmente como um rito das festas gaúchas fazem forte contraste com a paixão pelo sertão sofrido descrito por Gonzaga. Percebemos que apesar das evocações serem parecidas, a significação destas evocações são diferenciadas quando variamos a espacialidade. Ao mesmo tempo a fartura, a terra fértil, o gado gordo nos pastos, a dura vida de trabalho, sonhos, saudades de um Rio Grande antigo e pelos amores quando estão longe, amor pelas belas prendas, esperança e fé para sobreviver nos lombos dos cavalos e para uma vida farta com boas condições de sobreviver, descritas nas músicas sulinas. Se comparado a Gonzaga temos uma terra seca e infértil, o gado morrendo pela falta de pasto e água, a dura vida de se manter em uma região onde o povo judiado pela seca, falta trabalho e plantações não nascem, mas o amor e a saudade das belas mulheres e pela terra nordestina, a esperança pela chuva e melhorias e a fé para sobreviver todo os dias numa terra que jamais será abandonada por quem la nasceu e junto cresceu um amor por aquele chão é demonstrado em ambas as culturas. Percebemos que apesar das evocações serem parecidas, a significação destas evocações são diferenciadas quando variamos a espacialidade.

Conclusões

Observamos com esta pesquisa que as letras das músicas são ótimas fontes de informações para pesquisa em Geografia Cultural. O elemento comparativo por meio de contrastes entre regiões distintas evidenciou um promissor caminho para criarmos diálogos discursivos entre a diversidade regional do Brasil. A riqueza simbólica e as múltiplas descrições das paisagens feitas tanto por Gonzaga quanto por Cesar Oliveira e Rogério Melo evidenciou tanto problemas sociais quanto prosperidades. Paisagens residuais e ufanismo regional são também elementos marcantes quando comparadas as evocações das letras das músicas.

Espera-se que este estudo contribua para a compreensão e para a valorização da análise metodológica e teórica da dimensão simbólica regional das letras de músicas que caracterizam espacialidades distintas. Uma analise comparativa entre o sul e o nordeste Brasileiro, entre músicos e compositores mais velhos e atuais, valorizando ainda mais as culturas regionais. A sistematização da análise deverá resultar tanto nas informações obtidas a partir das letras das músicas quanto na metodologia empregada na pesquisa. Espera-se com isso que outros pesquisadores, a partir do contato com este trabalho, realizem novos estudos sobre a temática, o que contribuirá para o conhecimento das especificidades simbólicas expressas nas músicas de autores com cunho regional que deflagram a música não apenas como uma rica fonte de informações, mas também a música como a voz dos sujeitos com grande utilidade para a pesquisa na ciência geográfica.

Referências

CARNEY, G. O. Música e lugar. In CORRÊA, R. L.; ROSENDAHL, Z. Literatura, Música e Espaço. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2007.

CORRÊA, R. L.; ROSENDAHL, Z. Literatura, Música e Espaço. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2007.

KONG, L. Popular music in geographical analysis. Progress in Human Geography, 1995, n. 19, p. 183-198.

MASSEY, Dorren. Pelo Espaço – Uma Nova Política da Espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

* Graduando em Geografia pela UNICENTRO – Universidade Estadual do Centro Oeste.

* Professor do Departamento de Geografia – DEGEO da Universidade Estadual do Centro Oeste e Doutorando pela UEPG Universidade Estadual de Ponta Grossa.

MUSIAT, Mauro Augusto; CHIMIN, Alides Baptista. Representações Simbólicas Regionais em Músicas: Uma Análise Comparativa dos Trabalhos de Luiz Gonzaga e da Dupla César de Oliveira e Rogério Melo. P@rtes Março de 2016.

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