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REFLEXÕES À RESPEITO DAS GENERALIZAÇÕES SOBRE A CORRUPÇÃO – ou “o buraco é mais em baixo”
(W.J.Gerab -21/03/16)

À PROPÓSITO DOS COMENTÁRIOS CIRCULANTES DE QUE A CORRUPÇÃO ESTÁ ESPALHADA EM TODA A POPULAÇÃO, O QUE PODE LEVAR À BANALIZAÇÃO DOS CRIMES MAIS GRAVES.

William Jorge Gerab é sociólogo.

William Jorge Gerab é sociólogo.

No “Auto da Compadecida”, Suassuna concede, via Virgem Santíssima e seu filho, a absolvição eterna a Lampião, “Rei do cangaço”, apesar das suas atrocidades, por ter enlouquecido na infância, ao ver sua família dizimada (com requintes de crueldade), pelos jagunços de um coronel, interessado nas terras dessa família.

Suassuna, apenas repassa um conceito precário de justiça, muito enraizado na cultura de muitos povos, no qual, se for em retribuição, injustiça, autoritarismo e violência se justificam e podem gerar ciclos de repetição por tempo indeterminado.

Situação semelhante poderemos encontrar em outras obras, também explicativas das realidades históricas, em que estavam inseridas. É o caso de “O Tempo e o Vento”, do brasileiro Érico Veríssimo e de “Cem anos de Solidão”, do colombiano Gabriel Garcia Marquez.

É real que, no tempo, espaço e situação, em que se desenrolaram essas obras literárias, as legislações e institucionalidades estavam menos desenvolvidas, do que no presente. Mas, penso serem essas as raízes desse comportamento quase generalizado de se apropriar de algo que, por justiça, não pertenceria (e não pertence) a quem se apropria.

Não vejo como essa realidade possa ser modificada à partir de atos exemplares, quase heroicos ou de quem se proponha a ser como se imagina que fosse Jesus Cristo. No nosso passado recente, inclusive no Brasil, houve aqueles e aquelas, que se propuseram a ações exemplares contra a tirania política, as injustiças sociais e a mal distribuição das riquezas socialmente produzidas. Mas, o significado dessas ações não conseguiu, por diversos motivos, se fazer claro para o imensa maioria das pessoas, os seus protagonistas acabaram num trágico isolamento político e social e essas iniciativas não subsistiram.

Por mais utópicas, que possam parecer, as saídas desse impasse apontam para uma nova estrutura de poder, viabilizada (também) pelo uso da comunicação informatizada, onde as decisões importantes possam ser tomadas por grande e crescente número de pessoas, conscientes dos interesses majoritários da sociedade, que consigam operar as mudanças necessárias nos âmbitos da justiça social (fim dos privilégios de classes etc.) e da melhor distribuição de renda.

No ambiente criado por esses procedimentos, haverá espaço para vigorar, mais do que transparência, a visibilidade das decisões e ações de interesse coletivo, que será fruto do desinteresse, também, crescente, pela corrupção e, até, pelo crime de uma forma geral.

Não se pode esquecer, porém, dos períodos, que separam o “agora” dessa nova estrutura social, política e econômica: o imediato e, se abraçada pela maioria da sociedade, o período de transição.
Nos dois casos, se terá que aperfeiçoar a distinção entre os aspectos quantitativos e qualitativos dos crimes de corrupção cometidos (assim como nos demais crimes).

Ao contrário de igualarmos os vários tipos e níveis de corrupção, se terá que distingui-los com a maior precisão possível (a gravidade da falta cometida ao se furar a fila na lotérica é muito menor da cometida ao se roubar verbas da saúde publica, por exemplo). Isso tornará possível se aplicar punições adequadas a cada nível de crime cometido, permitindo uma reeducação ampla, que não incentive outras pessoas a praticarem a mesma falta e, mais ainda, a repetição da mesma.

De qualquer forma, está posto que a discussão da atual crise ética, política, social e econômica é mais ampla do que a colocada pelas grandes mídias e pelas autoridades protagonistas de ambos os lados em confronto.

Abração!

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