A faxina como terapia

A FAXINA COMO TERAPIA

Margarete Hülsendeger

 

O cultivo da tranquilidade é um método extremamente eficiente para alcançar qualidades de elevada consciência.

Dalai Lama

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Relaxar apresenta, segundo o dicionário Houaiss, oito diferentes significados: “dispensar do cumprimento de, perdoar, debilitar, corromper-se, enfraquecer-se, deixar de exigir, negligente, procurar repouso”. No entanto, na linguagem do dia-a-dia quando a palavra “relaxar” aparece em uma conversa, geralmente, é na sua oitava forma, ou seja, representando a busca por momentos de recreação nos quais se procura diminuir a tensão nervosa e a ansiedade.

Nesse sentido, pode-se dizer que existem várias formas de relaxar, tudo dependendo do perfil da pessoa. Há aqueles que se sentem absolutamente relaxados quando estão atrás do volante de um automóvel – “sem lenço e sem documento”, como na velha canção de Caetano Veloso – outros diante de uma imagem particularmente bonita da natureza – um mar azul ou uma bela cachoeira na mata – e existem aqueles que só relaxam quando há muita adrenalina envolvida – navegar em meio a corredeiras ou escalar montanhas. Confesso que nenhuma dessas atividades me atrai, sou das que prefere um sofá confortável e um bom livro como forma de relaxamento.

Contudo, uma pesquisa realizada na Universidade do Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, envolvendo 51 voluntários, comprovou que o trabalho doméstico – lavar louça, por exemplo – também pode se constituir em uma forma eficaz de relaxamento, reduzindo sensivelmente os níveis de estresse. Preciso dizer que ao ler a notícia fiquei bastante surpresa porque, para mim, faxina sempre significou esforço físico sem qualquer tipo de reconhecimento. Racionalmente, sei que é algo necessário, se o objetivo é viver em um ambiente saudável, mas, confesso que essa é uma tarefa que eu não teria problema algum em transferir para outra pessoa.

Nesse estudo, realizado na Califórnia, os pesquisadores dividiram os 51 voluntários em dois grupos: uma metade leu um texto sobre lavar pratos de forma consciente, concentrando-se apenas na tarefa que está desempenhando, seguindo instruções inspiradas em uma técnica meditativa chamada mindfulness; enquanto a outra fez a mesma atividade, mas sem receber qualquer tipo de instrução, agindo como, geralmente, agimos quando estamos envolvidos em uma atividade mecânica: pensar, pensar e pensar, de preferência em todos os problemas (reais e imaginários) que nos absorvem durante o dia (e muitas vezes, a noite).

O objetivo do mindfulness (“atenção plena”, em português) é manter a mente focada no presente, prestando atenção a todos os gestos que se está fazendo naquele momento: colocar detergente da esponja, ensaboar o prato, abrir a torneira, enxaguar e assim para cada peça de louça. Toda a vez que a mente tentar fugir (e ela vai, muitas e muitas vezes) é preciso trazê-la para o momento “lavar louça”. É claro, como em qualquer tipo de meditação, é importante estar sempre atento a forma de respirar; a consciência, portanto, deve estar centrada na respiração e na atividade que se está realizando. Esse mesmo processo pode ser aplicado à limpeza do banheiro e a outras atividades domésticas (passar roupa, por exemplo).

Um dos autores do estudo informou que aqueles que prestaram atenção ao que estavam fazendo – sentindo, inclusive, a temperatura da água e o aroma do sabão – reduziram os níveis de estresse em 27% e relataram sentimentos de inspiração. Já o grupo que executou a tarefa “por fazer” não apresentou os mesmos resultados. A conclusão dessa pesquisa é que se conseguíssemos executar pelo menos uma atividade dessas com total atenção, como ensina a técnica mindfulness, seria possível melhorar nossos estados de consciência – e, claro, diminuir o estresse cotidiano.

Lendo parece fácil, mas acreditem, não é. Eu tentei e não fui além da xícara do café. No entanto, tenho clareza que minha tentativa não foi das melhores, pois, quando me distraia não me esforçava em tentar permanecer no momento presente. O resultado foi o esperado: a louça (ou o banheiro) foi lavada, mas terminei a tarefa com uma tremenda dor de cabeça. Nunca fui muito boa em meditação, logo, minha experiência fracassada não deve servir de exemplo para ninguém.

Controlar a respiração é o primeiro estágio para qualquer tipo de meditação, se você consegue isso o resto vem “ao natural”. Como eu sei? Simples. Essa técnica, apesar do nome inglês, é de origem oriental e, assim como tantas outras, milenar. A novidade não é propriamente a técnica, mas o fato de ter-se realizado uma pesquisa para avaliar os efeitos que ela pode ter sobre o comportamento humano. Assim, a grande questão (uma que eu ainda não consegui resolver) é vencer as preocupações e ansiedades do dia-a-dia, tentando encontrar em nossa mente um espaço de tranquilidade e equilíbrio. Processo que não vai ocorrer de uma hora para outra e muito menos na primeira lavada de louça suja. Como explica Dalai Lama, “transformar a mente é algo que só pode ocorrer por meio da reflexão contínua sobre o objeto de nossa meditação”. Por isso, vamos arregaçar as mangas e encarar a faxina da semana como uma forma de aprimoramento mental e não desperdicemos tempo pensando no que pode acontecer, mas, sim, no que está acontecendo, agora, neste exato minuto.

 

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